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Arqueologia. Descobertas mais 23 sepulturas do séc. IV no centro de Braga

Escavações prévias no Largo Sra A Branca © Arquivo Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho / DR
Fernando André Silva

As descobertas arqueológicas dentro da cidade de Braga têm sido frequentes, com especial incidência para necrópoles descobertas pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. Um dos achados, anunciado de forma oficial pela Universidade do Minho no boletim semestral da Unidade de Arqueologia publicado este mês [clique aqui para aceder ao boletim], passa pela descoberta de uma extensão de uma grande necrópole a 300 metros do centro da cidade de Braga, à margem da via romana n.º 17.

São 23 sepulturas de inumação de época tardia, das quais 19 em cova simples e 4 estruturadas em tijolo, descobertas debaixo de um edifício situado no Jardim da Senhora-a-Branca, na UF S. Lázaro e S. João do Souto, que, em conjunto com outras 60 sepulturas descobertas nas “costas” deste edifício, onde se situa atualmente o Continente Bom Dia, mostram que ali existiu uma grande necrópole.

Escavações prévias no Largo Sra A Branca © Arquivo Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho / DR

A descoberta desta grande necrópole à margem da antiga via romana que ligava Braga a Chaves, em zona afastada da periferia da urbe romana, suscita desde logo uma nova questão: existiria um núcleo populacional antigo, tipo ‘vicus’, nesta zona da atual Senhora-a-Branca, a que a necrópole respeitaria?

E se sim, poderia relacionar-se com a provável existência de uma basílica martirial, neste caso dedicada a Santa Susana?

A hipótese de uma basílica dedicada a Santa Susana pode ter estado na origem da atual igreja da Senhora-a-Branca. Embora não se conheça nenhum outro dado, tal hipótese é sugerida pelo registo do episódio da vinda do bispo de Santiago de Compostela a Braga, em 1101, tendo roubado as relíquias de S. Frutuoso. Diz o documento que o bispo partiu do centro da cidade de Braga seguindo depois por Santa Susana até São Victor. Nos dias de hoje, não conhecemos qualquer povoação de Santa Susana, mas se cartografarmos a descrição do caminho, provavelmente a Senhora-a-Branca terá origem num antigo templo cristão de Santa Susana, que existiria entre a Arcada e a Igreja de São Víctor, no início do milénio.

Continente Bom Dia situado nas traseiras do edifício © FAS / Semanário V

O Semanário V falou com Luís Fontes, professor, arqueólogo e diretor da UAUM, que, embora refira que essa será uma interrogação, a verdade é que “está lá a grande necrópole, à volta daquilo que se chamava de basílica martirial”. “Se conjugarmos dados históricos com arqueológicos podemos acrescentar uma nova interrogação sobre a história de Braga, apontando que a Senhora a Branca pode ter uma origem muito mais antiga, chamando-se então Santa Susana, mas essa basílica ainda não foi reconhecida”, aponta o arqueólogo.

Sobre estas novas descobertas, Luís Fontes recorda ainda que aquando da escavação dos terrenos do atual Continente Bom Dia de São Víctor foram encontradas mais de 60 sepulturas e restos da Via 17. O arqueólogo explica que as 23 sepulturas agora encontradas estão situadas mais a norte, dentro de um edifício que está a ser recuperado, virado ao cruzeiro da Senhora-a-Branca.

Edifício fica situado no jardim da Senhora a Branca © FAS / Semanário V

À semelhança das descobertas arqueológicas no castelo de Braga, conforme noticiado em exclusivo pelo Semanário V, estas sepulturas só foram encontradas porque o promotor desta obra pretendia construir uma cave, algo que poderá fazer uma vez que as sepulturas encontradas não são passíveis de musealização in sito, tendo no entanto sido registados os achados pela UAUM.

Luís Fontes explica que caso não quisesse rebaixar para construir a cave, “não se encontrava nada”. “Como tínhamos a referência de uma necrópole ali perto, escavámos e encontramos 23 sepulturas sem registo de ossadas mas que contêm ainda os pregos dos caixões e os cravos do calçado”.

“Na zona central da área intervencionada foi ainda possível identificar um poço de água, já referenciado na Planta de Braga da autoria de Francisque Goullard, de 1883/84. A sua construção acabou por cortar algumas das sepulturas identificadas”, refere ainda o arqueólogo.

Sepulturas não são musealizadas in sito porque há ausência de ossadas

Nestas sepulturas não foram encontradas quaisquer ossadas, sendo que essas descobertas dependem da época e condições do enterramento, Se estiver selada e em ambientes húmidos, preserva melhor, porque fica com ambiente abiótico e as ossadas podem conservar-se. Se estiver em terrenos argilosos também. Mas, como explica Luís Fontes, o Minho tem componentes orgânicos muito fortes, sendo que a terra é muito ácida. “E estamos numa zona de circulação de água, que descia antigamente de Guadalupe. Há terrenos ácidos e normalmente as sepulturas não tinham cobertura, e as que tinham eram de tijolo e a água infiltrava-se. Estamos a falar de corpos com 1.500 anos, sendo que é natural a decomposição”, explica, referindo que em Braga já foram encontradas ossadas, nas traseiras da Sé de Braga, “mas estamos a falar de corpos enterrados há 600 anos”. “Depende do período, da disposição do local e do processo de transformação do terreno ao longo dos séculos que pode travar ou acelerar a decomposição”.

Escavações prévias no Largo Sra A Branca © Arquivo Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho / DR

No entanto, há um local em Braga onde estruturas funerárias foram preservadas in sito, no antigo edifício dos CTT onde é hoje o Liberdade Street Fashion, mas ainda não se encontram passíveis de visita do público. “Há uma sepultura com caixão de chumbo e seis caixas sepulcrais que foram preservadas e conservados no local e aguardam projeto de musealização pois estão criadas as condições para serem visitadas. Mas é um sítio privado e isso dificulta o investimento público. Para o Estado investir tem de haver acesso a partir da rua. Há aspetos de disposições legais às quais é preciso dar satisfação e tem de se ter paciência”, esclarece, sem apontar uma data para que essas sepulturas passem a ser visitadas pelo público em geral.

Das várias necrópoles identificadas na cidade de Braga, nenhuma tem vestígios no local, mas o espólio encontrado está passível de visita no Museu D. Diogo de Sousa.

Edifício esteve abandonado cerca de 20 anos e vai ser agora unidade de alojamento e local de comércio

A intervenção neste edifício, situado no arruamento do jardim da Senhora-a-Branca, decorre com normalidade desde o início deste ano [2019], e pretende requalificar e ampliar o edifício ali existente, degradado há cerca de duas décadas. Anteriormente, pertenceu a uma proprietária de Fafe, que o arrendava tradicionalmente a estudantes, por quartos.

Edifício fica situado no jardim da Senhora a Branca © FAS / Semanário V

A obra levada a cabo pela Socicorreia II – Investimentos Imobiliários S.A., pretende a construção de uma cave e cinco pisos acima da cota da soleira, com uso para habitação e comércio. A área total de construção é de 715,02 metros quadrados. As obras foram licenciadas pela Câmara de Braga a 14 de fevereiro de 2014, mas o alvará de licenciamento foi emitido a 12 de julho de 2018, com as obras a iniciarem-se pouco depois, tendo sido interrompidas entre outubro e dezembro para as sondagens arqueológicas da UAUM. O prazo para conclusão desta obra é de 18 meses, devendo ficar pronto apenas em 2020.

UAUM realizou onze intervenções a pedido de privados

Conforme anunciado na segunda edição do boletim semestral da UAUM, durante o ano de 2018 aquela unidade de arqueologia foi chamada a intervir em vários trabalhos de arqueologia preventiva na cidade de Braga, decorrentes de iniciativas de valorização do património imobiliário urbano, que exigiram intervenção arqueológica no âmbito da minimização de impactos. Foram realizadas onze intervenções, algumas das quais terão continuidade no ano de 2019. Realizaram ainda um trabalho de levantamento topográfico da Fortaleza de Marvão, contratualizado com o respetivo Município.

Para além dessa prestação de serviços, a atividade da UAUM decorre principalmente do um projeto institucional vinculado inicialmente ao ‘salvamento de Bracara Augusta’ e desde 2015 ao estudo arqueológico-histórico da cidade de Braga, bem como de desenvolver projetos de estudo, valorização e divulgação de património em todo o país, em especial na região norte de Portugal.

“Estes projetos concretizam-se maioritariamente através da prestação de serviços à comunidade, seja através de protocolos ou de contratos, com entidades públicas e privadas”, explica a UAUM.

Necrópoles da cidade de Braga:

Necrópole da Av Central (que se estende entre o largo do castelo, o topo da rua do Souto e o edifício do McDonald’s)

Cangosta da Palha

Senhora a Branca (entre o jardim e as oficinas de S. José)

Quarteirão CTT e Largo João Penha

Viaduto em frente ao Hotel Mercury virando para Maximinos

Necrópole de Urjães (antiga estação de viação automotora, onde é agora o Lidl)

Necróple da rua do Caires (junto ao centro comercial galécia e na grande rotunda)

Necrópole do Campo da Vinha

*Notícia atualizada com a correção da localização do edifício

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista