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A pastelaria de Miguel Lopes é reconhecida em todo o mundo. Mas é em Prado que se sente bem

Miguel Lopes exibe prémio conquistado © Luís Ribeiro / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Gosta de pastelaria fina, mas faz todos os tipos de bolos. Miguel Lopes é de Prado, gere a pastelaria Pão D’Oiro com o irmão e dá formação em vários países da Europa. Licenciado pela Universidade do Minho em Relações Internacionais, começou o seu percurso na escola em Prado, seguiu para o secundário em Vila Verde e, mais tarde, estudou na Escola de Hotelaria das Caldas da Rainha, fez workshops e formações de pastelaria.

Miguel Lopes e o irmão gerem pastelaria em Prado © Luís Ribeiro / Semanário V

Trabalhou em pastelarias desde criança e começou na Doce Prado. Conta Miguel que a mãe o levava para pastelarias fazer limpezas e ele acabava por ajudar a barrar e a fazer bolos. “Passava muito tempo com profissionais de pastelaria e o tempo livre fora da escola era passado com essas pessoas” e foi daí que surgiu o gosto pela arte de decorar o bolo. “Também jogava futebol, mas sempre que podia, trocava o desporto para ir fazer mais uma formação”, admite Miguel.

Durante as férias, fazia part-times em pastelarias, mas o objetivo da mãe “era o curso universitário”. Depois de realizar o sonho da mãe, envergou no dele: ser pasteleiro.

Miguel Lopes © Luís Ribeiro / Semanário V

A pastelaria Pão D’Oiro foi um projeto que começou com o irmão, que resolveu “pegar na pastelaria que estava fechada” e foi a oportunidade para Miguel se mostrar ao mundo e “começar um fabrico a sério, para fazer como gostava”. No entanto, confessa que não é possível fazer tudo o desejável: “gosto mais de pastelaria fina e mais elaborada e infelizmente aqui temos de fazer para o público que temos e não podemos arriscar muito”, porque a pastelaria fina traz muitos encargos financeiros, envolve materiais caros que, por vezes, têm de vir de fora do país e é “impensável vender um pequeno bolo a 20 euros”.

Mas o seu percurso ainda está no início. Em janeiro viajou para Itália, onde ganhou o primeiro prémio num concurso de pastelaria, contra os melhores do mundo. A sua tutora foi Cécile Farkas Moritel, “a melhor pasteleira do mundo neste momento”, afirma Miguel, questionando “quantas pessoas podem dizer que trabalharam com os melhores do mundo?”

 

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Contudo, não foi o primeiro concurso no qual participou. Em Barcelona, o ano passado, ficou entre os cinco primeiros num concurso. “Os cinco primeiros são aqueles que, possivelmente, poderão ir ao Brasil no próximo ano”, explicou Miguel. No entanto, ir ao Brasil requer conseguir ajudas financeiras, que em Portugal não existem. “Em Vila Verde não se dá à pastelaria o mesmo valor que se dá ao desporto, onde há financiamentos e bolsas”, admite, acrescentando que o mérito destes desportistas é merecido, “mas a pastelaria deveria ter o mesmo valor”.

Entrevista a Miguel Lopes © Luís Ribeiro / Semanário V

“Lá fora, todas as escolas de hotelaria são regidas por um chefe de cozinha e um chefe de pastelaria, são personagens mais importantes que o diretor da escola, porque são eles que vão tirar o melhor dos alunos”. Miguel confessa que em Vila Verde esse aspeto está em falta, porque a forma de mostrar o que é a cozinha e a arte da pastelaria “não é a mais correta”.

Neste momento é formador. Já deu formação em Barcelona e Marselha e, em Portugal, no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e no Instituto PME Formação.

O maior desejo de Miguel é conseguir abrir um espaço formativo, onde possa dar formação a quem tem amor pela pastelaria, “porque na região do Minho não há nada, a única oferta são cursos que têm duas horas de pastelaria por semana e os alunos nunca vão ganhar gosto”. Ao contrário dos outros chefes de pastelaria, Miguel gosta de revelar os segredos da arte.

O seu único pedido é conseguir apoios para abrir um espaço de formação, “para conseguirmos trazer os melhores do mundo a Vila Verde”. Miguel justifica que tem conhecimentos, dá-se bem com os melhores profissionais de pastelaria, mas nunca o melhor do mundo ou o melhor da Europa veio a Portugal. “A nossa hotelaria tem muito para crescer e ainda estamos muito dependentes de Braga”, revela.

Entrevista a Miguel Lopes © Luís Ribeiro / Semanário V

Miguel confessa que as pessoas lhe perguntam porque não tem bolos na montra, os mesmos que faz lá fora, nos concursos. “Os bolos de concurso são caríssimos”, afirma, “só em folhas de ouro que usei na final do concurso em Itália, estão a 320 euros. O chocolate é o melhor do mundo, eles dão-nos todos os materiais para conseguirmos brilhar”. Questiona, ainda, “como é que aqui posso fazer isso? Só se vender bolos a preços exorbitantes”.

O lançamento a nível internacional deu-se após participar num workshop, no Porto, onde sugeriu a um chefe a possibilidade de fazer um cheesecake. “Eles tinham os ingredientes e eu fiz à minha maneira. No final tínhamos de fazer a votação do melhor e o mais votado foi o cheesecake”. A partir daí, o chefe de pastelaria deu o seu nome em várias escolas de formação europeias e foi sendo contactado. Quando há concursos de pastelaria, “ele liga a dizer que vai lá estar”.

Estabelecimento de Miguel Lopes © Luís Ribeiro / Semanário V

Miguel admite que poderá vir a ser um grande chefe “se sair de Portugal, se montar uma coisa própria. Em Vila Verde não se sabe o que é a pastelaria, não é só o pastel de nata, é muito mais do que isso”. Agora, é conhecido lá fora e, recentemente, foi convidado para trabalhar em Las Vegas, mas o seu sonho “é ter sucesso em Portugal”.

Fotos: Luís Ribeiro / Semanário V

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Mariana Gomes

Mariana Gomes

Jornalista