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Vida selvagem. Já só restam 30 lobos no Alto Minho

Lobo capturado no terreno pela equipa do CIBIO para marcação com colar GPS que permitirá seguir os seus movimentos © Mónia Nakamura
Fernando André Silva

Já só existem 30 lobos nas sete alcateias do Alto Minho. Os números são do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto, conseguidos através de um projeto de monitorização do lobo-ibérico, iniciado em 2006 e financiado por fundos privados.

Mónia Nakamura, de Lisboa, é uma das biólogas que participam ativamente no projeto que abrange a área do Alto Minho. Segundo esta especialista, que esteve no início do mês em Vila Verde para uma palestra na freguesia de Gondomar, existem sete alcateias entre a Serra da Peneda e Serra de Arga [Viana do Castelo], algumas com oito lobos, outras com apenas quatro. Em conjunto com outros elementos do projeto, tem acompanhado e monitorizado seis das sete alcateias que reúnem a população de lobos que habita na região do Alto Minho.

 

Um dos objetivos deste projeto consiste em perceber se a perturbação humana afeta mesmo o sucesso reprodutor dos lobos.

 

O último cadastro de lobo a nível nacional remonta ao ano de 2003. Através de monitorização e da recolha de fezes, em 2019, é possível perceber que o número, com possível margem de erro, se mantenha nos 30 lobos. Em cativeiro, estes animais podem chegar aos 17 anos e no selvagem a esperança de vida é menor, à semelhança dos cães, o que aponta que, os lobos registados já desapareceram. No entanto, ficaram as crias que mantiveram as seis alcateias “vivas”. E é isso que este projeto pretende, acima de tudo, preservar.

Uma das alcateias do Alto Minho monitorizada pela CIBIO © Artur Vaz Oliveira

As alcateias do Alto Minho e a alcateia de Vila Verde

Mónia Nakamura explica ao Semanário V que existem duas subpopulações de lobo-ibérico em Portugal. Uma a Norte do rio Douro, que “aparenta estar estável” e constituída por 54 alcateias e outra a Sul do rio Douro até Viseu, com nove alcateias e que “está mais em risco”.

As alcateias monitorizadas pelo CIBIO, entre o Gerês e Viana, são seis: Soajo, Vez, Peneda, Boulhosa e Cruz Vermelha [Coura] e Serra de Arga. Das seis alcateias, Mónia destaca as do Vez e doSoajo, na zona das Serra do Soajo e da Peneda, como as “mais estáveis”. Mas nem todas estão na mesma situação. Mónia aponta ainda a alcateia da Boulhosa, que ocupa as serras a norte de Paredes de Coura, como a que estará em maior risco de extinção. Também a da Cruz Vermelha, entre o sul de Paredes de Coura e do rio Lima, preocupa, embora esteja estável. Há, no entanto, quase uma certeza de uma nova baixa há duas semanas, quando um lobo-ibérico foi encontrado morto preso a uma armadilha e com um tiro na nuca, na área de intervenção daquela alcateia [Cruz Vermelha]. Mónia explica que esta alcateia desapareceu em 1997, não sendo mais detetada. Voltou a aparecer em 2010 e tem sido detetada todos os anos, apesar de estar sob ameaça de voltar a desaparecer.

Lobo avistado em Valdreu, Vila Verde © Márcio Esteves

A bióloga explica que quando uma alcateia desaparece, é normal que uma nova volte a surgir na mesma região, com recolonização: “Ao longo dos anos, através dos dejetos, sabemos que os indivíduos que estão agora na alcateia da Boulhosa e da Cruz Vermelha vieram das de Vez e do Soajo. Os lobos chegam aos dois, três anos e abandonam a alcateia e é assim que novas alcateias podem surgir do nada”, diz, explicando que “cada alcateia tem um casal reprodutor e várias crias, sendo que as crias do ano anterior podem ficar a tomar conta das novas crias ou podem dispersar”. Também a alcateia de Boulhosa, em Ponte de Lima, se encontra sob ameaça, sendo que menos vezes se confirmou reprodução desde o início do projeto, em 2006.

Apesar de apenas monitorizarem seis alcateias, existem outras duas geograficamente próximas à área de atuação do projeto da CIBIO mas que não são acompanhadas por se situarem no Baixo Minho.

Uma delas é a alcateia de Vila Verde, que, outrora, registou sete lobos, número que terá, no entanto, diminuído, embora sem certezas uma vez que não se encontra a ser monitorizada. Também uma alcateia que ocupa a Serra Amarela, entre Ponte da Barca e Terras de Bouro, não é alvo de monitorização.


Métodos de monitorização do lobo-ibérico

A bióloga explica que são várias as metodologias utilizadas para acompanhar os lobos, sendo que a mais básica passa por tentar detetar rastos e fezes nos percursos habituais das alcateias. “Aí conseguimos perceber quais as zonas mais utilizadas pelos lobos”, esclarece. Outra das metodologias utilizadas para a monitorização dos lobos passa pela “escuta”. Mónia refere que, na altura do verão, são implementados apoios audio para registar os uivos dos lobos, sobretudo das crias. “O objetivo é detetar as alcateias e confirmar que existiu reprodução nesse ano”, revela. Em alcateias difíceis de detectar, resta a solução de monitorização da reprodução dos lobos com as câmaras de armadilhagem fotográfica. Outro método passa pela observação. “Mas só quando possível”, uma vez que o lobo é um animal que não tem por hábito deixar ser-se observado, como explica Mónia. “Quando um lobo é observado, é porque ele assim quis”, afiança.

Lobo capturado no terreno pela equipa do CIBIO para marcação com colar GPS que permitirá seguir os seus movimentos © Mónia Nakamura

Colares GPS também são utilizados para monitorizar estes lobos, mas, avança Mónia, neste momento não há nenhum colar ativo porque “os lobos marcados já morreram ou a bateria do colar acabou”. Este é o método que dá a informação mais correta, mas também o mais difícil de implementar. São colocadas armadilhas no terreno e duas vezes por dia é feita uma revisão. As armadilhas têm alarme associado e a qualquer momento podem alertar para a captura do lobo. Quando o lobo está na armadilha, há um veterinário que acompanha os biólogos ao local e aplica um anestésico. Posteriormente é colocado um colar GPS, são recolhidas amostras e o lobo é libertado novamente no seu habitat.

E possível identificar cada lobo através dos dejetos

Outra metodologia utilizada pelo projeto da CIBIO é a análise genética. Os investigadores conseguem saber a descendência dos lobos e a que alcateia pertencem através da análise de fezes. Mónia explica que, sendo difícil a captura do animal para colocar o colar GPS, são aproveitadas “amostras dos dejetos” para confirmar a espécie [se é lobo-ibérico] e, diz a bióloga, é possível identificar individualmente cada um dos animais através dessas mesmas fezes. “Através da extração do DNA dos lobos”, aponta.

Lobo é ameaça ao ser humano?

Nakamura diz que não há razões para ter medo. “Os lobos fogem de nós. Acho que são eles a ter mais medo de nós do que o oposto. Se, por acaso, os virmos, é por distração deles. Só quando estão mesmo muito distraídos é que nós os conseguimos ver”, diz. No entanto, o caso muda de figura caso o lobo se sinta encurralado, como quando fica preso em alguma armadilha. “Se um lobo estiver preso num laço e alguém se aproximar, eles podem sentir-se ameaçados, mas em condições normais, diria que não há qualquer tipo de ameaça ao ser humano”, reforça a investigadora da CIBIO.

Cerca de 90% do alimento são animais domésticos

Se o lobo não representa ameaça ao ser humano, para os animais a situação já é bastante diferente. O problema principal para a alimentação do lobo na região do Alto Minho é a falta de presas selvagens. Nakamura aponta o gado doméstico como dieta principal dos lobos, algo que enfurece agricultores e pastores, que veem no lobo um inimigo dos seus animais. “Os lobos têm de se alimentar e embora haja muito javali, já existem poucos corsos na região. Com tantos cavalos e vacas disponíveis nos montes, é normal que façam alguns ataques”, explica, apontando que no Alto Minho é mais frequente por o gado estar solto grande parte do ano nos montes. Em Trás-os-Montes, no entanto, o lobo alimenta-se maioritariamente de presas selvagens.

Agricultores também podem gostar de lobos

Mónia sente que há pessoas que querem que o lobo desapareça, mas não concorda que todos os pastores ou produtores de gado pensem assim. “Depende das pessoas. Há criadores de gado que sofrem ataques, mas que realmente gostam do lobo e querem que ele sobreviva. Percebem que faz parte do equilibrio  da natureza. Mas quando matam gado há sempre revolta, e percebe-se”, refere, esclarecendo que “desde 1988 que a lei que protege o lobo abrange pagamento de indemnizações pelas mortes dos animais domésticos”.

Lobo na neve no Gerês © Carlos Pontes

As lendas e os mitos do “cão do diabo”

As lendas e mitos da perigosidade do lobo vêm, pelo menos, desde os tempos da idade média, onde existia a crença de que o animal possuiria poderes sobrenaturais, tratando-se de uma “besta do inferno”. Também a literatura infantil diabolizou o animal através da história do Capuchinho Vermelho. No início do séc. XX, a população iniciou uma luta desigual contra a população de lobos, levando ao quase extermínio da raça em Portugal. Em 1930, o lobo era encontrado em quase todo o terrítório do país, ficando agora confinado às zonas de influência do Parque Nacional Peneda-Gerês, ao Parque Natural de Montesinho, ao Parque Natural do Alvão e ainda a Sul do Douro. Segundo o último censo, datado de 2002-2003, existem cerca de 300 indivíduos lobo-ibérico no país, divididos em 63 alcateias. E como diz no título, no Alto Minho já só restam 30.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista