Opinião

Opinião. Dar e ficar contente

Aires Fumega
Escrito por Aires Fumega

Há uns anos estava perdido numa cidade, que não interessa o nome e estava à procura de um determinado local. Como não existia ainda o GPS, fiz o que se usava na altura: perguntar o caminho a alguém e rezar para que não estivesse também perdido. Parei então o carro e perguntei a um senhor com uns 70 anos. Ele, muito simpático, explicou-me que estaria a uns três quilómetros. No meio de “vire à direita”, “vire à esquerda”, “passe os semáforos”, etc. apercebeu-se que eu não estava a captar a explicação. Ofereceu-se então para ir comigo. Fiquei um pouco confuso e de início até neguei. Ele argumentou que estava no início do seu percurso matinal de 3 quilómetros, sendo que iria comigo e voltaria depois a pé. Pareceu-me um argumento válido. Em poucos minutos chegamos ao local e eu sugeri pelo menos pagar-lhe um café como agradecimento. Ele respondeu: “Ora essa, eu é que agradeço”. Ao ver o meu espanto, continuou: “Agradeço-lhe pelo privilégio de lhe ser sido útil, pois na minha idade, já pouco posso ajudar”.

Fiquei a pensar naquilo. Não estamos habituamos a sentirmos recompensa quando damos, mas sim quando recebemos. Naquele caso claramente tinha havido recompensa e muito bem explicada. Esta reciprocidade de sentimentos está esplanada em muitas situações da vida. Dizia a propósito o grande pensador Agostinho da Silva: “A pessoa que dá uma esmola a um pobre, está a dar a esmola si próprio sendo dessa forma um egoísta, sendo assim não estupidamente egoísta ao ponto de se prejudicar a si mesmo”. A recompensa está em dar e não receber, ou receber sim a satisfação por ter dado.

Esta pode ser também uma das múltiplas definições Lei do Retorno, em que neste caso o reflexo de uma ação é imediatamente devolvido, embora essa lei, é normalmente explicada mais de uma forma negativa, pois nos mostra o dar como uma obrigação, com medo do castigo que possa advir da ausência de fazer o bem. É quase como não roubar com medo de ser apanhado. O instinto está lá, falta é ultrapassar o medo das consequências.

Ainda nesta temática, um bom exemplo é um trecho do fado, tornado famoso por Amália, de título “Uma Casa Portuguesa”. Diz na letra que “a alegria da pobreza está nessa grande riqueza de dar e ficar contente”. É uma frase até com duplo significado. Para alem de dar e ficar contente por isso, acrescenta também o dar tudo aquilo que se tem, sacrificando ou comprometendo o próprio bem-estar.

A propósito, a bíblia fala de uma viúva que apesar de deitar apenas duas pequenas moedas numa caixa de esmolas, havia deitado mais do que todos os homens ricos, pois deu tudo aquilo que tinha. Dar aquilo que se tem é o expoente máximo da ajuda que se pode dar.

Isto explica a razão pela qual as pessoas mais realizadas, não são as que conseguiram comprar mais coisas, mas sim as que ajudaram mais pessoas. As que dedicaram parte dos seus dias a acompanhar os outros.

O mundo precisa de pessoas que busquem a recompensa de uma forma altruísta, sem esperarem nada em troca que não seja a satisfação de dar e ficar contente.

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Artista plástico

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