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Entrevista. Carlos Veloso é de Braga e dá aulas à elite em Nova Iorque

Carlos Veloso © Mariana Gomes / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Natural de Braga e ex-aluno da Escola Sá de Miranda, Carlos Veloso é, desde 1997, professor na NYU – New York University -, onde concluiu o doutoramento em Literatura Comparada, em 2008.

Foi aluno do Sá de Miranda, do 7.º ao 12.º ano, fez a universidade em Lisboa e foi convidado para dar aulas na universidade da Madeira, quando ainda frequentava o mestrado. Como foi o seu percurso até chegar à NYU? 

Eu vim para cá após o 25 de abril. Não era bom aluno, no 7.º, 8.º e 9.º eu queria saber mais de futebol do que de escola, mas eu nunca fui um mau aluno, porque, contrariamente aos meus colegas, eu gostava de ler. Então eu tirava sempre boas notas nas aulas de português e ninguém entendia porquê, não passava tempo a estudar, não fazia nada, mas tirava boa nota. Chego ao 9.º ano e acontece um grande choque para mim. Não sabia o que escolher. Acho que ninguém sabe o que quer seguir com 14 ou 15 anos. Então, do 9.º ano para o 10.º eu segui os meus colegas. Eu não gostei, mas conclui o 12.º ano e não estava vocacionado para aquilo e não quis ir para a universidade imediatamente. Fui fazer o serviço militar obrigatório e passei 17 meses, um pouco em Mafra, muito tempo em Lamego e no final, em Chaves. Nessa altura tive tempo de ler, porque no serviço militar não se fazia nada.

Comecei a ler em Inglês, que não era a minha formação. Quando saí da tropa, vim aqui fazer, por acaso, um exame de inglês sem ter estudos formais. Então no exame final do 11.º ano, eles deram-me 17. Eu disse logo que ia mudar tudo. Fiz português 12.º ano, outra vez, e Alemão. E queria prestar a minha homenagem a duas professoras que foram extraordinariamente importantes para a minha vida: a doutora Odete ensinou-me imenso a analisar textos, contextos, pessoas… A outra pessoa, acho que também já está aposentada, chamada Eduarda Simões. Essa professora era tão boa que trazia pilhas de livros para eu levar para casa. Ela tinha uma biblioteca fabulosa e os grandes nomes da literatura anglo-saxónica, eu aprendi com ela. Terminado isso, não havia aqui em Braga a licenciatura que eu queria, Estudos Ingleses e Alemães. Havia no Porto, Lisboa e Coimbra. Eu escolhi Lisboa, porque sou mais cosmopolita do que regionalista e o Porto era muito próximo de Braga. Fui para Lisboa, 4 anos, fiz a Licenciatura e no final quase todos os meus colegas fazem uma coisa: vão frequentar as disciplinas pedagógicas e eu nunca gostei de pedagogia, nunca gostei que me dissessem como ensinar. Saltei imediatamente para o mestrado. Ao fim de seis meses, no primeiro ano, fui convidado para dar aulas na Universidade da Madeira. Continuei a fazer o mestrado e durante um ano e meio, todas as semanas eu viajava de Lisboa para o Funchal, do Funchal para Lisboa.

Como se deu a transição da Madeira para Nova Iorque?

A Madeira é muito bonita, mas tem um problema para mim: está rodeada por água. E eu sentia uma claustrofobia tremenda, queria sair e não podia. Curiosamente, agora moro numa ilha também, mas Manhattan tem 206 pontes, eu posso sair quando eu quero. Eu comecei a pensar na minha vida… “Eu vou ficar na Madeira ou não?” Lembro-me de momentos de angústia em que às 3 ou 4 da manhã saía da minha casa e ia para junto do mar dizer adeus aos navios, porque eu queria sair dali. Ao fim de três anos eu decidi que ia sair. Ou saía naquela altura ou ia morrer ali. É muito bonita a Madeira, mas não foi feita para mim. Eu saí, fiquei em Braga dois ou três meses e depois surgiu a oportunidade de ir para os Estados Unidos.

Como é que surgiu essa oportunidade?

Eu estive quase a assinar um contrato com a Universidade de Vila Real. Naquela altura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha um programa de colocação de professores noutras universidades. Eram várias possibilidades e eu concorri, obviamente, para Nova Iorque. Ganhei a posição e era interessante, mas muito cansativa, porque tinha de dar aulas na universidade e tinha de prestar apoio no consulado e na embaixada. Ao fim de 4 anos, uma pessoa tem de sair do local que ocupa e ir para outra cidade e eu consegui o adiamento de um ano. Nessa altura já estava a fazer o doutoramento lá. Ao fim de cinco anos tinha mesmo de sair e a opção era ir para Buenos Aires. Nada contra, mas eu nessa altura já estava casado com a cidade de Nova Iorque. Então desisti de estar ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e fui contratado a full-time pela universidade.

 

New York University © nyu.edu

 

A NYU é uma universidade privada e é uma das mais prestigiadas, mas também é muito cara. Qual é o valor das propinas na NYU?

As propinas na NYU são 100 mil dólares por semestre, 80 mil euros. Quando a criança nasce, os pais abrem uma conta bancária. Os meus alunos são todos riquíssimos, todos.

Tem, também, uma forte ligação com o Brasil. Como é que surge a ligação com o Brasil e a toda a América Latina?

A América do Sul não é muito grande, o que é grande é o Brasil. Quando cheguei a Nova Iorque, fui ao Brasil fazer uma conferência sobre um pensador chamado Eduardo Lourenço. Conheci-o lá nessa altura e vi um Brasil diferente. Nós aqui não sabemos o que é o Brasil, eles também não sabem o que é Portugal. Apaixonei-me pelo Brasil e passei a viver lá 4 meses por ano. A minha vida, desde esse momento, é: tento vir a Portugal no Natal, porque nós temos cerca de 4 a 6 semanas de férias por semestre, em Nova Iorque. O semestre acaba no princípio de Maio e eu viajo para o Brasil e regresso em princípios de Setembro. Depois fico até meados de Dezembro em Nova Iorque e depois venho para cá. Ou seja, passo 7 meses em Nova Iorque, 4 no Brasil e 1 mês na Europa. O meu objetivo é viver, pelo menos 4 meses, nos 26 Estados do Brasil. Eu já vivi, mais ou menos, em 20. E eu estou casado com Nova Iorque, mas tenho uma amante, que é São Paulo. Como falo a língua, português e espanhol, eles pedem-me para ir. Eles ajudam-me financeiramente e eu dou cursos.

Há três temas que não fala nas aulas: Política, Religião e Sexualidade. Porquê?

A situação está tão dividida que, se eu falo em alguma coisa e alguém se sinta ofendido, posso ser despedido. Recentemente aconteceu uma situação delicada: quase todos os alunos são de esquerda – o que lá se chama esquerda, mas aqui não é esquerda – que é o partido democrata e eles falam nas aulas. Dão aulas sobre direitos humanos, sobre imigração… temas polémicos. Uma colega minha começou a falar com muita enfâse, muita violência até, sobre o Presidente dos Estados Unidos, ou seja, anti-Trump. Só que um rapaz que lá estava não gostou e queixou-se ao tio. As universidades são privadas, ou seja, alguém tem de dar dinheiro à universidade e o tio era um dos grandes patrocinadores da universidade. Resultado, a minha colega teve de mudar de universidade, porque ela não podia ostracizar um aluno, se ele tinha uma opinião diferente. A sexualidade também é muito complicada. Em Nova Iorque, ter casas de banho masculinas ou femininas é impensável. Jamais. Tem de ter para outras pessoas. E quem não se declara homem e quem não se declara mulher? Por exemplo, num cinema onde vou, que é super liberal, eles adotaram a política de que a casa de banho é para toda a gente. Ou seja, a ideia de sexualidade é muito sensível. Se escolho um autor que é heterossexual, um aluno homossexual vai sentir-se excluído. Então eu prefiro não falar de sexualidade e eles sabem.

O 11 de setembro marcou a sociedade americana e o resto do mundo de forma tremenda. Onde estava naquele dia?

