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Ramalha sai à rua há 20 anos no “Carnaval trapalhão” da Vila de Prado

Ramalhenses preparam Carnaval (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Desde 1999 que um grupo de habitantes do lugar da Ramalha, na Vila de Prado, sai à rua na terça-feira de Carnaval, naquele que é apelidado pelos locais como um desfile de “Carnaval trapalhão”, por ser tudo preparado à pressa na noite anterior ao dia do Entrudo. Alguns anos depois, também os Carvalhinhos [lugar na Vila de Prado] iniciou a tradição de desfilar, existindo agora, naquela freguesia do concelho de Vila Verde, a tradição dos dois cortejos se encontrarem no centro da vila, juntando milhares de pessoas.

Celeste Fontes, em conjunto com Bernardete, iniciaram este desfile que, 20 anos depois, junta centenas de pessoas em cortejo e milhares pelas ruas da Vila de Prado, descendo desde o lugar da Ramalha, na fronteira com Soutelo, até ao centro da vila pradense, onde se encontram com outros foliões, os do lugar de Carvalhinhos, que partem da outra “ponta” da freguesia.

Sónia, Rosa e Celeste já estão em modo Carnaval (c) FAS / Semanário V

Celeste, corproprietária do Mini-Mercado Ramalhense, conta ao Semanário V como iniciou esta tradição que já é a mais vincada no Carnaval, não só no concelho de Vila Verde mas em toda a região adjacente. “Em 1999, na manhã de Carnaval, uma mulher, chamada Bernardete, deu a ideia de colocarmos umas máscaras para seguir em desfile até ao centro  da vila. Eu disse que estava bem e fui-me mascarar com roupas de improviso”.

Celeste e Bernardete, devidamente mascaradas de forma “atrapalhada”, acabaram por chamar outras pessoas do lugar, juntando, logo na primeira edição, cerca de 40 pessoas que rumaram ao centro da vila pradense.

“Demos uma volta no centro, porque naquela altura não havia nada. No ano seguinte já foi melhor, e no outro seguinte fomos até ao centro de Vila Verde também, depois de irmos a Prado, porque somos sempre de Prado. Mas em Vila Verde não pegou”, explica Celeste.

Com a ajuda de um empresário da Ramalha, dono das Construções Braga, aquele lugar começou a repetir todos os anos a parada carnavalesca, sempre com tudo a ser preparado na noite anterior, ou por vezes na manhã do dia de Carnaval.

Celeste aponta que mais importante que uma boa organização, é a criatividade. “Íamos sempre buscar os temas, primeiro do lugar, depois da freguesia, e por fim no concelho”. A comerciante aponta que nos Carvalhinhos “são mais organizados e trabalham muito”. “Aqui é mais o Carnaval trapalhão, cada um vai como quer e à última da hora é tudo ao molho e fé em Deus”.

Carnaval da Ramalha 2018 (c) FAS / Semanário V

Carnaval trapalhão

Rosa Rios é residente em Soutelo, embora o quintal seja já na Ramalha, Vila de Prado. Tem participado nos desfiles da Ramalha, mas foi “infiltrada” durante três anos no cortejo dos rivais dos Carvalhinhos. “Agora não sei, mas quando estive lá, havia uma reunião antes e cada pessoa tomava conta de um tema e de um grupo de participantes, e essa será a diferença na organização”, explica.

Celeste concorda, mas refere que depois corre sempre tudo muito bem. “À noite [véspera de Carnaval] é que vamos fazer as coisas. Ali a Construções Braga também é à noite, quando param de trabalhar. Dedicam-se a fazer os carros alegóricos”, explica, revelando que os fatos tentam sempre ser amigos do ambiente.

“Apostamos sempre na reciclagem, desde atos com tampas ou de sacos cafés da Meltino, embora não pertença à Ramalha”, explica Sónia Balixa, outra das participantes e impulsionadoras deste cortejo.

