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Militares destacados no Afeganistão de regresso a Vila Verde

Tenente Fernando Fernandes e André Faria (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Fernando Fernandes, 31 anos, natural de Prado São Miguel, oficial do Exército Português, Tenente de Cavalaria, liderou um pelotão da Companhia Quick Reaction Force, composta por 38 elementos do Regimento de Cavalaria N.º 6 de Braga, que esteve destacado entre maio e novembro de 2018, no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, capital do Afeganistão. Um desses elementos é André Faria, 25, natural de Oleiros e condutor do exército. Falámos com estes dois militares de Vila Verde poucos dias após o regresso da comissão que visou garantir segurança e proteção da base do aeroporto internacional de Cabul, um dos mais movimentados do oriente.

Tenente Fernando Fernandes e André Faria (c) Luís Ribeiro / Semanário V

No teatro de operações, estabelecido dentro do perímetro do aeroporto, os militares foram bastante elogiados pelo rigor com que efetuaram a missão, havendo ainda tempo para ensinar algumas palavras em português aos civis afegãos. Mas também existiram momentos de tensão, com um atentado à bomba na via pública, a poucas centenas de metros de uma das entradas da base guardada pelos portugueses. No entanto, ambos são unânimes sobre a maior sensação adquirida neste tipo de missão. “Representar o nosso país lá fora é tão importante como a seleção ganhar um Europeu”.

O tenente Fernando Fernandes explicou ao Semanário V que esta força militar foi constituída em Viseu, com elementos daquele regimento de infantaria, em conjunto com a cavalaria de Braga e infantaria de Vila Real. “Essas três unidades militares têm como elemento comum a Brigada de Intervenção, daí terem sido estas três a fornecer militares para a missão internacional”, explica o oficial do exército, que comandou o pelotão de 38 homens destacados do RC6 de Braga.

“Em Braga foi feita uma seleção de militares para representar o nosso regimento além-fronteiras, e eu também fui escolhido para a missão. Foi gratificante”, refere o oficial. Em Viseu foi feito um aprontamento de seis meses, inciado a 6 de outubro de 2017, onde foram treinados os procedimentos a colocar em prática no teatro de operações. No final foi feita uma inspeção do exército e decretado o estado de “combat ready”, que significa que as tropas estão prontas para ingressar no teatro de operações, para onde foram projetados a 7 de maio de 2018, rumo a Cabul.

1ª Força Nacional Destacada no Afeganistão na missão da NATO “Resolute Support Mission”,

A primeira missão deste género para portugueses

Sobre a missão, Fernando Fernandes, filho de um casal de taxistas de Prado São Miguel que lhe ensinou a arte do trabalho desde criança, aponta esta tarefa militar como “a primeira do género para tropas portuguesas” e que se conseguiu boa impressão de todos fruto de “muito trabalho”. “Não havia ninguém que tivesse feito este tipo de missão, de segurança e proteção rápida no aeroporto, e isso trouxe-nos algumas dúvidas que acabaram por ser colmatadas com um reconhecimento que fizemos algum tempo antes”, explica, demonstrando que isso faz parte de um bom líder.

Tenente Fernando Fernandes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“É uma das exigências de um oficial. Saber lidar com responsabilidade. E também com os seus militares. Saber quando deve atuar disciplinarmente ou quando elogiar. Tem de existir um equilíbrio, a mesma mão que dá é a mesma mão que tira. Temos de tomar decisões de forma acertada com os meios que nos são fornecidos e isso é uma tremenda responsabilidade”, aponta.

“A nossa função principal era fazer proteção interior da base, ou seja, dos muros da base para dentro temos de agir de forma rápida e eficaz para eliminar qualquer tipo de ameaça, de forma a garantir a segurança do aeroporto”, explica, revelando que existiram “dois momentos de tensão” aquando a execução de tarefas que, pela sua natureza, aumentaram o risco dos militares.

“Foi em alturas que eu tinha forças do meu pelotão mesmo no limite exterior da base de segurança, em contacto com civis. A missão que nos era atribuída passava por garantir a proteção de outros elementos, mesmo em trabalhos no limite da base. A rede de proteção ficou danificada, então tivemos de fazer uma bolha de segurança para lá da rede, onde já estamos em contacto com os civis. As condições climatéricas potenciam à degradação dessas infraestruturas e tínhamos de fazer proteção aos elementos que as iam reparar. Nessa altura havia maior preocupação devido à exposição”, confessa.

Os civis

Fernando Fernandes e André Faria são unânimes em relação aos civis com quem contactaram, dentro do aeroporto. “Alguns estão quase ocidentalizados e têm muitos dos nossos costumes”, conta André Faria.

Tenente Fernandes explica que os militares receberam instrução em Portugal para saber lidar com eles. “No Ramadão, sabíamos que não podíamos comer em frente a eles, ou fumar. Temos uma mesquita na base, não podemos entrar com os sapatos, não devemos ter uma sola de sapato virado para um afegão porque é sinal de desrespeito, e tudo isso foi nos instruído ainda em Portugal”, explica, revelando que o trato foi sempre muito amigável. “Os portugueses são de uma forma natural afáveis e respeitadores e eles entendem isso”, acrescenta.

Tenente Fernando Fernandes e André Faria (c) Luís Ribeiro / Semanário V

André Faria recorda um jardineiro civil que aprendeu os carateres do alfabeto. “Havia um jardineiro que vinha ter connosco com um papel para aprender o nosso alfabeto. No final já sabia escrever da esquerda para a direita”, diz numa alusão à forma árabe de escrita. “No final da missão, já ele sabia articular algumas frases em português”, acrescenta Faria.

“Havia também outro civil, um empregado do refeitório, que sempre que via portugueses perguntava várias palavras e depois já sabia dizer “bom dia”, “tudo bem”, “obrigado”. Quando temos alguém que nos dá alguma interação, devido à missão ser muito rotineira, estando dentro de quatro paredes, permite passar o tempo de forma mais rápida”, explica Fernandes.

Disparam tiros para celebrar qualquer coisa

André Faria, 25 anos, natural de Oleiros, trabalhava na Torre 1 de vigia, e conta que “de vez em quando ouvia-se algumas explosões da parte de fora da base”. “Os happy shootings também eram frequentes, quando os civis disparavam tiros para o ar para celebrar qualquer coisa. Lá era quase todas as semanas”, diz o também encarregue pelo acesso ao paiol, onde registava todas as entradas e saídas.

“Fomos muito elogiados pela nossa maneira de trabalhar lá, porque somos muito rigorosos e não havia falhas nenhumas, com ninguém. Por vezes apareciam pessoas que não estavam autorizadas e nunca arriscávamos, nunca deixávamos entrar”, conta André Faria.

André Faria (c) Luís Ribeiro / Semanário V

O militar recorda que logo no primeiro mês houve um atentado a poucos quilómetros de uma das entradas da base portuguesa. “Foi a primeira vez que ouvi um atentado. Depois da explosão ouvimos as sirenes. Não era nada connosco, mas vestimos o equipamento e mantivemos o perímetro de segurança”, conta O atentado foi depois reivindicado pelo Estado Islâmico. Conta faria que os militares seguem uma página no instagram que fazia a cobertura desses atentados, e as imagens eram assustadoras. “Na verdade são os próprios terroristas que mais morrem com estes atentados, porque são suicidas”, explica.

“O espírito que se cria no exército é como o de uma família”

André Faria 25 anos, alistou-se no exército a 5 de novembro de 2012. ficou colocado quatro anos em Lisboa, no regimento de transportes. Em dezembro de 2016 foi colocado em Braga. “Neste momento tenho as cartas todas, acho que é uma mais valia, mesmo que um dia não queira ficar no exército”, explica.

“Em Lisboa ajudei a tirar mobílias de hotéis que faziam renovação para levar a casas de caridade. Assim como os alimentos recolhidos no banco alimentar, também somos nós que damos apoio”, explica.