Oh Santa Maria! Só contei isto duas vezes na minha vida, não vou contar a história toda. As Twin Towers eram muito imponentes, eram ótimas para mim, no princípio, porque seja onde estivesse, eu sabia onde era sul. Eu morava a 300 metros. O 11 de Setembro foi numa terça-feira, o céu lindo, e quando Nova Iorque tem um céu limpo, é lindo, como só Lisboa sabe ter. Braga é diferente. O sol brilhante é em Nova Iorque, numa cidade na Colômbia e em Lisboa. Os aviões deram uma volta, eu estava em minha casa. Saí para a rua, tinha aulas, mas só tinha à tarde. Eram 8 horas e vinte e pouco quando o primeiro avião bateu na torre norte. Eu saí para a rua, ninguém sabia o que era na altura e não havia telemóveis. Todos pensavam que era um acidente. Eu aproximei-me e entendi o que se estava a passar, vi pequenos pontos a cair… E como nos desenhos animados se vê, aquele abanar do chão… mas não era na terra, era na minha cabeça. Cada vez que caia uma pessoa ou outra da torre, fazia-se um silêncio sepulcral, ninguém falava. Eu fui para sul, para me afastar um pouco. Depois caiu uma torre e eu vi uma bola… Pessoas a saltar, pessoas a sair dos carros e eu pensei, “a minha vida acabou”. Estivemos uns 20 minutos sem ver nada. Eu tive de trepar um poste para saber qual era a rua que eu estava. Eu voltei a minha casa e nesse momento cai a outra torre. Eles deixaram-me ir a casa durante 1 minuto e depois fomos todos evacuados. Nem levei o meu passaporte.
Depois, eu tenho uma boa amiga em Nova Iorque, a Rita Barros. Ela morava num hotel mítico, chamado Chelsea Hotel, e eu morei uma semana no quarto 10-08. Morei lá com um gato chamado Manuel. Tive de fazer um muro como o do Trump, para ele não invadir o meu espaço. Eu e gatos não nos damos muito bem. Eu não pude ir para a minha casa, porque eu morava num 7.ºandar,num edifício com 27 ou 28 andares e o 7.º era o único que tinha terraço. Ainda por cima do meu terraço eu via uma das torres. Alguém deixou uma janela aberta e levaram tudo o que eu tinha no meu apartamento. Só deixaram livros e a cama. Felizmente, ou infelizmente, Bin Laden já não está connosco, porque se estivesse, ele devia-me 25 a 30 mil dólares, que foi o dinheiro que precisei para repor toda a minha casa. Num dos terraços, eles não disseram qual era, descobriram um dedo humano. Não pude ficar em casa até eles remodelarem tudo, mas claro, levaram tudo o que tinha em casa, menos os livros. Ao fim de uma semana eu já não queria ficar com o Manuel e com a minha amiga e a universidade pôs-me num hotel em Midtwon. Era muito bonito e ao lado dos bares. Passava lá o dia todo. Foi aí que aprendi basebol. Não tinha nada que fazer, não tinha os meus livros, e aprendi o meu gosto pelo basebol. Eu estava sem fazer nada e fiquei no hotel durante quase dois meses e meio. E virei vedeta da televisão em Portugal, porque toda a gente ia fazer entrevistas ao ‘sobrevivente do 11 de setembro’. Um dia estava com um amigo num restaurante, no Natal, depois do 11 de setembro, e a empregada muito tímida e com medo, disse-me “olhe, você está a dar na televisão”… Eram aqueles programas de final de ano, sínteses de notícias.

Depois voltei para o apartamento, ao fim desse tempo todo e só saí de lá na altura da crise, na altura em que o meu salário baixou entre 20 a 25%.

Porque é que nesse momento não voltou a Portugal?

