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É de Vila Verde um dos mais talentosos violetistas da Orquestra Jovem Europeia

Carlos Domingues (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Royal Albert Hall, em Londres, Sala Real de Concertos de Amesterdão, Konzerthaus, em Berlin ou Ópera do Dubai são algumas das salas míticas ao redor do globo onde Carlos Domingues já atuou. O jovem músico de 20 anos, natural de Vila Verde, ingressou no início de 2018 na Orquestra Jovem da União Europeia, uma das mais prestigiadas orquestras para jovens talentos da música erudita, a quem entrega todo o talento que já demonstra na viola d’arco.

Orquestra Jovem da UE

À conversa com o Semanário V, o jovem estudante na licenciatura de música da Universidade de Aveiro explica que tem pretensões de prosseguir carreira profissional no mundo da música. E o percurso fala por si. Influenciado pelo avô materno, com quem assistia aos concertos de Ano Novo na televisão, aos dez anos ingressou na Academia de Música de Vila Verde para aprender violino. O percurso no secundário já foi mais orientado para um futuro profissional a nível de música, completando-o no Conservatório da Gulbenkian, em Braga, onde concluiu o oitavo grau de estudos musicais [equivalente ao 12.º].

Na hora de escolher a universidade, Carlos Domingues explica que se tratava de uma mudança de ciclo.. “Para além de ingressar no ensino superior, decidi que seria altura de repensar se me iria manter com o violino ou não. Tive oportunidade de tocar numa viola emprestada por uma amiga minha e decidi que era isso que ia fazer. Fiz provas na segunda fase para UMinho em viola d’arco com um repertório de violino. Ingressei na UMinho onde iniciei o primeiro ano. Mudei para Aveiro onde estou atualmente a completar o terceiro ano da licenciatura depois de uma Master Class em Braga, onde percebi que o estilo de um professor da UAveiro era mais ajustável às minhas ideias e fui estudar para lá”, esclarece.

Carlos Domingues (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Trocar o violino pela viola d’arco

O jovem prodígio tocou violino entre os 10 e os 18 anos, atuando em locais como a Casa da Música ou o Centro Cultural de Belém. No entanto, aos 18 anos, fruto de um “gosto especial”, acabou por preferir a viola d’arco. “Tem um som mais aveludado e é mais parecido com a voz humana”, classifica. “Desde há algum tempo que queria experimentar e fazer a transição e acabou por ser uma transição natural, feita há dois anos”, refere, apontando um papel mais de “acompanhamento e harmonia” ao novo instrumento. “Já o violino adquiria um papel mais solista e de virtuosismo, e não é bem isso que pretendo”, vinca. “Com a viola d’arco, o público percebe as cores da música, se é mais romântico ou mais agressivo.”.

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Porquê gostar de música

O músico explica que desde o ensino primário, através das disciplinas extra-curriculares, entrou em contacto com a música. “Também tinha contacto com o meu avô materno que ouvia os concertos de Ano Novo e já faleceu. A minha família continua a ouvir hoje em dia, mais porque estudo música clássica”.

Carlos Domingues (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Acho que a influência do meu avô terá sido um ponto de partida para ter conhecimento geral sobre música de orquestra, mas não terá sido por isso que decidi seguir a música a nível profissional. Na EB 2,3 de Vila Verde, onde fiz o ensino básico, apanhei o primeiro ano de ensino articulado e recebi uma carta no correio a perguntar se me queria inscrever. A minha mãe sugeriu e eu acedi. Era uma atividade extra-curricular e para ocupar o meu tempo, mas a partir daí aprendi a tocar violino, a contactar com outras pessoas com conhecimentos no mundo da música e que me foram ajudando e guiando até onde estou”, aponta.

Sobre as preferências fora da atividade curricular musical, Carlos garante ouvir “todo o tipo de música”. “Eu não ouço só música erudita, também ouço música comercial. Gosto de Pearl Jam, Radiohead, por exemplo. Quando vou a conduzir gosto de pôr a música no carro aos berros e é o que estiver a dar na rádio [risos].

Carlos Domingues (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Orquestra europeia

Explica Carlos que o ponto mais alto da carreira foi ter sido admitido na Orquestra Jovem da União Europeia, onde tocou em salas de renome mundial em duas “tours” realizadas em 2018.

Sobre a experiência, traz sobretudo os bons momentos passados com os restantes colegas. “Sinto que tocar naquela orquestra, seja numa grande sala ou num armazém, em qualquer sítio, vamos sempre estar a aproveitar o momento, com diversão, e sempre a fazer o melhor que podemos. Estamos lá para desfrutar de todo trabalho que tivemos para a preparação dos concertos”, refere. E a preparação é muita.

“Tivemos duas ’tours’ este ano de 2018. A primeira foi na altura da Páscoa, em Ferrara, Itália, onde estivemos três semanas em preparação para vários concertos. No final começou uma tour, viagem para um lado, viagem para o outro. Estamos hoje em Amesterdão, amanhã em Berlim, depois em Varsóvia. Já estamos preparados para isso”, clarifica, acrescentando que “com aquela orquestra, como é tudo condensado num espaço de um mês, os concertos são divertidos, saímos sempre a sorrir e com vontade de fazer o próximo”.

Carlos Domingues (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Para o futuro, Carlos tem em mente acabar a licenciatura, talvez fazer um quarto ano, “e ir lá para fora”. “Vou fazer provas para várias universidades que me interessam para ficar a estudar lá fora”, diz, explicando que pretende, a nível profissional, conseguir um dia um lugar num grupo de música de câmara, preferencialmente um quarteto com violinos, violoncelo e viola d’arco.

“É o que mais me completa. A vida a solo não me atrai muito. Existem três principais vertentes para um instrumentista e intérprete de música erudita. Solo, orquestra e música de câmara. A vertente a solo é quando alguém faz um concerto em que é a figura principal. Tocar com orquestra, é onde todos os instrumentos têm um papel fundamental para a música. A música de câmara é o melhor dos outros dois mundos. É uma orquestra reduzida, onde podemos partilhar a responsabilidade. Para mim a música tem de ser partilhada. Falo por mim quando digo que a vertente solo não me atrai muito porque não sinto que tenha de fazer a música para mim”, vinca.

Carlos Domingues (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Formação musical é 95% trabalho e 5% talento

Carlos Domingues não tem dúvida de que a formação musical é um bom rumo a seguir para as crianças. A disciplina, os horários, a postura, tudo se adquire com esta formação. “Para quem quer seguir música, digo queé 95% trabalho e 5% talento. E isto já me foi ensinado na Academia de Vila Verde. É a maior verdade que existe para um músico. E nunca desmotivem, mesmo quando fazem erros. Isso é só um momento. Continuem sempre a procurar novas formas de ver a música”, finaliza.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista