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Não há diabetes que impeçam Leonor de ter uma vida saudável

Leonor Cerqueira © DR
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Com apenas 3 anos, descobriram que Leonor tinha diabetes tipo 1. Hoje, com 12 anos, é um exemplo de superação para quem a rodeia.

Começou a praticar patinagem por iniciativa própria, mas tal como a toda a gente, foi-lhe recomendado praticar um desporto. Pratica há dois anos e já entrou em algumas competições. Tem dois treinos por semana, mas Leonor confessa que gostava de fazer mais, para poder praticar “solo dance”. Neste momento ainda tem de completar o nível 0, 1, 2, 3, 4 e 5 e, depois passa para a modalidade “Show e Precisão”.

 

Leonor Cerqueira © DR

 

O V acompanhou um treino de patinagem da Leonor, onde o pai, Pedro Cerqueira, vice-presidente da junta de Vila Verde e Barbudo, conta que suspeitou da doença quando, um dia, a filha começou a beber muita água. Depois de procurar os sintomas, ligou ao pediatra para dizer que a filha tinha diabetes.

Pedro Cerqueira revelou que a Leonor ganhou diabetes por causa de uma infeção na garganta, que fez o pâncreas deixar de produzir insulina. “Nesse dia o mundo desabou, nem nos passava pela cabeça que meninos daquela idade tinham diabetes. Nós pensamos que só acontece aos outros, mas aconteceu”.

O diabetes tipo 1 acontece quando o pâncreas não tem capacidade de produzir insulina suficiente, devido a um defeito do sistema imunológico. “A Leonor, felizmente, teve uns pais atentos e, quando chegou ao hospital, tinha os diabetes a 200 e qualquer coisa”, contou o pai.

A rotina da família mudou da noite para o dia.  Os pais tiveram de se adaptar à doença e representaram um papel muito importante na educação, no bem-estar e na forma como a Leonor lida com a doença. Não há dúvidas, na perspetiva do pai, de que a Leonor é feliz e “a felicidade é das coisas que mais preocupa os pais e parte muito de casa”.

“Ela vai dormir e não fica preocupada em medir os diabetes, porque sabe que o pai e a mãe a picam durante a noite”, explica. A Leonor está numa fase de crescimento, “uma fase complicada e que mexe com ela, então anda mais agitada e altera os valores. Durante a noite vou picá-la à uma da manhã, outras vezes tem de comer, porque pode ter os diabetes maus, mas se os tiver baixos também é um problema e eu já a apanhei com um valor de diabetes a 27, esse valor é para estar desfalecida e ela estava a saltar na cama”.

 

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Pedro assegurou que não está preocupado com o crescimento, porque “ela tem sido um exemplo”. Foi obrigada a crescer e a ter um sentido de responsabilidade que não é normal para uma criança da sua idade. “Com 7 anos já fazia as picadas sozinha, já não sente nada, nem acorda quando é picada durante a noite”.

Leonor tem a vantagem e desvantagem de ter crescido rápido, “porque as crianças devem poder viver todas as fases da vida”. A doença obrigou-a a ser responsável e, desde pequenina, é uma heroína para os colegas da escola, “que diziam que ela era forte, porque ‘levava picas’”.

Com 12 anos, não sabe o que é viver sem diabetes, mas hoje em dia é uma criança feliz, responsável e “nunca mostrou frustração”.

“Há outras crianças, mais velhas ou mais novas, até adultos, que se escondem para fazer as picadas, não aceitam a doença”. A Leonor nunca mostrou vergonha, nem frustração, porque também não conhece a realidade de uma vida sem a doença.

Os portadores de diabetes tipo 1 precisam de levar injeções de insulina diariamente para manter valores normais de glicose no sangue, podendo mesmo haver risco de vida se as injeções não forem dadas corretamente.

Atualmente a Leonor não precisa de tomar injeções diariamente, porque usa uma bomba que substitui a injeção, a qual tem de usar o tempo inteiro, apenas retira-a para fazer desporto.

“Ela usa a bomba no pescoço. Podia muito bem usar no bolso, mas ela não tem vergonha. Não fica constrangida em mostrar que tem a doença”, conta o pai.

Além disso, a Leonor tem um chip no braço e uma máquina que lê o chip e lhe dá o valor, em vez de ter de se picar, mas essa máquina tem uma margem de erro. “O chip é para substituir a picada”, mas houve uma fase, recentemente, que teve de fazer 300 picadas por semana, “um pacote por dia”, acrescentou a Leonor.

 

Leonor Cerqueira © DR

 

Durante o treino, a Leonor tem de sair para comer, porque os valores estão baixos. A treinadora conta que, em relação aos outros meninos que também praticam desporto, esta é a única diferença. Depois de comer tem, obrigatoriamente, de tomar insulina, mas, como está a praticar desporto, é dispensável a injeção.

Fazer desporto traz vantagens, mas também há desvantagens. “Tem de ter atenção, porque pode haver uma baixa da glicémia. Aí ela tem de comer imediatamente. Se os diabetes estiverem a menos de 60 tem de comer um pacote de açúcar de imediato. Se tiver menos de 49 tem de comer dois”.

Na mochila, sempre que sai de casa, leva água, bolachas, bolos e pacotes de açúcar, um medidor de glicose que evita as picadas nos dedos rotineiras, insulina, uma bomba de insulina, que é ligada a um cateter no corpo, que injeta a insulina sem precisar de fazer as picadas.

A bomba de insulina só é retirada durante os treinos e as provas, permitindo-lhe fazer desporto com o cateter, porque não magoa. Este equipamento veio substituir o que o pâncreas não faz: quando o corpo precisa de insulina, a bomba injeta, para manter os níveis controlados.

Leonor pode comer de tudo, “mas se comer hoje um bolo, não pode comer outro mais tarde, ou no dia seguinte. A médica disse-lhe que, com a bomba a controlar a insulina, pode comer de tudo. Ela de vez em quando abusa, mas outras vezes também diz ‘estou com os diabetes altos, não vou comer’”.

Pedro Cerqueira acredita que daqui a 4 ou 5 anos há uma evolução. “Estão a lançar uma vacina para ser dada apenas de 2 em 2 anos, para que não seja preciso fazer o controlo diariamente”, explicou o pai. Neste momento faz consultas de rotina de 3 em 3 meses, faz exames aos olhos, aos ouvidos, e análises.

Os pais de Leonor confessam a grande dificuldade por que passaram no início da doença, por isso fazem questão de sublinhar que estão disponíveis para ajudar outros casais com o mesmo problema, partilhar a experiência e, sobretudo, desmistificar a doença.

Se tivesse de dar uma mensagem a outros meninos com diabetes, a Leonor diria que fazer desporto é uma parte importante do dia-a-dia, diria que é imprescindível ter cuidado e relembra que os diabetes não são o fim do mundo, com controlo é possível ter uma vida normal.

 

Leonor Cerqueira © DR

 

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Jornalista