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O Sr. Faria tem um museu no sótão em Vila Verde. E abriu-nos as portas

António Faria na sala onde coleciona chávenas e loiças (c) Luís Ribeiro / Semanário V

António Fernando Faria, 88 anos, tem um protótipo de “museu” de colecionismo no sótão da habitação que ocupa na Rua Prof. Elísio de Moura, em frente à Praça da República, em Vila Verde.

António Faria tem o museu no terceiro piso de um prédio na Praça da República (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Fomos visitar este “museu” que não se destaca em nenhuma especialidade museológica ou sequer tem portas abertas ao público, mas não deixa de ser um dos locais mais emblemáticos que já visitámos no concelho de Vila Verde.  E encontramos coleções de “um pouco tudo e mais alguma coisa”.

O senhor Faria, como é conhecido, juntou a primeira peça de colecionismo – um lápis – em 1982. De lá para cá juntou mais de 500 lápis, 600 chávenas de café, 400 moedas, 300 adereços em vidro, mais de 150 canetas, centenas de isqueiros, jornais, quadros, e até latas da “Compal” dos anos 90. Há também posters do Vilaverdense FC, onde jogou nos anos 40, e do Sporting CP, clube do qual é adepto.

Sala com artigos de loiça e vidro (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Comecei a construir este museu quando deixei de caçar e pescar”, revela. Na altura com 82 anos, Faria percebeu que já não reunia condições para o passatempo que lhe ocupava os dias da reforma. e decidiu dedicar-se ao colecionismo.

“A minha primeira peça de coleção foi um lápis que me ofereceram nos anos 70 na Câmara de Vila Verde, onde trabalhei toda a vida”, explica Faria, que exerceu funções de fiscalização no município. “A partir daí, comecei a guardar lápis que me iam oferecendo e de vez em quando comprava alguns”, diz.

A segunda peça de colecionismo, uma chávena, foi-lhe oferecida em Évora, num estabelecimento comercial. “Gostei tanto daquela chávena que pedi à proprietária para ma vender. Ela acabou por ma dar. E eu nem sequer bebo café [risos]”.

António Faria na segunda sala do “museu”, no sótão (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Com uma vida dedicada ao município, Faria era também um dos “melhores podadores” de Vila Verde, em outros tempos. “O antigo presidente da Câmara só chamava o meu pai para os trabalhos de poda”, diz José Faria, filho de António e atual presidente da Junta de Vila Verde e Barbudo, que nos acompanhou na entrevista.

De podador e fiscal, a partir de 2012, o senhor Faria passou a gerir um museu a tempo inteiro, com ajuda da gata “Rita”, que tem um canto reservado no sótão/museu onde passa o tempo com o colecionador. São, aliás, três salas distintas no último piso daquele edifício com as mais variadas exposições, e onde a dificuldade de locomoção é intensa devido às várias estantes construídas pelo próprio Faria.

Sr. Faria na oficina, terceiro espaço do sótão onde ele próprio faz as estantes para as outras salas (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Sou eu que faço as estantes ali naquela oficina. Sempre tive jeito para isto e como não tinha onde guardar os objetos, resolvi o problema. Assim também me vou entretendo”, refere.

Para aumentar a coleção, ainda em 2012, Faria fez um “negócio” com uma das habituais vendedoras de velharias e antiguidades, que todos os meses monta banca em Vila Verde. “Ela vendia-me três chávenas a um euro, por isso é que fui conseguindo juntar tantas. Um dia lembrou-se e já pediu dois euros e eu não lhe comprei mais”, diz Faria, que vê nos seis filhos outros potenciais colecionadores, já que José Faria coleciona calendários e outro filho coleciona cabeças de animais embalsamadas.

Sr. Faria em busca de artigos para o “museu” (c) Luís Ribeiro / Semanário V

De notar que, devido à imensa panóplia de objetos colecionados, o senhor Faria já mal se consegue mexer por entre as três salas/museu, mas isso não preocupa os familiares, que dizem mesmo que este “é o mundo dele” e onde “ele consegue ter um envelhecimento ativo” dentro de todas as limitações físicas que já tem.

“Vou-me entretendo aqui. Sei que já é difícil mexer-me mas eu vou arranjando isto à minha maneira”, aponta Faria, revelando que ainda existe “outra sala” com objetos de coleção. E lá fomos espreitar.

António Faria só não coleciona telemóveis (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Tenho as moedas todas que estiveram em circulação do Euro e ainda várias do tempo do escudo”, confessa Faria, enquanto nos mostra vários arquivos de moedas, devidamente resguardadas de qualquer humidade ou pó.

No 1.º piso da habitação, há espaço para a coleção de moedas e lápis (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Ao lado das moedas, os ditos cartuchos, que lhe proporcionaram uma simbólica mudança na vida que o fizeram encontrar a derradeira paixão de uma vida preenchida que também lhe proporciona um envelhecimento ativo. O colecionismo.

“Vou-me entretendo com isto enquanto por cá ando. Gosto disto, faz-me passar o tempo e obriga-me a vir cá cima, ir à rua, assim vou esticando as pernas”, finaliza Sr. Faria, enquanto volta a colocar tudo ordenadamente no lugar. Ao seu próprio jeito.

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Acerca do autor

Fernando André Silva

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Luís Ribeiro

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