Sónia explica que os Carvalhinhos têm patrocínios. “Puseram uma barraquinha no São Sebastião para angariar fundos. Também nos perguntaram, mas não conseguimos ir. Para o ano podemos pensar”, revela.

Carnaval da Ramalha 2018 (c) FAS / Semanário V

Já Celeste garante que “tem corrido sempre tudo bem, apesar da trapalhada”. “Pegamos num chapéu e pedimos à noite, num convívio que fazemos, para ajudar a pagar, mas uns não dão nada, outros dão cinco euros, e no conjunto, se não chegar, cá estamos entre todos para repor”, diz, entre risos.

Sobre o convívio, Celeste destaca que é das melhores partes do evento. “Logo ao fim do segundo ano começamos a fazer aqui o final da festa, na Ramalha, com febras e pão, e isso ainda continua. As construções Braga, da Ramalha, é que ofereciam a farinha e coziam o pão, e ainda hoje são eles que fazem.  Sempre nos ajudaram em tudo”, vinca.

Quanto ao número de carros, não deverá ser “mais de meia-dúzia”. “Ainda não se sabe o número de carros, mas pelo menos meia-dúzia devemos ter. Este ano acho que vai ser mais gente a pé do que nos outros anos. Antigamente levávamos o carro de cozer o pão pelo caminho, mas agora fica aqui já à espera do nosso convívio”, atira.

Carnaval da Ramalha 2018 (c) FAS / Semanário V

Ramalha já teve muita população mas agora está parada

Sobre a Ramalha, Celeste explica que “é um lugar da Vila de Prado, que já teve muita população mas agora está mais parado”. “Os novos casam e vão embora, outros, mais velhinhos, vão para os lares e acabam por falecer.  Mas há 20 anos isto era diferente, que pensava-se que a Ramalha era uma freguesia”, vinca.

A Ramalha foi, em tempos, um forte pólo de olaria. Nunca lhe chamaram Cuba, como aos Carvalhinhos, mas antigamente apontavam Ramalha e Carvalhinhos o local “onde havia mais malandros que faziam coisas um bocado para o fraco”, contam as ramalhenses. “Havia muita porrada, especialmente por causa de mulheres”, refere Rosa Rios.

Sobre a rivalidade com os Carvalhinhos, Celeste assegura que “não é como as pessoa dizem”. Não há grande rivalidade, embora algumas pessoas sintam isso, mas eu não. Até pensámos juntar o convívio e um presidente de Junta [Paulo Gomes] sugeriu que o levássemos para o centro da vila, mas acabámos por não o fazer, não por qualquer rivalidade mas porque há pessoas idosas que ficam aqui para comer a febrinha e o pão e não conseguem deslocar-se para o centro”, explica.

A soutelense explica que “Carvalhinhos é o fim de Prado de um lado e nós somos o fim do outro, mas não há rivalidades, o que queremos é união. Eles estão como estão é porque trabalham. Tentamos fazer reuniões para preparar o cortejo como eles mas não dá”, disse ao Semanário V.

A soutelense vai participar na Ramalha, depois de no domingo já ter participado no desfile de Soutelo, e não se cansa. “Ainda ontem dei a volta a Soutelo a pé. Gosto da alegria e da boa disposição para aliviar o stress. Nasci em Soutelo, mas é já na fronteira com a Ramalha, junto ao tanque. A casa é Soutelo e o quintal já é Prado”, diz.

Rosa já foi nos Carvalhinhos, três anos. “Porque a minha filha tinha lá um café e eu ia com eles. Eles trabalham muito, vendem rifas, cheguei a vender rifas para eles, e depois participava no Carnaval lá também. Agora vou no da Ramalha outra vez. A gente vai em qualquer lado, quer é diversão. Gosto muito disto”, finaliza, enquanto improvisa nova máscara com alguns vestimentos à venda na mercearia de Celeste.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista