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Emigrante morre na sequência de ataque de vespa-asiática em Vila Verde

Irmão da vítima mostra local da tragédia © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

António Manuel da Costa Macedo, 47 anos, emigrante na Suiça, chegado a Portugal no dia 22 de dezembro para as festas natalícias, entrou em paragem cardiorrespiratória e perdeu a vida ao final da tarde de quarta-feira, dia 26 de dezembro, em Dossãos, após um ataque de vespa velutina, mais conhecida como vespa-asiática. As últimas palavras de António à família, instantes antes de morrer, relataram um ataque das vespas “assassinas”.

Funeral realiza-se em Dossãos, Vila Verde © DR

O eletricista emigrado há vários anos em Vale de Joux, no cantão de Vaud, Suiça, procedia ao abate de algumas árvores no terreno da família, na Rua N. Sra. dos Milagres, no lugar de Santa Iria, freguesia de Dossãos, depois de ter feito a limpeza do vasto terreno nas traseiras da casa de família durante todo o dia.

Ao abater uma árvore de pequeno porte, junto a um valado silvestre, já perto do final da tarde, terá sentido uma primeira picada de uma vespa, apercebendo-se nessa altura da existência de um ninho escondido por entre os ramos da árvore que acabara de cortar. O ato enfureceu as velutinas.

Acabou por cair no meio das silvas junto à raiz da árvore, com o desespero de tentar fugir e gritar por socorro. Ao que apurámos no local, esta quinta-feira, tratam-se de vespas velutinas, e ainda existiam centenas a tentar “remendar” o ninho danificado.

Desconhece-se o número de picadas de que terá sido alvo.

Irmão da vítima mostra local da tragédia (c) FAS / Semanário V

Segundo relatou a família enlutada ao Semanário V, António Macedo ainda conseguiu pedir socorro, indo um irmão em seu auxílio. O irmão conseguiu resgatar António do silvado, tudo em pouco mais de cinco minutos após o ataque das vespas, e ajudou-o a andar cerca de 50 metros, até à casa da família.

Já na eira da casa, António deixou de sentir os membros inferiores, começou a espumar pela boca e acabou por perder os sentidos, entrando em paragem cardiorrespiratória até chegada dos meios de socorro. “Foi tudo muito rápido”, explicam os familiares.

Ninho ficou parcialmente danificado após queda da árvore, o que levou ao ataque das vespas (c) FAS / Semanário V

Ao local acorreram os Bombeiros Voluntários de Vila Verde com uma ambulância ABSC e uma equipa médica da Viatura Médica de Emergência e Reanimação do INEM sediada no Hospital de Braga, que procedeu à tentativa de reanimação da vítima durante cerca de meia-hora. Militares do posto territorial de Vila Verde da Guarda Nacional Republicana registaram a trágica ocorrência.

António acabou por ser declarado óbito no local, pouco passava das 17 horas de quarta-feira, e transportado pelos Bombeiros de Vila Verde para o Instituto de Medicina Legal, sediado no Hospital de Braga, onde foi autopsiado durante a manhã desta sexta-feira.

Segundo fonte da família, António teria complicações cardíacas, existindo a hipótese da morte de paragem cardiorrespiratória ter sido causada por um enfarte, na sequência do ataque, ou então como causa direta da substância tóxica libertada pela vespa.

“Não podemos ter a certeza, mas está ali o ninho ainda cheio de vespas na árvore que ele cortou. E ele estava a gritar que estava a ser picado quando pediu que o acudissem”, disse o irmão. “Estava bem antes de cortar a árvore com o ninho e morreu poucos minutos depois do ataque”, acrescenta.

O funeral realiza-se este sábado, pelas 10 horas, na igreja paroquial de Dossãos, concelho de Vila Verde.

