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Aos 88 anos, Felisbela é a vendedora ambulante mais antiga da cidade de Braga

Dona Felisbela (
Fernando André Silva

Com 87 anos [completa 88 dentro de alguns dias], Felisbela Marques monta banca de assar castanhas na cidade de Braga em setembro, mas é na altura do Natal em que o estômago sente frio que o aconchego de uma castanha pode significar tudo para alguém. É assim que a vendedora ambulante mais antiga da cidade encara o aumento de procura durante o período de Natal e o frenesim que a cidade tem registado nos últimos anos.

A vendedora ambulante que nasceu em Sequeira mas “fez vida” em Cabreiros, está há 50 anos no Largo de São Martinho, pelo outono e inverno, a vender “as melhores castanhas de Braga” e não tem dúvidas em afirmar que é a vendedora mais antiga da Rua do Souto. Exposta ao clima de inverno da cidade, vai apanhando algumas gripes e constipações, mas nem frio nem idade impedem o progresso diário de uma tarefa que consiste no regalo dos apreciadores das castanhas da região. E durante mais de meio século viu comércio a abrir e fechar, e “o fogareiro das castanhas sempre a ficar”.

Felisbela vende castanhas em Braga © Fernando André Silva / Semanário V

Falámos com Felisbela, que de face vermelha e pingo no nariz, recordava tempos em que vendia doces nas festas em Vila Verde e tinha de dormir no camião ou no chão. Durante a conversa, várias foram as vezes em que puxou do lenço para resolver o incómodo do pingo. “Estou adoentada. São 88 anos e a idade não perdoa”, desabafa. Está assim desde novembro, mas “já há melhorias”. Luciano, o único dos onze filhos que decidiu acompanhar a mãe neste tipo de negócio, tem ajudado, mas “está há alguns dias a fazer ‘biscates’ em uma obra como picheleiro”.

“Mas eu aguento bem. Há mais de 50 anos que vendo castanhas ao ar livre, estou bem habituada ao vento, ao frio e à chuva”, atira Felisbela, com um sorriso que lhe é caraterístico e que faz delícias dos turistas que querem sempre levar uma recordação. Alguns até já a conhecem sem nunca terem vindo a Braga, tal é a força das redes sociais.

 

Felisbela acede aos registos fotográficos sem qualquer resistência. Diz mesmo que há muitos que a abordam só para registar no telemóvel, e nem sequer compram castanhas. “Eu não me importo. Dizem que vou para a internet”, diz, enquanto abana o fogareiro para mais uma rodada de castanhas, perante o olhar de uma mãe e de uma criança que aguardam o “ponto certo” em que a castanha esteja devidamente assada. E a calma com que Felisbela mira o fogareiro acalma quaisquer ansiedades a uma criança esfomeada.

Enquanto espera pelo fogareiro, controlando o fogo com o abanador, diz que o negócio “corre bem”. “Há mais gente a passear na rua e isso é bom”, diz. Durante a Parada de Natal, acabou por ser inconveniente, com a banca a ser ofuscada. Mas o que mais irritou Felisbela foi mesmo a venda ambulante ilegal. “Andavam a comprar gorros de pai natal ali nas lojas a 25 cêntimos e a vender a um euro na rua”, denuncia. “São muito espertinhos mas precisam de licença para fazer isso”.

Fogareiro de castanhas em Braga © Fernando André Silva / Semanário V

Devidamente licenciada pela Câmara de Braga, Felisbela mantém o negócio no Largo São Martinho [no cimo da Rua do Souto] há mais de 50 anos, vendendo castanhas a toda a Braga, havendo poucos bracarenses que não conheçam esta figura já mítica do centro histórico bracarense. É a vendedora ambulante mais antiga da cidade de Braga.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista