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Entrevista: “Há milhares de gatos errantes em Braga a reproduzir descontroladamente”

Fernando André Silva

Sónia Marinho é a principal responsável pela Saquetas de Rua, única associação legalizada que atua na cidade de Braga a capturar gatos assilvestrados para esterilizar e impedir assim que novas colónias se multiplicam nas ruas. Falámos com esta farmacêutica que assinou recentemente um protocolo com a Câmara de Braga onde passa a receber apoio financeiro para a esterilização dos animais, feito até agora pelas próprias custas.

Altino Bessa e Sónia Marinho assinam protocolo / Sérgio Freitas

 

Que balanço faz em relação à atividade da Saquetas de Rua desde que passou a estar ao abrigo da parceria com a Câmara de Braga?
Sónia Marinho: Desde o início do protocolo, em pouco mais de dois meses, capturamos para esterilizar cerca de 50 fêmeas e 15 machos. Retiramos da rua para adoção sete animais dóceis. É um número vasto para nós, dado que somos uma associação com uma estrutura humana muito pequena, mas ainda assim, para a realidade da cidade, é um número diminuto, visto que há milhares de gatos errantes a reproduzir descontroladamente.

Quais as maiores dificuldades que encontram na captura, esterilização e devolução (CED) dos animais? 
A falta de tempo. Temos muitas colónias identificadas e todos os dias nos enviam mensagens a sinalizar mais animais. Não conseguimos ir a todas.

Quais as soluções para amenizar as dificuldades?
Seria necessário mais pessoas no terreno dispostas a aprender como capturar e manusear gatos silvestres. Também há limitações financeiras. Este protocolo permitirá à nossa associação mediar o CED para cerca de 100 animais e já cumprimos mais de metade dessa meta.

Qual é a vossa área de intervenção? Apenas a rua ou também esterilizam colónias situadas em domicílios privados?
Por vezes encontramos situações de pessoas com maior carência económica que têm gatos não esterilizados em casa ou nos quintais e tentamos ajudar, quer financiando algumas esterilizações, quer intercedendo junto dos veterinários para fazerem preços mais reduzidos na esterilização dos animais cujos tutores têm uma situação mais vulnerável.

O que tem de mudar na mente dos cidadãos e do poder autárquico para ajudar a resolver a questão dos gatos de rua?
É necessário que haja uma grande mudança na mentalidade das pessoas, para que haja uma verdadeira mudança de paradigma. Em primeiro lugar é preciso que exista empatia – se as pessoas não se conseguirem colocar na pele de um animal que nasce na rua, que passa frio e fome, que vive em stress permanente num ambiente hostil, não irão despertar para o problema. Por outro lado, é necessário que as pessoas saibam que não há um lar para todos, pelo que por cada animal que deixem ter ninhadas, estarão a contribuir para adensar o problema. Por fim, é absolutamente crucial que o poder autárquico crie meios para esterilizar os animais das famílias carenciadas, dos gatos que aparecem nos jardins e nos quintais e que não são propriamente de ninguém, bem como alargar os meios para esterilizar um número significativo de gatos de rua que permita começar a inverter o crescimento exponencial de animais errantes.

Gostava de ver criado o cargo de Provedor do Animal no concelho de Braga. Porquê? O que mudaria? Tem algum perfil de possível candidato ao cargo?
A criação da figura do provedor dos animais é incontornável para qualquer município que intente resolver a questão da sobrepopulação de animais errantes e dos maus tratos a animais de companhia. O provedor dos animais é o elo de ligação entre os munícipes e o poder local e cabe-lhe recepcionar as denúncias e sugestões dos cidadãos e diligenciar no sentido da resolução destes problemas. Imagine que na sua rua existe uma colónia de gatos errantes, quem é que contacta para solicitar a intervenção (esterilização e monitorização) da mesma? E quem gere todas as solicitações? E quem avalia e comunica à câmara quais os meios e mecanismos que são necessários alocar para resolver as questões que surgem diariamente? Neste momento não há ninguém em Braga com essa responsabilidade. Lisboa teve em 2013 a primeira provedora dos animais, o que permitiu melhorar significativamente as condições dos animais da cidade. É importante que a pessoa escolhida tenha verdadeira intenção e motivação na resolução dos problemas dos animais e para tal deverá ser imparcial, autónoma, e neutra nas suas decisões; não pode, como tal, ser um cargo de índole política.

Onde é que a Saquetas de Rua difere das restantes associações que habitualmente lutam pelo direito dos animais?
No que concerne à área geográfica onde atuamos, somos a única associação legalizada que atua no terreno a capturar gatos assilvestrados para esterilizar. Para nós a esterilização de gatos errantes é primordial para contrariar o sofrimento a que são vetados todos os animais que nascem na rua. Paralelamente, alimentamos e cuidamos das colónias onde intervimos e sempre que temos possibilidade, retiramos animais dóceis para adoção.

Quem é a Sónia Marinho e porque se dedica a este tipo de atividade? Concilia a mesma com alguma profissão?
Sou uma cidadã comum, que adquiriu uma sensibilidade especial para a questão dos gatos de rua. Em 2009 recolhi da rua o Gabriel, um gatinho bebé em muito más condições. Desde então, comecei a reparar nos gatos com que me cruzava e a alimentar uma colónia com mais de 30 gatos. Rapidamente percebi que alimentar era insuficiente, pois quase todos os gatos bebés que lá nasciam acabavam por morrer das formas mais cruéis. Esterilizei toda a colónia e hoje só restam lá dois gatos. Se todas as colónias forem esterilizadas, não haverá, no futuro, animais a nascer na rua. Na Holanda, é isso que acontece, pois foram encetadas medidas verdadeiramente eficazes de incentivo à esterilização. Tenho uma profissão em full time como farmacêutica comunitária e todo o trabalho voluntário que desenvolvo junto dos gatos de rua só é possível graças a um esforço pessoal facilitado pelo gosto que tenho em ajudar os animais e por todo o apoio e compreensão do meu marido, família e amigos.

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Fernando André Silva

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Jornalista