André Faria (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“O espírito que se cria no exército começa a ser uma segunda família. Foram os melhores tempos que estive, foi em Lisboa. Tornou-se ali uma família. Depois de quatro anos, escolhemos o destino e escolhi Braga. Sabia que lá podia fazer uma missão no estrangeiro, e isso era um objetivo”, confessa o soldado.

“Braga é um dos regimentos mais operacionais que existe no exército e estavam preparados para regressar ao Afeganistão. Já fizeram Iraque, Lituânia. Caem muitas missões no regimento de Braga, terá sido também por isso que quis voltar para cá. A nível de experiência é o auge da carreira militar, fazer uma missão. Lá é que vivemos mesmo o exército”, confessa.

Tenente Fernando Fernandes e André Faria (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Dos seis meses, André Faria faz um balanço extremamente positivo. Recorda no entanto o embarque onde “é complicado deixar família e ver a mulher a chorar”. “Ligar para a mãe e perceber que está com a lágrima no canto do olho. Mas lá vamos ajudando uns aos outros. Se alguém está mais em baixo, outro pega nele e vai tomar um café, desabafar. As coisas resolvem-se através dos laços de amizade, como em tudo na vida”.

Academia Militar

Fernando Fernandes, 31, Tenente de Cavalaria e natural de Prado São Miguel, fez o percurso escolar em Vila Verde, trabalhou dois anos numa empresa de climatização em Braga, mas decidiu ingressar no exército para tirar um curso superior. “Sempre foi o meu grande objetivo”, conta. “Entrei como contratado mas passei a oficial depois de concluir os estudos na Academia Militar. Fui soldado, fui cabo, estive no Kosovo como soldado, e esta [Afeganistão] foi a minha segunda comissão”,

Sobre o percurso na Academia Militar, o tenente refere que “incutir valores” é o essencial. “Não é a educação, isso vem de casa, a meu ver. Mas há muitos valores como honra, lealdade, responsabilidade, não mentir, honrar a palavra que aprendemos a respeitar no exército. Imagine o que é ter alguém com uma arma na mão com uma bala na câmara. Isso é a responsabilidade de tirar a vida alguém. Além disso a capacidade de podermos representar Portugal lá fora. É muito importante. Um pouco como a seleção ter ganho um Europeu. É um orgulho”, aponta.

Tenente Fernando Fernandes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Primeira missão foi no Kosovo

“Quando acabei a recruta fui colocado no RC 6 em Braga. E tinha oportunidade de ficar onde fiz recruta mas escolhi Braga até porque era mais perto de casa. Foi o critério mais preponderante. Não tive dúvidas – e não tenho – que Braga é uma unidade de excelência no exército português. Já vinha de uma família trabalhadora, com pais taxistas, mas no exército obrigaram-me a trabalhar, conta o tenente que está no exército desde fevereiro de 2008.

“No Kosovo eu era um soldado inexperiente, e uma missão internacional dá-nos muita experiência militar. Contactamos com outras nações, outras maneiras de trabalhar, outros exércitos, outro armamento, outro equipamento, o que permite aprender muito e assim replicar em território nacional”, explica.

Ao voltar do Kosovo fez curso de cabos e ingressou na Academia Militar, fez mestrado em Ciências Militares, especialidade de Cavalaria. “Foram cinco anos a estudar numa escola superior muito completa que abrange vários parâmetros da sociedade, quer em termos físicos, académicos e militares. No final escolhi voltar a Braga, em outubro de 2015.

Tenente Fernando Fernandes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Fernando Fernandes, fruto da via académica acabou por passar de praça para oficial. “Aconselho a Academia Militar também porque no final já se sabe que se vai exercer aquelas funções quando terminar. Também porque lidamos com várias disciplinas, desde programação, educação física, estratégia militar, história, geografia, que nos ajudam na carreira. Aconselho aos jovens que ainda não sabem muito bem o que seguir que experimentem a vida militar”.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista