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Entrevista. Nuno Reis quer “departamento de pessoas” na Santa Casa de Barcelos

Nuno Reis, provedor da Santa Casa de Barcelos © Mariana Gomes / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Nuno Reis foi empossado no passado sábado como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos. Fomos saber um pouco mais do novo provedor daquela instituição.

Fale-nos um pouco de si e do seu percurso escolar e profissional

Nuno Reis, 40 anos, licenciado em Medicina Dentária pela Universidade do Porto. A meio do curso – que era de 6 anos – quando começam as cadeiras clínicas, cheguei à conclusão que aquilo que pensava ser a minha vocação não era bem a escolha certa. Cheguei à conclusão que gostava muito de saúde, mas na perspetiva da gestão. Essa conclusão começou por estar muito ligada à experiência que comecei a ter à frente da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina do Porto e, mais tarde, à frente da federação académica do Porto, onde fui eleito representante de toda a academia do Porto. Havia, nessa fase final do curso, a dúvida se deveria interromper o curso e tirar gestão ou se deveria levar até ao fim. Não gosto de deixar nada a meio, por isso decidi concluir o curso. Já na minha fase de dirigente da Associação Académica do Porto comecei a trabalhar numa empresa de família, na área dos tratamentos médicos domiciliários com oxigénio, na qual estive responsável pelas áreas de tratamentos domiciliários nos distritos de Lisboa, Leiria, Viana do Castelo, Coimbra e Aveiro e nesses momentos não abandonei a ideia de continuar a estudar e de fazer formação, por isso candidatei-me a um MBA, um Mestrado em Administração Empresarial. Foi bem-sucedido, estive um ano fora do país, numa escola chamada INSEAD, onde tive a oportunidade de conhecer França, onde vivi durante 6 meses e Singapura durantes outros 6, que me permitiu uma exposição na Ásia, que foi muito importante para a minha formação enquanto cidadão.

Regressei, voltei à minha atividade empresarial na área da saúde. Passado algum tempo surgiu um convite, em 2009, pela mão da Senhora Doutora Manuela Ferreira Leite, e fui deputado da Assembleia da República durante duas legislaturas – em bom rigor já tinha surgido em 2004, quando o governo caiu, era eu presidente da Associação Académica do Porto, tinha também acabado de ser eleito como representante dos estudantes de todo o país para o Conselho Nacional de Educação, recebi na altura o convite para integrar as listas de um partido político para a Assembleia da República. Não aceitei, porque, quer em termos empresariais, quer em termos de formação académica, queria continuar a trabalhar na empresa e preparar a minha candidatura a um MBA. Nessas duas legislaturas fui duas vezes eleito pelos deputados do PSD como coordenador do PSD para a área da economia e outras duas, já no governo de Passos Coelho, como coordenador para a área da saúde. Foi uma experiência bonita, que me enriqueceu, mas como tudo na vida, devemos ter um momento para começar e um momento para sair e dar por encerrado um ciclo.

Como chegou à Santa Casa da Misericórdia?

Já na fase final dessa experiência na Assembleia da República, a minha vontade de intervir socialmente levou-me a ser candidato numa lista aos órgãos sociais da Santa casa. Essa lista, na altura venceu as eleições contra uma lista que era protagonizada pelo provedor da altura. Isto em 2014. Saio do Parlamento, regresso à atividade empresarial, não na área da saúde, mas na área do agroalimentar, porque tinha, ainda, enquanto deputado, feito um investimento com um irmão meu em Vila Real, Rodrigo Reis. Um investimento ligado à castanha, mas que depois se alargou a outras áreas de vários frutos secos e também outros produtos, como frutos vermelhos, azeite e preparados para iogurte e esse investimento que fizemos em 2009 começava a reclamar mais atenção, porque só o meu irmão é que estava em Vila Real e eu passei a assumir a parte comercial dessa empresa. Nos meus tempos livres continuava a fazer parte dos órgãos sociais desta Santa Casa.

Durante 2018, várias pessoas de Barcelos, de várias áreas profissionais, de vários setores, de várias filiações políticas, foram-me desafiando a avançar com uma candidatura à Santa Casa da Misericórdia de Barcelos. Como tudo o que faço na vida, depois de uma grande reflexão, acabei por decidir avançar.

Que balanço faz destas últimas eleições?

Faço um balanço muito positivo, acho que é importante que as organizações tenham a oportunidade de debater ideias, de debater projetos e é bom quando, no setor social, existem pessoas disponíveis para dedicar um pouco de si ao próximo e, nessa perspetiva, julgo que é útil que tenha havido duas listas. Penso que é preferível um debate saudável do que um falso unanimismo. Confesso que, quando me candidatei, não esperava vencer por uma margem tão grande. É uma demonstração de confiança pela parte dos Irmãos que me traz, também, uma responsabilidade adicional. Quando faço uma análise dos resultados, penso que houve 3 ou 4 fatores que os ajudam a explicar. Desde logo o programa: eu e a minha equipa dispusemo-nos a recolocar no centro da atividade da instituição a sua missão institucional, que é dar cumprimento às obras de misericórdia. É importante que as Santas Casas de Misericórdia não percam essa sua matriz inicial, essa sua matriz cristã, essa sua matriz de acorrer às necessidades da sociedade, servir o próximo, sem perder de vista as sete obras de misericórdia corporais e as sete obras de misericórdia espirituais. E partindo desse princípio, nós propusemos aos Irmãos um conjunto de medidas para cada uma das obras corporais e espirituais e fizemo-lo de uma forma discreta, sem comunicação social. As pessoas ficaram a saber que eu seria candidato e que apresentaria uma proposta alternativa através de uma carta que escrevi eu próprio, com o meu punho. O programa que receberam não foi divulgado na comunicação social, fui eu e a minha equipa que construímos e que foi em primeira mão entregue a cada um dos Irmão da Santa Casa. Eu procurei fazer uma equipa que fosse o mais abrangente possível, em termos de experiências de vida, experiências profissionais, o mais abrangente em termos de pessoas oriundas de vários setores ideológicos e com vários pensamentos sobre o que deve ser uma organização social e cristã do século XXI. Penso que esse conjunto de pessoas conseguiu corporizar da melhor forma as nossas ideias e o nosso programa e transmiti-lo aos Irmãos. O facto de, nessas pessoas, haver pessoas que já tinham experiência demonstrada à Santa Casa, ajudou a dar credibilidade adicional.

Nuno Reis, provedor da Santa Casa de Barcelos © Mariana Gomes / Semanário V

Venceu o antigo provedor da Santa Casa. Quais são as expectativas de mudança?

Gostaríamos de dar cumprimento ao nosso programa e que a ação que vamos desenvolver corresponda à ação que apresentamos previamente aos Irmãos. Há uma frase muito bonita e inspiradora do Nelson Mandela que é: “Ação sem visão é mero passatempo. Visão sem ação é sonhar acordado e visão com ação pode ajudar a mudar o mundo”. E nós apresentamos uma visão e agora cumpre-nos dar cumprimento a essa visão. Eu não quero refundar a Santa Casa de Barcelos, nós estamos aqui para melhorar a Santa Casa de Barcelos em tudo aquilo que ela já faz, queremos fazer melhor e assumir uma vertente de intervenção social. A economia é feita de ciclos. Nós passamos, enquanto país, por momentos difíceis e que ainda estão na memória de todos, mas penso que é claro que a Europa e o mundo estão em transformação e que, mais cedo do que tarde, virão outros momentos difíceis. É para esses momentos difíceis que a Santa Casa de Barcelos e as organizações sociais têm de se preparar. Vais ser necessária uma rede de proteção social mais eficiente ainda do que aquela que, felizmente, ajudou a minorar os impactos da anterior crise. Quando digo que queremos cumprir o programa e cumprir as medidas que propusemos em torno das obras de misericórdia, nós queremos que aquilo que são as principais áreas de intervenção – a proteção ao idoso, a assistência à criança e a assistência ao doente – sejam as três prioridades principais, mas com uma centralidade estratégica nos utentes. Estas instituições asseguram o sustento a muitas famílias. A Santa Casa de Barcelos dá emprego a 400 pessoas, mas estas instituições não existem para existirem órgãos sociais, para existir um provedor, para existir colaboradores. Estas organizações existem porque existem necessidades na sociedade e temos de lhes dar respostas. A centralidade não são os órgãos sociais, não são os colaboradores, a centralidade são os utentes, aqueles que existem e aqueles que vamos começar a servir, não esquecendo os utentes que temos na atualidade, mas tentando perceber quais serão as necessidades futuras e nas quais teremos de estar preparados quer com profissionais muito qualificados, quer com infraestruturas que deem resposta às necessidades.

Referiu que quer estar sempre na linha da frente da inovação social. Que iniciativas podemos esperar para o futuro? Qual o projeto para a Misericórdia de Barcelos?

