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Braga. Abate de pinheiro centenário “é o último golpe no ecossistema de Guadalupe”

Fernando André Silva

Uma árvore centenária situada na colina de Guadalupe, em São Victor, começou a ser abatida na sexta-feira por não garantir condições de segurança aos moradores, largando ramos secos e pinhas que, dada a altura, podem causar consequências graves. Mas nem todos concordam com a solução perene de remover a árvore e uma manifestação acabou por interromper os trabalhos por mais de uma hora, só terminando com a chegada da PSP, durante esta sexta-feira.

Os manifestantes, nos quais se inclui a deputada municipal do Bloco de Esquerda, Alexandra Vieira, invadiram a propriedade e encostaram-se à árvore, de forma a boicotar os trabalhos.  A deputada chegou a puxar uma corda de um trabalhador que inciava o corte de um ramo e o ato revoltou os restantes trabalhadores que acabaram por chamar a PSP ao local.

A PSP acabou por desmobilizar os manifestantes. Três estavam junto à árvore, enquanto cerca de uma dezena ficaram retidos no exterior do condomínio, selado pela autoridade

O pinheiro-manso em questão está encostado a um dos vários apartamentos de um condomínio privado construído a poucos metros da Capela de Guadalupe, na rua Álvaro Miranda. Com cerca de 40 metros de altura, a árvore foi plantada no início do século passado por um dos proprietários de um palacete siutado naquele terreno, mandado construir pela família Taxa, como nos explicou Magda Taxa, sobrinha-neta dos primeiros proprietários e alguém que viveu no palacete em criança.


Sara Almeida foi uma das manifestantes ontem presentes no local, e recordou ao Semanário V os tempos em que brincava junto àquela árvore em criança. “Foram destruíndo tudo o que aqui estava nesta colina com construções e só restou este pinheiro. Deitá-lo abaixo é o último golpe no ecosistema de Guadalupe”, atirou a manifestante que conheceu bem o palacete lá construído.

A casa foi demolida no final do século e o terreno ficou sem qualquer obra durante décadas. Por volta de 2008, e após vários imbróglios, foi construído no local um condomínio privado que, por opção do arquiteto Hélder Fontes, atual administrador, decidiu manter aquela árvore enquadrada na paisagem.

O arquiteto explicou-nos que não restou outra solução para além do abate e garante que tentou de tudo para que aquela árvore fizesse parte da paisagem. Refere que foi feita uma intervenção aquando da construção do condomínio para garantir que a árvore não seria abatida, por opção dos sócios da obra. “Convenci os sócios a investirem 200.000 euros para manter a árvore mas agora não temos outra solução”, reforça, apontando que “alguns moradores queixam-se que caem ramos secos e pinhas quando estão a sair de casa”.

Hélder Fontes chamou PSP ao local

Hélder Fontes refere que a árvore já tinha causado problemas em 2013, quando ameaçou ceder para cima dos telhados do condomínio. “Fizemos uma nova intervenção, podámos e conseguimos equilibrar a árvore. Agora parece querer ceder para o outro lado e ficamos com receio”, explica.

O arquiteto refere que foi pedido um parecer à Proteção Civil municipal de Braga, e que o mesmo terá aconselhado ao abate da árvore. A mesma informação foi confirmada ontem pela autoridade. “Compreendemos as preocupações ambientalistas da sociedade mas neste caso trata-se de uma questão de segurança”, reiterou o Hélder Fontes, situação reforçada pelo presidente da junta de São Victor.

Ricardo Silva disse-nos que a junta não teria qualquer intervenção nesta situação, mas refere que há queixas dos moradores de que a árvore não apresentava condições de segurança. “Compreendo os dois lados mas, infelizmente, o ambiente ainda não está no topo das prioridades e esta é uma questão que está no topo das prioridades, que é a segurança da população. Deveria ter sido pensado de outra forma quando foi feita a construção”, adiantou o autarca.

Pelo que apurámos junto da empresa responsável pelo abate, metade dos trabalhos ficaram concluídos esta sexta-feira, mas ainda falta abater o tronco do pinheiro, algo que estará reservado para a próxima segunda-feira.

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Jornalista