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Câmara, PSP e “coletes”. Anarquia reinou em Braga e ninguém foi responsabilizado

Fernando André Silva

Estradas cortadas. Trabalhadores atrasados. Crianças com necessidades especiais retidas no trânsito e abuso de autoridade por parte de “coletes” perante automobilistas. A PSP justificava o ato com uma alegada autorização da Câmara de Braga, perante a estupefação de quem queria passar para seguir a sua vida. O movimento dos coletes amarelos pervaleceu em Braga durante toda a manhã de 21 de dezembro até que o presidente da Câmara, Ricardo Rio, decidiu parar com o “caos” que se ia gerando no conhecido Nó de Infias, em São Vicente, durante a manhã dessa sexta-feira.

Os primeiros “coletes” chegaram de Barcelos, Guimarães, Vizela, Famalicão, entre vários outros pontos do distrito bracarense. De Braga, poucos. Organizaram o protesto através das redes sociais, ainda nos primeiros dias de dezembro. Um grupo de WhatsApp serviu para marcar uma reunião física onde foi delineada a estratégia para bloquear Braga por tempo indeterminado. A ideia do grupo seria mesmo prolongar o bloqueio das estradas durante vários dias, à semelhança do protesto francês, que teve início a 17 de novembro de 2018 e ainda dura em 2019. Ao contrário de outros grupos do mesmo movimento criados em Portugal, este não aparentou ter qualquer índole nacionalista ou racista. Um plano executado por várias pessoas que se conheceram através das redes sociais e que se mostram preocupados com o custo de IVA, rendas, luz, água e combustível. Grosso modo dos “coletes” que estiveram em Braga.

O plano não correu como o previsto. E o Semanário V antecipou tudo

Em comunicado, o comando distrital da PSP de Braga informou a imprensa de uma alegada “autorização” da Câmara de Braga para que os “coletes” se manifestassem. O comunicado dizia que o corte de estradas poderia acontecer e aconselhava os condutores a seguirem por vias alternativas. Contactámos Firmino Marques, vereador com o pelouro da Proteção Civil, e João Rodrigues, vereador dos Espaços Públicos, pelouro que notifica a PSP sempre que existe alguma atividade ao ar livre com conhecimento da autarquia. Este último disse não ser verdade que a Câmara de Braga autorizou a manifestação. Indicou que, assim como faz com procissões ou outro tipo de arruadas que são comunicadas previamente à autarquia, deu conhecimento da intenção da mesma às autoridades. Já o responsável político pela Proteção Civil municipal avisou, através do nosso jornal, que o protesto seria imediatamente desmobilizado pelas autoridades caso interferisse com a proteção civil. E assim aconteceu.

Pelas 6 horas da manhã os primeiros “coletes” cortavam o acesso à António Macedo. Primeiras viaturas a chegar após o corte foram camiões e algumas carrinhas. Um dos condutores, bloqueado na linha da frente, foi à mala e tirou um colete. Juntou-se ao protesto e a carrinha ali ficou. Ao lado, um camião com um motorista em fúria para chegar ainda durante a manhã a Lisboa. “Não passa. Pegue no colete e junte-se a nós”, dizia um dos “coletes”.O motorista não fez caso e pôs pé ao acelerador. Foi o primeiro e o último que haveria de furar qualquer passagem no Nó de Infias durante aquela manhã.

Os “coletes” multiplicaram-se?

Não. A PSP cortou as estradas ao redor daquele nó, evitando que os “coletes” entrassem em confronto com o trânsito. Assim ficaram cortados os acessos a Braga pela zona norte da cidade. Estava delineado pelas forças de segurança e tudo correu de forma pacífica nos acessos de Infias. Porém, na rotunda abaixo, conhecida pela Taberna Belga, algo terá escapado ao plano das autoridades. Acompanhámos esse local com ávida atenção. O “colete” que chefiava as ordens naquela rotunda, um dos três “responsáveis” para “não deixar ninguém passar”, tinha entrado num longo conflito com um automobilista, pouco passava das 6h40.

Nas barbas de um agente da PSP, o único naquele local, o manifestante deu ordem de paragem a um automobilista que seguia de São Vicente para a Confeiteira. O condutor, visivelmente desorientado pela ordem de “abandone a viatura nesse mesmo local”, pediu informações ao agente, que disse nada poder fazer. Seguiu-se uma discussão de vários minutos em que o “colete” dava ordens ao condutor para que abandonasse o carro no meio da rotunda e fosse a pé até à Confeiteira. O condutor não acatava a ordem, pedindo para estacionar o carro, garantindo que seguiria a pé. O pedido não foi acatado numa primeira instância. Nem na segunda ou terceira. O carro só saiu da rotunda quando chegaram mais agentes da PSP.

“O socorro não será condicionado”

Pelas 11h, surge o primeiro problema grave para os “coletes”. Um ambulância em emergência vem da Confeiteira e não consegue passar na rotunda ocupada em São Vicente. Do mesmo modo que o “colete” que chefiava ordenou ao automobilista madrugador que deixasse o carro a ocupar a faixa da rotunda, fê-lo a um motorista de autocarro, que acatou a ordem. A viatura impedia a passagem de qualquer veículo na rotunda, e isso seria o descanso dos “coletes”, pois já não precisavam de estar de pé a ocupar a via. No entanto, a ambulância tramou-os. Sem conseguir passagem, e após várias tentativas, o bombeiro sapador inverteu a marcha e regressou à Confeiteira, entrando depois pela variante cortada, onde conseguiu passar em direção ao hospital sem qualquer problema, pois havia uma via de emergência aberta, como era do conhecimento entre “coletes” e PSP.

“A culpa é da Câmara”

Cerca de duas horas após o bloqueio da ambulância,e depois da PSP nacional emitir comunicado indicando que apenas em Braga o protesto era autorizado pela polícia e de um comunicado da Câmara de Braga a indicar que não tinha autorizado qualquer protesto como tinha dito o comando distrital da polícia em Braga. A PSP, de forma pacífica, desmobilizou os “coletes” e reabriu as estradas. O grupo foi então manifestar-se à porta da Câmara de Braga, a quem exigiam uma explicação sobre o pedido de desmobilização. Um contigente da PSP reforçou as entradas do edifício durante mais de uma hora.

Os três “coletes” responsáveis reuniram com o edil e decidiram acatar a ordem, pedindo ao grupo para desmobilizar. Alguns “coletes” não gostaram. “Vendidos”, ouviu-se à porta do edíficio, rodeados por perto de meia centena de polícias. Mas todos acataram e regressaram a casa. Prometem voltar a parar Braga, mas talvez já não o consigam fazer. Fica na história o dia 21 de dezembro de 2018, em que nem Câmara nem PSP quiseram evitar que um grupo de 40 pessoas interferisse com a vida de milhares de outras pessoas durante toda uma manhã.

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Fernando André Silva

Jornalista