Uma das ideias que deixamos na nossa campanha é que aquilo que vai para além do que a visão comtempla é mais difícil de percecionar e é mais difícil de responder. Existem bolsas de pobreza que estão identificadas e às quais as organizações já dão resposta, mas existem, também, fenómenos que são chamados de ‘pobreza envergonhada’, às quais temos de estar muito mais atentos e muito mais prescientes para poder identificar e responder. Acho que temos que começar por, de uma forma muito discreta, de uma forma muito silenciosa, perceber se no nosso meio, a começar pelas 400 pessoas que cá trabalham, se estão todas bem, se as suas famílias estão bem, se o acesso que têm à saúde é o acesso que necessitam, se as pessoas que têm a estudar na universidade têm as condições necessárias para prosseguir na sua vida académica. Sem prejuízo da ideia de que a centralidade está no utente, teremos de estar muito mais atentos a começar pelos nossos colaboradores. Esse combate à pobreza envergonhada convoca-nos para olhar para dentro e para fora.

Lancei a ideia de deixarmos de ter Departamento dos Recursos Humanos e passarmos a ter Departamento das Pessoas, eu gostaria que a intervenção social que fazemos passasse também a ser uma intervenção social cá dentro. Enquanto provedor não terei um gabinete. Não quero ficar confinado a um espaço físico e andarei pelos cinco lares da instituição, pelos quatro jardins de infância, pelo Centro de Medicina Física e Reabilitação, pela Unidade de Cuidados Continuados. Quando digo que esse gabinete será transformado num gabinete de atendimento aos colaboradores, não estou a falar apenas de uma medida simbólica, estou a falar de uma ideia que visa transformar a forma como lidamos com o nosso próximo cá dentro. Quando, por vezes, através dos serviços sociais, preparamos o que é tradicional nestas alturas – ainda estamos a viver o final da época natalícia – preparamos os tradicionais cabazes de Natal para as famílias e para as pessoas que estão identificadas, também devemos perceber se, para além dos que estão identificados, não existem outros que precisem de ser identificados. Portanto temos de comunicar melhor entre nós, ouvirmos melhor aqueles que não têm tido a possibilidade de falar com quem tem capacidade de decisão. Eu não tenho dúvidas que pessoas mais motivadas e mais felizes conseguem dar um pouco mais e melhor de si ao próximo. O nosso fim último e a nossa principal missão é servir o próximo.

Lar da Santa Casa de Barcelos © Mariana Gomes / Semanário V

Há planos para, num futuro próximo, celebrar novos protocolos ou expandir instalações?

Com a exceção da Unidade de Cuidados Continuados e do Centro de Medicina e Reabilitação, as nossas unidades, sobretudo aquelas que prestam assistência ao idoso, necessitam todas elas de intervenção e particularmente o lar mais antigo da Misericórdia, que fica no edifício sede, precisa de adequar a qualidade das suas infraestruturas áquilo que são os padrões do século XXI. O principal objetivo aqui é valorizar as pessoas, é colocar os utentes como centralidade estratégica, é melhorar aquilo que disponibilizamos aos nossos colaboradores, mas além de valorizar as pessoas, temos de ter consciência para prestar o melhor serviço e conseguir dar soluções a estas infraestruturas que não correspondem aos padrões que gostaríamos. É um dos nossos desafios ao longo dos próximos tempos, é tentar junto às forças vivas da nossa sociedade, sejam elas entidades públicas como o Ministério da Saúde, a Câmara Municipal, as Juntas de Freguesia. Teremos de envolver toda essa sociedade no desafio de dar melhores condições aos utentes que já servimos e aos utentes que queremos vir a servir. Esse é um dos pontos chave naquilo que será a nossa atuação nos próximos tempos. Outros dos projetos idealizados é a construção de uma cantina central e mais lavandarias.

Qual é o número de utentes abrangidos pela Santa Casa da Misericórdia?

Temos, neste momento, 240 idosos em lar, 430 crianças às quais prestamos serviços de berçário, cresce e pré-escolar. Temos 55 pessoas permanentemente nos Cuidados Continuados. Prestamos cuidados de fisioterapia a mais de 700 pessoas por dia, em média. Temos, também, serviço de apoio ao domicílio, para cerca de 40 pessoas, temos Centro de Dia para outras 45 pessoas. Existem uma limitação de capacidade daquilo que são as limitações legais e também existem acordos com a Segurança Social. Para além dos acordos também podemos ter utentes privados.

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