Eu comprei uma viagem de ida. Acho que não vou regressar de vez a Portugal, o meu mundo é americano. Nunca me passou pela cabeça regressar, seria um falhanço para mim. Gosto de aventura. Além disso, o 11 de setembro foi uma terça-feira, na quarta não havia transporte em Nova Iorque, mas na quinta já tinha o meu e-mail cheio de mensagens do meu chefe da universidade a dizer que tínhamos de estar lá à hora certa, porque temos de tomar conta dos estudantes, “vocês têm de dar apoio psicológico aos alunos”. A maioria dos meus alunos são deslocados, estão lá sozinhos e nós temos de dar apoio psicológico aos alunos. Mas quem nos dá a nós? Na quinta-feira já tínhamos as aulas normais, a vida não para, não pode parar. No 11 de Setembro, Nova Iorque só parou um dia, no dia seguinte a vida corria normalmente. Hoje já não há vestígios físicos do que se passou no 11 de Setembro, mas há vestígios psicológicos. Há um trauma imenso na sociedade americana, mas a vida lá é muito rápida e um evento acontece e elimina o outro. Não dá tempo para parar e pensar num só acontecimento.

 

© Mariana Gomes / Semanário V

 

Sabemos que após o 11 de Setembro, foram adotadas uma série de medidas, principalmente contra imigrantes de origem árabe, inclusivamente foram impedidos de entrar nos EUA, mas sabemos também que há outros grupos de imigrantes que são mal vistos. Como é que os portugueses são integrados em Nova Iorque?

Ao contrário dos mexicanos ou dos dominicanos, os portugueses são bem vistos, porque são trabalhadores. Trabalham muito, têm fama de ser bons trabalhadores e de não criarem problemas sociais. Se um português vai para os Estados Unidos, ele vai casar com uma americana, vai-se integrar muito bem, não vai criar um ‘gueto’. Os portugueses em Nova Iorque existem, mas não na cidade, no Estado. Tenho de andar mais ou menos uma hora para lá chegar, mas essa sociedade já está totalmente integrada. Se eu quero falar português, tenho de ir a New Jersey. Em 20 minutos do meu escritório, no Washington Square Park, estou ao pé dos portugueses. Era a terra mais barata nos anos 60 quando os portugueses vieram para Nova Iorque. Todos benfiquistas, Santa Maria! Foi naquela terra que os primeiros emigrantes, dos anos 60, os que não foram para França ou para a Alemanha, ficaram. Neste momento é muito bonita, mas infelizmente não tem vida cultural. Quando eu falo em Fernando Pessoa, eles pensam que estou a falar de um pintor de paredes. Tem grandes restaurantes, mas não tem cultura clássica. Tem uma livraria e não tem bons livros, mas tem uma vantagem, porque é muito barato. Quando quero fazer jantares com os meus alunos vou para lá, porque em New Jersey o imposto é 3,4 ou 3,5. Em Nova Iorque é o maior imposto dos Estados Unidos, é 8,875. Agora, o português deles é diferente do nosso, porque o nosso está sempre a evoluir, o deles ainda é o dos anos 60, está petrificado. Quando eu vou lá, eles mudam logo para o inglês, porque o português que falam é o que aprenderam em casa. E escrevem tudo distorcido, porque é a imagem mental que eles têm.

Como é que se adaptou numa primeira fase, como português, em Nova Ioque?

Estive em Nova Iorque antes de me mudar para lá. O primeiro salário que recebi foi para ir a Nova Iorque. A segunda vez, fui fazer um curso de verão em Dartmouth University, em Vermont e, como passei lá um verão inteiro, já conhecia um pouco. Quando cheguei, na terceira vez foi o meu amigo Nuno Crato que me salvou, foi-me buscar ao aeroporto e levou-me para a casa dele. O primeiro choque cultural aconteceu um mês depois, no thanksgiving day – ou dia de Ação de Graças. É o equivalente ao nosso Natal, tudo para e eu não esperava isso. A cidade estava parada e os restaurantes estavam todos fechados. Os que estavam abertos só tinham perú e não é exatamente a minha onda. Como quando não há mais nada. Às vezes tenho saudades de sardinhas assadas, lá não tenho isso, mas quanto ao resto não me senti deslocado. Não sinto grandes saudades.

O estereótipo que temos dos americanos corresponde à realidade?

O português tem um conhecimento norte-americano muito enviesado, que não corresponde, de todo à realidade. As notícias dos Estados Unidos que chegam a Portugal são todas manipuladas. Os americanos fazem de conta que são ignorantes, mas não são. A maioria dos americanos já visitou Lisboa, pelo menos. A ideia de que gostam de McDonald’s? Mais do que aqui em Braga? O McDonald’s está sempre cheio! Eu nunca fui ao McDonald’s em Nova Iorque. Os meus amigos também não. Se uma noite saímos e formos ao McDonald’s, somos totalmente postos de lado. Toda a gente gosta de comer e beber bom vinho. Agora, se formos para os subúrbios, aí sim. E também podem não ter tanta cultura, mas eu pergunto em Portugal se alguém sabe onde é a capital do Estado de Nova Iorque e ninguém me vai dizer que é Albany. A ignorância é de parte a parte. Vou dar um exemplo concreto: eu leio o jornal Wall Street Journal, que tem um suplemento cultural magnifico nos fins de semana. Na página 7 do jornal tem sempre uma fotografia que são ‘insólitos’ e tinha, uma vez, uma fotografia muito engraçada sobre Portugal. Tinha o presidente de um clube a cuspir no presidente de outro clube e a legenda era ‘É assim que em Portugal os presidentes se tratam uns aos outros’. Na segunda-feira, uma aluna vem-me com uma elegância tremenda, com muito medo e muita educação, “Professor, as pessoas em Portugal cospem umas nas outras?”. Ou seja, isto cria estereótipos. E o que eu faço em Portugal, vendo a imagem dos Estados Unidos como penso que ela é, faço o mesmo lá, vendo a boa imagem de Portugal. Muitos brasileiros ainda pensam que vivemos na terrinha e eu tenho de vender a imagem de Portugal quando estou fora. Por isso temos de ser céticos, críticos. Não podemos aceitar tudo o que nos chega. Os Estados Unidos não são um país tão negativo como nós pensamos, não é um país racista como as pessoas o pintam.

Em Portugal chega-nos a imagem de que existe um forte racismo, agora, nos EUA. Isso sente-se em Nova Iorque?

Não. O racismo existe em todas as sociedades. Nos EUA, ser racista não compensa, porque é crime. Se eu tenho um conflito com uma pessoa americana no metro e chego a confrontos físicos, a polícia vem, para o trânsito e resolve as coisas no local. Se eu faço isso, eu e uma pessoa diferente da minha etnia e se menciono a etnia do outro, o crime é agravado ao triplo. Se eu cometo um crime contra um negro, um hispânico, um asiático, um muçulmano e se um juiz considera que o meu crime teve com base a raça, o crime é ampliado ao máximo. No sistema americano há a ideia de que crime contra a raça é ainda mais crime do que o normal e isso faz com que as pessoas não o façam. Em Nova Iorque não existem ‘guetos’, porque é uma cidade rica. Esses ‘guetos’ existem em Chicago, em LA, em Detroit. Nova Iorque não tem um bairro só de negros. Havia Harlem, mas agora é super chique. Agora tem excelentes restaurantes. Em Nova Iorque, pessoas como eu não são maioria. A maioria são hispânicos, eu próprio vivo num bairro dominicano. Se eu não falo espanhol não posso comprar frango. A seguir a população é negra, depois brancos e depois asiáticos. Os polícias são quase todos negros e hispânicos. Há piores casos de racismo noutros locais, porque a autoridade lá é forte. É um racismo contido, talvez. A polícia mata mais brancos do que negros, mas isso não chega às notícias, porque não vende.

Para alguém que está há tanto tempo fora do país, como é lidar com a distância?

Eu nunca senti nostalgia, honestamente, eu não sinto. Quando fiz os testes todos para obter a cidadania norte-americana, toda a gente me perguntava se não ia perder alguma coisa de Portugal e eu acho que não perdi nada. Sinto falta dos meus amigos, da família, mas o telemóvel ajuda. Quando fui emigrante, eu nunca senti que estava deslocado. Senti na Madeira. Em Nova Iorque, nunca. Até porque eu gosto muito de culinária e lá eu posso comer a comida de todo o mundo. Se eu quero comer comida portuguesa, não é tão boa como em Braga, mas posso ir a restaurantes portugueses. Quando eu sinto saudade, eu como. Lá eu sinto-me como um peixe dentro de água.

 

Carlos Veloso © Mariana Gomes / Semanário V

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