António limpou o terreno e procedia ao abate de árvores quando sofreu ataque em Dossãos, Vila Verde (c) FAS / Semanário V

Ao que apurámos, existe outro ninho, com vespas ativas, a cerca de 200 metros do local onde António perdeu a vida.

A 15 de junho de 2015, também um agricultor de Cervães perdeu a vida na sequência de um ataque deste tipo de vespas.

Vespa foi de Monção a Santarém em 7 anos

A vespa asiática incide desde 2011 particularmente na zona do litoral norte e nos distritos de Viana do Castelo e Braga, mas tem vindo a propagar-se pela região centro do país, com ninhos identificados este ano em todo o norte do distrito de Santarém, garantiu o comandante da Proteção Civil Distrital de Santarém, Mário Silvestre, em novembro deste ano.

“Temos relatos em toda a zona mais a norte do distrito de Santarém da existência de ninhos e ultimamente com casos cada vez mais frequentes”, disse, apelando aos populares para que não destruam “o ninho pelos seus próprios meios”.

A introdução involuntária da vespa velutina na Europa ocorreu em 2004 no território francês, tendo a sua presença sido confirmada em Espanha em 2010, em Portugal e Bélgica em 2011 e em Itália em finais de 2012.

Nem as áreas urbanas escapam à espécie invasora

A cidade de Braga também tem registado vários casos de ninhos com enxames de “asiáticas” em locais onde menos se espera. Recentemente, os Bombeiros Sapadores de Braga eliminaram um ninho de vespas localizado no tronco de uma árvore no centro de Braga, em frente ao Museu Dom Diogo de Sousa, ao lado do parque infantil da Cividade.

Ninho de velutina (vespa-asiática) inserido em árvore no centro de Braga (c) FAS / Semanário V

O movimento das vespas foi detetado por alguns populares que passaram junto à árvore, de espécie Bougainvillea glabra. Estas colónias conseguem ter até mais de dez mil vespas. Em pouco mais de três minutos no local, perto de três dezenas de vespas chegaram ao ninho, vindas de matança de abelhas e recolha de néctar.

O espaço, a pouco mais de 20 metros do conhecido espaço de restauração Colinatrum Café, é habitualmente frequentado por crianças, que utilizam o parque infantil, a 50 metros da mesma árvore. O ninho acabou por ser eliminado por operacionais da Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga durante a noite com recurso a um composto de isolamento.

Apicultores de Vila Verde desanimam com “genocídio” de abelhas

O problema causado por este tipo de vespa, que chegou a Portugal em 2011 e desde então tem provocado mortes humanas mas também a morte a um número incontável de abelhas, destruído colmeias, forçado muitos apicultores a abandonarem a profissão. A vespa velutina é uma espécie não-indígena, predadora da abelha europeia (Apis mellifera).

Apicultores eliminam ninho de asiática em Aboim da Nóbrega, Vila Verde

Carlos Peixoto, um dos apicultores do concelho com mais colmeias – perto de uma centena – a residir em Gondomar [concelho de Vila Verde], explicou ao Semanário V que este ano as vespas “estiveram mais agressivas”.

Este tipo de vespa, que de há cinco anos para trás não existia em Portugal, constrói os seus ninhos, habitualmente, num raio de um quilómetro das colmeias, em árvores de grande porte ou até em apartamentos e postes de eletricidade, e a principal dieta das mesmas consiste em abelhas mas são também canibais.

“As nossas abelhas ainda não sabem lidar com estas vespas. Quando as pressentem na zona, ficam nervosas e mal querem sair das colmeias, o que faz com que produzam menos”, conta Carlos Peixoto, explicando que reduz as entradas na colmeia ao mínimo porque as abelhas, devido ao medo, estão permanentemente em “modo cortina”.

Apicultores eliminam ninho de asiática em Aboim da Nóbrega, Vila Verde

O apicultor profissional revela que este ano teve um rombo de 70% na produção de mel, assim como outros apicultores da região.

“Estava estimado tirar perto de uma tonelada de mel este ano mas só consegui fazer perto de 400 quilos. Falei com outros apicultores e sentiram a mesma percentagem na quebra”, diz, apontando “o clima e a vespa” como principal motivo para esta quebra.

“Esta quebra foi em grande parte motivada pelas chuvas que atrasaram o desenvolvimento das plantas e as abelhas acabaram por não recolher tanto néctar”, explica, apontando, no entanto, as vespas asiáticas como principal motivo para que já não queira continuar a produzir mel em Vila Verde.

O apicultor explica que no próximo ano vai levar algumas colmeias para a região do Douro.

“Vou lá recolher o mel a alguns apicultores e lá não há vespa asiática, pelo menos para já. Estou a pensar levar já umas 20 colmeias no próximo ano e depois vê-se como corre”, adianta Peixoto.

Outro dos problemas causados pelas vespas incide no apodrecimento da fruta. “As vespas têm mandíbulas e conseguem picar a fruta, apodrecendo-a. Estão cada vez em maior número e cada vez atacam mais as fruteiras. Isso acaba por prejudicar os produtores de fruta também”, explica.

Ninho de “asiática”

Desde meados de agosto que a vespa-asiática saiu do ninho em busca de alimento, tendo como alvo preferencial as abelhas, às quais corta a cabeça e come o abdómen ainda carregado com néctar. É em janeiro que as rainhas velutinas hibernam e parte do enxame morre, regressando ao ativo em abril com a construção de novos ninhos.

Segundo a agência ambiental Quercus, em 2014 tinham sido detetados no nosso país apenas 280 ninhos desta espécie de vespa. Hoje, já se perdeu a conta aos ninhos de vespa-asiática encontrados em Portugal, mas este número atinge já os muitos milhares.

Desde janeiro de 2015 que existe em Portugal o “Plano de Ação para a Vigilância e Controlo da Vespa velutina em Portugal”, coordenado pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e pela “Direção Geral de Alimentação e Veterinária” (DGAV).

A vespa-asiática é uma das 37 espécies que consta da “Lista de Espécies Exóticas Invasoras que Suscitam Preocupação na União” do Regulamento da União Europeia sobre espécie invasoras.

Estimativas europeias apontam para que o impacto económico anual das espécies exóticas invasoras ascendam a 12 mil milhões de euros em toda a União Europeia, sendo que para Portugal este valor será superior a 250 milhões de euros.

Existe uma plataforma para denunciar ninhos

A Plataforma SOS-Vespa visa apoiar a identificação e o controlo da Vespa velutina em Portugal. Através da georreferenciação online dos ninhos desta praga, este WEBSIG contribui para a comunicação entre os técnicos de Proteção Civil Municipal, a população e a Administração, bem como, para a tomada de decisão.

A aplicação web de natureza colaborativa e gratuita (SOS-Vespa) apoia a monitorização da distribuição e da expansão da praga da vespa asiática, através da geolocalização online de ninhos num servidor de mapas.

Com esta plataforma é possível através de um simples smartphone com ligação a internet, introduzir in loco a localização do avistamento e preenchendo formulário um simples com as características do ninho, bem como anexar fotografias do mesmo.

A Plataforma envia de seguida avisos automáticos aos técnicos de Segurança Pública e Proteção Civil da respetiva área de jurisdição que se encontrem registados na plataforma, para que estes passem agir de forma mais imediata e adequada nos focos de expansão da praga.

Desta forma, a monitorização espacial da evolução da Vespa visa, compreender as dinâmicas e padrões de distribuição espacial, identificar as zonas mais afetadas, e, zonas críticas, definindo intervenções oportunas e otimizando as estratégias e operações de luta e combate.

A eliminação/exterminação do ninho georreferenciado deve ser registada, pelo técnico de Proteção Civil responsável. Este registo envia uma notificação automática ao utilizador do estado da sua observação.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista