Destaque País Vila Verde

Sapadores Florestais: “As guerras do verão apagam-se com o suor de inverno”

Sapadores do Cávado efetuam queima controlada em Vila Verde © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

“As guerras do verão apagam-se com o suor de inverno”. Esta é uma frase bem vincada por João Ribeiro, presidente da direção da Associação Nacional de Sapadores Florestais, que, em entrevista ao Semanário V, aponta algumas reinvindicações daquela classe profissional, como a criação de estatutos e de uma carreira no Estado. Ao contrário de outros elementos ligados à Proteção Civil, o trabalho dos Sapadores Florestais nem sempre é reconhecido pelo grande público, mas são eles que limpam terrenos no inverno de forma a evitar maiores tragédias no período de risco de incêndios florestais que ocorre durante o verão.

João Ribeiro – Presidente da ANSF / DR

Exigiu recentemente no Parlamento a criação de carreira e estatuto para os Sapadores Florestais…

A proposta de criação do estatuto e carreira de Sapador Florestal já não nova. Em 4 agosto de 2017 tivemos a oportunidade de apresentar uma serie de propostas ao Sr. Ministro Capoulas Santos em que a primeira proposta era a criação urgente do estatuto e carreira de Sapador Florestal, posteriormente, em 2018 estivemos em audiência com o Sr. Secretário de Estado das Florestas voltamos a referir a pertinência da criação do estatuto.
A questão do estatuto e da carreira para os Sapadores nem deveria de existir uma vez que, na nossa opinião, quando os Sapadores foram criados em 1999 deveria ter sido logo acautelado esta situação. Em suma os Sapadores Florestais existem há 20 anos e cada entidade faz a gestão que bem entende das equipas, o programa de Sapadores Florestais não é homogéneo, existem equipas com muito boas condições, mas a grande maioria vive com grande ou extrema dificuldade.

Em que ponto se encontra essa situação?

Não sabemos. Desde 18 de Maio 2018, altura em que foi a ultima audiência com o Sr. Secretário de Estado das florestas, em que as três entidades envolvidas, ICNF; ANSF, e Ministério, se comprometeram a trabalhar em conjunto, mas nunca mais obtivemos resposta às nossas questões, ou pedido para colaborar como tinha ficado acordado, a única colaboração que a ANSF teve neste assunto foi enviar as nossas propostas para a elaboração dos estatutos, que segundo o Sr. Secretário de estado seria uma realidade em 2019 como prenda pelos 20 anos de existência.

Sapadores do Cávado efetuam queima controlada em Vila Verde © FAS / Semanário V

O que mais reivindica a ANSF e que propostas apresentou no parlamento?

A base deverá ser o estatuto, isso irá permitir condições dignas de trabalho, que por sua vez acabará com a grande rotatividade dos elementos dentro das equipas. Contudo é necessário um programa de formação continuo para as novas equipas, e reciclagens das existentes; os Sapadores Florestais têm como entidades patronais as mais diversas entidades, organizações de produtores florestais; Camaras Municipais; Baldios, mas sejam de entidades privadas ou não têm de fazer 6 meses de serviço publico para o ICNF, posto isto, e já que todas as equipas trabalham a tempo parcial, pelo menos, para o Estado, outra proposta da ANSF é que todos os Sapadores tenham acesso ao subsistema de saúde ADSE.
Os Equipamentos de proteção individual (EPI) são outra preocupação da ANSF, existem dois tipos, um para silvicultura e outro para primeira intervenção, e nenhum dos dois oferece qualquer tipo de proteção.
Seguros para todas as equipas que cubram toda a atividade do Sapador Florestal, o que não acontece, atividade essa que é transversal aos três pilares do sistema de defesa da floresta contra incêndios (SDFCI) e por isso somos únicos no panorama nacional, mas somos continuamente ignorados marginalizados por quem nos tutela e pela entidade que gere o programa.
Os Sapadores devem de uma vez por todas deixar de ser utilizados com política social, para fixar algumas famílias em áreas mais despovoadas, onde a oferta de emprego é diminuta, para evoluir força de prevenção e primeira intervenção como acontece por exemplo, com os nossos colegas Espanhóis, onde são integralmente ou privados ou públicos, não é um sistema dúbio de parcerias e por isso o programa deve ser periodicamente avaliado.

Sapadores do Cávado efetuam queima controlada em Vila Verde © FAS / Semanário V

Em que consiste o trabalho dos sapadores florestais durante o inverno?

Os Sapadores Florestais durante o inverno fazem silvicultura preventiva, que se divide em duas áreas, 55 dias são utilizados pelo estado para fazer serviço publico, as equipas são deslocadas até uma área publica, como baldios; perímetro florestais; matas nacionais e executam controlo de vegetação espontânea (limpezas) previamente delineadas pelo ICNF, o restante tempo trabalham para as suas entidades patronais, fazendo plantações; retanchas; desramas; podas; seleção de varas; apoio ao fogo controlado; limpezas de terrenos, algumas entidades usam os Sapadores Florestais com se tratassem de trabalhadores indiferenciados, é comum ver-se equipas a limpar jardins; recintos de feiras; bermas de estradas; quintais, enfim fazem tudo menos o serviço florestal, para o qual foram criados.

Os sapadores fazem primeiras intervenções nos incêndios que lhes podem custar a vida. Estão preparados para isso?

Não sei, nem nós e muito menos o ICNF sabe que formação foi ministrada nestes últimos anos, desde que se abandonou o Centro de Operações e Técnicas Florestais (COTF) como escola de eleição para formar Sapadores. Nessa altura o ICNF tinha total controlo, na formação dada e nos formadores que eram escolhidos, o mesmo não acontece agora. Pela falta de formação tememos que a grande maior parte dos Sapadores não esteja preparado, não só para o verão bem como para o inverno. Repare, como já referi somos a única força transversal aos três pilares e ao mesmo tempo a única sem uma estrutura hierárquica definida, se olharmos para os bombeiros tem a sua estrutura e a sua escola, na GNR a mesma coisa, no Exercito é exatamente igual, os Sapadores na sua composição nem existe hierarquia e nos dias de hoje qualquer um serve para dar formação, e isto tem de acabar se somos uma força exclusivamente florestal, então temos de ter formadores dentro dos Sapadores ou em ultimo caso pessoas com conhecimento na área florestal.

Sapadores do Cávado efetuam queima controlada em Vila Verde © FAS / Semanário V

O país está bem servido em termos de número de Sapadores?

Essa é outra grande questão da ANSF, em agosto de 2018 havia cerca de 295 equipas o que daria cerca de 1.500 operacionais, mas a realidade não é essa, existem muitas equipas incompletas, outras que foram entregues que nunca trabalharam e o mais grave existem equipas com ordenados em atraso que tiveram de parar de trabalhar por terem chegado ao limite, há Sapadores a pagar para trabalhar, e ninguém vê?! Vamos continuar a assobiar e olhar para o lado como se nada fosse? Existem igualmente equipas sem equipamentos de proteção individual. Quem faz a gestão do programa não tem capacidade de perceber que algo não está bem, e ainda querem aumentar o número de equipas para 500 até ao final deste ano!? Parece-nos uma medida que colocará em risco o próprio programa, que terá a médio prazo o efeito perverso uma vez que estruturalmente nada foi feito e esse é o real problema dos Sapadores, a atual estrutura do ICNF não gere de forma eficiente 300 equipas irá gerir 500?

O que aconselha?

O programa de Sapadores não deve ser aumentado por impulso, mas sim por necessidade, quer seja pelo risco de incêndio, quer seja pela complexidade do território a necessitar de intervenção. Há também que ter em atenção a constituição das brigadas por parte das Comunidades Intermunicipais (CIM), nesta corrida ao aumento do número de equipas, verificamos algumas irregularidades nas constituições das referidas brigadas em algumas CIM. O problema dos incêndios, prima-se por uma questão social, não se tem visto medidas que visem essa questão. Ao invés disso, vemos entidades a disputar a linha da frente para a fase de combate, deixando mais uma vez, a prevenção órfã e desprovida de meios humanos que a executem. No nosso entender é crucial perceber em primeiro, as motivações das populações, no que diz respeito ao uso marginal do fogo, comportamento esse, de risco que tem repercussões no número de ignições registadas no nosso pais. Partindo dessa base, poderemos então, trabalhar uma prevenção mais eficiente. Somos a força que trabalhamos junto aos atores locais 365 dias por ano, e por isso temos uma enorme importância, assim nos saibam utilizar.
A nossa floresta não se coaduna com legislação a curto prazo, no mínimo os decisores têm de se basear no tempo de crescimento da mesma.
Nós somos aqueles que acreditamos profundamente que “as guerras de verão se apagam com o suor de inverno.”

Ministro refere que é uma “profissão muito dura”

O Semanário V falou também com o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, que foi quem criou as primeiras equipas de Sapadores florestais, no ano de 2004. “15 anos depois tinhamos as mesmas equipas com os mesmos equipamentos”, adiantou Capoulas Santos. O ministro refere que nos últimos três anos de Governo PS, os Sapadores passaram de 100 equipas para perto de 500, aumentando também o número de sapadores de 500 para 2.500, pois cada equipa é constituída por cinco elementos.

Sobre as exigências da ANSF, Capoulas Santos diz saber que “todos os grupos profissionais aspiram a melhores condições”, mas aponta que o Governo já fez e continua a fazer “um esforço para melhorar as condições que não eram alteradas há 15 anos. “É uma profissão muito dura e exigente e os profisisonais aspiram a melhores condições, e estamos a fazer por isso”, finalizou Capoulas Santos.

O que é o Sapador Florestal?

O Sapador Florestal é um trabalhador especializado, com perfil e formação específica adequados ao exercício das funções de gestão florestal e defesa da floresta através de ações de silvicultura, gestão de combustíveis, acompanhamento na realização de fogo controlado, apoio à realização de queimas e de queimadas, manutenção e beneficiação da rede divisional e de faixas e mosaicos de gestão de combustíveis e ações de controlo e eliminação de agentes bióticos;

Tem ainda a missão de sensibilização do público para as normas de conduta em matéria de natureza fitossanitária, de prevenção, do uso do fogo e da limpeza das florestas, da vigilância das áreas a que se encontra adstrito, ou estabelecido em POM e da primeira intervenção em incêndios florestais, apoio ao ataque ampliado e subsequentes operações de rescaldo e vigilância pós-incêndio, previsto em Directiva Operacional aprovada pela Comissão Nacional de Proteção Civil.

Comentários

Acerca do autor

Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista