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À conversa com Cândida Pinto (designer de Moda): “Nunca mais fiz nada que não tivesse um sentido…”

Cândida Pinto
Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Por coincidência chegamos ao mesmo tempo à Rua dos Capelistas 59, onde fica o Atelier da Embrace Inc.. Chamei-a, com a quase certeza de que seria ela, estava de costas e a correr. A sorrir comentamos: andarmos apressadas. Vestida com “a sua faceta mais de senhora”, feminina, a Taninha abriu-me a porta da sua “casa” e o que se seguiu foi espontâneo, mas cuidado. Fica-se com a impressão de que nada ali é por acaso: “vim para cá porque precisava de calma para criar e ficar com o meu filho… ele fica comigo até aos três anos.” Este é quase o tempo que a loja tem e desde que nasceu que tem aumentado o número pedidos, reconhecimento de um conceito que pretende ser “diferenciado” do que já existe. “Para mim é importante estar aqui”, apontando as caixas de lápis, “desenho e falo com as pessoas. Tenho a ideia de como os tecidos vão ficar, mas nem sempre a cliente tem. É importante termos a mesma linguagem. Desde pequenina que sou assim…”

Cândida Pinto

Andreia Santos: Fala-me disso, como eras em pequenina?
Cândida Pinto: A minha bisavó ensinou-me muita coisa, passava imenso tempo comigo. A minha família recebia muitas costureiras e eu gostava de costurar. Fazíamos e desfazíamos sempre com paciência.
A. : Não havia problema em errar…
C. : Não. A minha bisavó, avó e a minha mãe… às vezes gozavam muito comigo porque eu ficava horas ao espelho com uma peça… chamavam-me vaidosa e eu zangava-me (risos), gostava de ver como era.
A. : Quatro gerações juntas na costura, mas foste professora…
C. : Sempre fui boa aluna…Gostava muito, embora tivesse ideias muito radicais sobre o ensino.
A. : Ideias radicais… Quem julga isso?
C. : Acho que eu também. Estive em Berlim a estudar, nessa altura a minha mãe estava doente, foi um período difícil. Pela primeira vez aprendi a diferença entre estudar e aprender. Liguei à minha mãe e ela disse-me: esquece este ano, faz coisas que gostes, que te façam crescer. E foi, aquele ano estava perdido e eu aprendi tanto nele…
A. : Quando falas da experiência de professora soas-me grata…
C. : Sim, muito. A minha vida não teria sido a mesma se não tivesse sido professora. Os adolescentes tinham uma forma de estar que me limpava. (A olhar para mim, a ver se estaria a entender…). Foi muito difícil deixar tudo…
A. : Como foi que percebeste que o teu caminho não era por ali?
C. : A morte de um amigo meu. Quando tudo aconteceu o meu marido questionou-me se seria o que eu estava a fazer o que o meu amigo me diria para fazer… Não sei bem como e quando foi… acho que foi uma coisa pequenina que aconteceu na escola…
A. : O teu copo encheu… Estavas desiludida?
C. : Não gosto de usar a palavra desilusão. Os outros não são as únicas pessoas responsáveis pelas nossas escolhas. Estava triste. Acho que as pessoas deviam fazer o que a vida as chama para fazer. Também sentia que o que sabia de costura já não era o suficiente.
A.: Foste atrás do que gostavas mais…
C. : Eu não acho que todos tenhamos que ser empreendedores. Mas considero que o empreendedorismo começa com um lado emocional.

O uso do Pêlo falso é uma das características da Embrace Inc.

A. : De que gostas mais no teu trabalho?
C. : (Depois de pensar porque se nota que gosta muito). De reunir todas as peças para aquela pessoa. Escolher tudo para a pessoa e ter um final como ela. Por vezes até empresto coisas que ficam bem no conjunto. Sempre tive sensibilidade para compreender e gosto de criar peças com esse lado que vem da pessoa: um casaco com uma seda melancólica no design, mas também com esperança nos motivos que seleciono.
A. : Pareces-me conselheira e ter uma relação de proximidade com os clientes…
C. : Sou. Na escola chamavam-me para ser eu a “tocar” nos miúdos que não se abriam com mais ninguém, gosto de tentar dar isso.

Vestido usado pela modelo Lúcia Garcia

A. : Porque o nome Embrace Inc.?
C. : Eu queria que as pessoas se sentissem confortáveis como num abraço e ao mesmo tempo que se atrevessem a seguir o que são…
A. : E juntas-lhe a hastag #weholdyouclose…
C. : Porque é isso, quero que as pessoas se sintam seguras para falar dos seus receios, inseguranças… “não gosto nada das minhas pernas”, “ok, vamos então resolver isso.”

A. : Tens a vida que queres ter?
C. : A vida passa e as pessoas deviam saber disso e viver, ser quem são.
A. : O teu amigo ficaria orgulhoso…
C. : De certeza. Eu tinha que dar um sentido ao que aconteceu. Só podia. Nunca mais fiz nada que não tivesse um sentido…

No dia 13 de abril, a Taninha apresentará a sua coleção na Embrace Inc., e tu poderás também apaixonar-te pela marca única e carismática da sua mentora. Fiquei rendida à história que te transmito de forma muito breve e à sua transposição para o atelier em que a elegância e qualidade se exibem. Esta será a designer de que Braga, cidade onde escolheu viver, se poderá continuar a orgulhar. Obrigada Taninha.

*”À conversa com” é um espaço mensal de entrevista da responsabilidade de Andreia Santos

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Acerca do autor

Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional