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Caso Tancos. Um dos arguidos é de Vila Verde e já terá sido ameaçado

Fernando André Silva

Roberto Carlos PInto da Costa, nascido em Parada de Gatim, Vila Verde, é um dos oito arguidos na Operação Húbris, caso que envolve o “desaparecimento e recuperação” do armamento militar do quartel de Tancos. O advogado de Pinto da Costa, ao Semanário V, referiu que este já foi ameaçado de morte depois de iniciar o inquérito judicial.

Nascido em Parada de Gatim, o atual major do Exército Português e militar da Polícia Judiciária Militar (PJM), de 47 anos, é apontado pelo DCIAP como um dos oito envolvidos no plano que, alegadamente, a PJM terá desenvolvido para um “reaparecimento” de armas que, na realidade, não seriam as furtadas inicialmente em Tancos, numa alegada tentativa de tranquilizar a população..

Na acusação, é apontado um memorando da PJM a sugerir que Pinto da Costa e outros dois militares da PJM fossem agraciados pelo Presidente da República pela recuperação das mesmas.

Segundo a acusação do DCIAP, já com o plano em marcha, o major terá informado outro investigador da PJM, o major Vasco Brazão, que a PJ civil estaria a investigar as movimentações da PJM por suspeitas de que esta polícia militar iria “encenar” o reaparecimento das armas.

Ao que o Semanário V apurou junto da defesa do processo, Roberto Pinto da Costa terá sido avisado por um amigo, elemento da PJ civil, de que essa mesma polícia estaria já a investigar o alegado plano da PJM.

Ao que apurámos, a denúncia anónima que levantou a investigação terá sido feita por um colega de Pinto da Costa, com a patente de coronel.

“PJ civil terá tentado seguir Pinto da Costa no Algarve mas a PJM fez uma rusga e impediu colocação de georeferenciador”

A acusação refere que, depois de tomar conhecimento da investigação da PJ civil, Pinto da Costa deslocou-se ao Algarve para reunir com militares da GNR que, alegadamente, também estariam envolvidos na recuperação das armas, tendo sido naquele momento captado em vídeo por agentes descaracterizados da PJ civil.

No entanto, a PJM sabia dessa vigia e também vigiou os agentes à civil, impedindo que os mesmos, alegadamente, colocassem um georeferenciador na viatura dos militares.

Ao que o Semanário V apurou, os agentes da PJ civil foram mesmo alvo de uma rusga por parte da PJM naquele momento, que terão surgido de G3 em riste impedindo os agentes à paisana de cumprir o plano.

O Semanário V falou com João Magalhães, advogado de Braga com ligações à freguesia de Cabanelas, já no final de outubro, mas apenas agora foi autorizado a publicar as declarações do advogado que defende o major de Parada de Gatim.

João Magalhães – Advogado de Roberto Pinto da Costa (c) Joaquim Gomes

“O Pinto da Costa [major] já foi ameaçado de morte durante este processo. Não lhe vou dizer por quem em ‘on’, mas é um facto. Ele seguiu as minhas indicações e, quando foi interrogado, disse toda a verdade”, aponta o advogado, explicando que, em dias anteriores, o chefe máximo da PJM teria dito aos restantes envolvidos que ia assumir toda a encenação, algo que acabou por não acontecer e que forçou Pinto da Costa a falar a verdade. João Magalhães diz mesmo ser “surreal” existir uma acusação de “terrorismo” contra Pinto da Costa.

“Está a ver a Guerra das Estrelas? Isto é igual, dá para seis ou sete filmes. E o meu defendido é o diretor artístico”.

“O juiz Ivo Rosa já veio dizer que no processo de roubo das armas não houve terrorismo. Se não houve terrorismo no roubo, porque é que vai haver terrorismo na recuperação das mesmas”, questiona o advogado. “O que o juiz disse é aquilo que sustentámos desde sempre”, acrescenta.

“Daí para a frente, toda a acusação perde legitimação, porque o juiz Ivo Rosa, basicamente, apelidou o DCIAP de incompetência, e deita por terra a justificação da antiga procuradora Joana Marques Vidal de que colocar a PJ civil a investigar o caso de Tancos era uma questão de terrorismo”, refere o advogado, dizendo mesmo que a antiga procuradora queria “proteger o informador da PJ civil quando sabia que a PJM estava com um grande embaraço com o exército e que o precisava resolver”.

Segundo a acusação, o responsável pelo furto foi um meliante da região centro conhecido como “fechaduras”, que, diz João Magalhães, é informador da PJ civil. “O fechaduras onde anda? Pois… E o Pistolas, que era quem carregava os paióis? São todos informadores da PJ civil e foram os responsáveis pelo roubo. No entanto, não se vê nada a ser feito quanto a isso”, atira o advogado, referindo que a lei é explícita.

“Qualquer roubo de material do exército é competência da PJM. No entanto, a Joana Marques Vidal ligou ao diretor da PJM [coronel Luís Vieira] a dizer que aquela polícia não podia continuar a investigar este caso”. “Ela não queria é que se chegasse ao Fechaduras”, atira o advogado, “para proteger uma das mais importantes fontes da PJ civil.

“O Pinto da Costa [major] já foi ameaçado de morte durante este processo. Não lhe vou dizer por quem, mas é um facto”

“A PJ tem um informador aqui no Norte chamado Quim Bombeiro, A PJ usa o Quim para fazer encomendas a traficantes de notas e depois faz a detenção. Uma vez apanharam um milhão de dólares em Guimarães. Todos sabem que o Quim Bombeiro trabalha com a PJ para apanhar gajos. Logo, o Fechaduras está para o tráfico de armas como o Quim Bombeiro está para as notas falsas”, explica o advogado.

João Magalhães dá ainda a entender que o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, saberia de todo o plano de recuperação do armamento. “O Presidente da República referiu que o ministro da Defesa deveria estar presente nos interrogatórios. Não porque fosse um criminoso, mas porque toda a gente sabia a operação que a PJM continuava a conduzir”, diz.

O advogado conta ainda um episódio que se terá desenrolado quando a PJ civil tentou entrar em Tancos. “O chefe de estado maior do exército sabia. A PJ não entra sem mandato judicial e deixou-los 6 horas cá fora, na mesma altura em que a PJM tinha montado uma encenação para levar armas para Tancos e dizer que eram aquelas. O que não sabemos é se realmente são aquelas as armas que foram roubadas. E se não são, porque é que o Fechaduras não está a ser alvo de maior pressão?”, interroga o advogado.

“Está a ver o Monopólio? O Fechaduras tem uma carta que diz livre de prisão”.

“Porque é que o Fechaduras esteve três dias antes do assalto alojado ao lado de Tancos? Junto com o contabilista?”, questiona ainda João Magalhães. “Este caso arrepiou os cabelos do cu a Portugal mas agora já ninguém quer saber das verdadeiras respostas quanto ao roubo das armas, apenas querem saber sobre a encenação”, refere, deixando no ar que este roubo poderia servir como fornecimento ao exército português estacionado no estrangeiro.

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Jornalista