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Escutismo é dos melhores incentivos para crianças largarem o telemóvel

Escuteiros da Correlhã visitam Aldeia da Pequenina (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Ao contrário da letra sugerida por Conan Osíris, recentemente eleito representante português na final da Eurovisão, os escuteiros não precisam de “partir o telemóvel”. Basta que os desliguem ou, simplesmente, os ponham num saco de recolha de aparelhos. Esta é uma das regras que diversos agrupamentos de Escuteiros estão a implementar um pouco por todo o país, durante sessões de acantonamento, acampamento ou atividades lúdicas. E o objetivo de abstrair as crianças e jovens do mundo digital tem resultado.

Escuteiros da Correlhã visitam Aldeia da Pequenina (c) FAS / Semanário V

O Semanário V acompanhou o agrupamento 1379 da Correlhã, do Núcleo de Ponte de Lima, numa visita à região Norte de Vila Verde, que passou por Aboim da Nóbrega e ainda alguns locais que já pertencem a Ponte da Barca, como o penedo do Livramento. O guia desta caminhada foi Armando “Carriça”, natural de Aboim da Nóbrega mas a viver na Correlhã há várias décadas.

Escuteiros da Correlhã visitam Igreja de Aboim (c) FAS / Semanário V

Francisco Cruz, chefe de secção dos exploradores, e Marcos Calçada, chefe adjunto do agrupamento, dinamizaram a visita a esta freguesia onde fomentaram a união entre crianças e, claro, a exploração de trilhos e de outros locais de especial interesse patrimonial e natural da freguesia de Aboim da Nóbrega. E sem telemóveis.

O chefe de grupo explica que a regra dos telemóveis começa logo na base do agrupamento, na Correlhã, onde os cantos das diferentes patrulhas estão divididos, mas todos com saquinhos para recolher telemóveis. “Há atividades em que os telemóveis ficam de lado. Obviamente que se formos para uma caminhada ou para um raide, é necessário que o guia leve um telemóvel, para o caso de alguma emergência. Mas as crianças não levam e já contam com isso”, diz o chefe de grupo.

Para se orientarem, possuem bússolas e, claro, os tradicionais mapas de papel. “Nada de telemóveis, embora existam boas aplicações para a orientação, mas não é esse o valor que queremos incutir”, adianta Marcos Calçada. “Têm de saber as pistas, virar à direita, à esquerda, se vão no caminho errado. Eles são autónomos nesse sentido, porque lhes vamos ensinando como lidar com a cartografia”, refere o chefe adjunto do agrupamento. E com os mapas de papel, as crianças vão-se orientando.

Escuteiros da Correlhã visitam Aboim (c) Armando Carriça

Escutismo perde para o Desporto?

Com cerca de 80 elementos, o agrupamento da Correlhã acaba por ter um número elevado, para os padrões de hoje em dia, sobretudo em locais mais de interior. Calçada aponta que, hoje em dia, não é muito fácil ter um agrupamento com este número de elementos, porque os pais querem mais que os filhos sejam desportistas. “Encaminham para o Futebol e para a Canoagem, e cada vez menos para o escutismo”, lamenta.

Já Francisco não considera que o desporto seja rival. “Não. Tudo faz parte e podem conjugar as duas atividades. Temos aqui um ou outro escuteiro que também pratica, desporto federado e não há conflito. Os pais querem sempre que os filhos sejam campeões e preocupam-se pouco com os valores que podem aqui aprender, mas ainda há muitos que se importam com isso”, refere.

Escuteiros da Correlhã visitam Aboim (c) FAS / Semanário V

Valores e formação de desenrasque

O grupo de cerca de 30 exploradores está ainda numa fase embrionária no escutismo, estando a começar a aprender a fazer construções só com madeira e cordas. “Todas essas práticas permitem-lhes adquirir competências e, no futuro, podem estar melhor preparados do que quem nunca foi escuteiro”, adiante Marcos.

Já Francisco acrescenta que aprendem a cozinhar, trabalhar na floresta, lidar com animais, e, sobretudo a “aprender valores que se vão perdendo na sociedade, como a camaradagem”. Não tem dúvidas em afirmar que o escutismo é “uma escola de valores”.

“Não vejo organização tão abrangente como o escutismo para a formação dos jovens. Para além dos valores humanos, temos também o aspeto físico que também é importante que eles assimilem e ganhem gosto por este tipo de atividades”, remata Marcos.

Francisco Cruz e Marcos Calçada (c) FAS / Semanário V

Aboim é um local único

Com ânsia de conhecer os trilhos de Aboim da Nóbrega, algumas crianças admitem mesmo que “antes de começar, já gostaram desta atividade”. Os responsáveis pelo grupo alertam, no entanto, que estas caminhadas são mais vocacionadas para Pioneiros e Caminheiros, já habituados a grandes trilhos. “Nesta idade ainda vão reconhecendo locais que não se conhecem de outra forma, exercitam para estar no meio da natureza, e em espaços verdes, na montanha”, diz Marcos.

Porquê Aboim? “Estivemos aqui há alguns anos, extra escutismo, e achamos que é um local único. Andávamos há muito tempo para repetir, eu e o Francisco, trazê-los cá, porque acho que vão gostar. Para além de estarmos em plena montanha, há ali alguns locais com atividades diferentes, como escorregar nos penedos, e as crianças adoraram”, revela Marcos.

Penedo do Livramento (c) FAS / Semanário V

Já Francisco aponta o “penedo do Livramento” como grande “Meca” desta caminhada. “O ano passado estivemos em Sistelo, e agora decidimos vir para estes lados”, aduz.

“Se não for desta forma, é complicado tirarmos as crianças de casa. Melhor que escutismo é difícil encontrar uma atividade que os faça respeitar a natureza. Permite o contacto com o ar livre, conhecer locais que de outra forma não conheceriam”, adianta Marcos.

Escorregar nos penedos

Sobre a atividade que cada vez atrai mais curiosos e aventureiros a Aboim – escorregar no penedo -, os responsáveis apontam que as raparigas não tiveram coragem, mas que vários dos rapazes experimentaram, incluindo os chefes.

Escorregar no penedo (c) Armando Carriça

Francisco explica que, em Ponte de Lima, fazia-se o mesmo, mas não se escorregava em giestas e sim em ramos de eucalipto. “De giesta é muito divertido. Sem dúvida que recomendamos a visita de outros escuteiros a esta terra, para participar neste tipo de atividades”, finalizam os chefes, deixando ainda elogios aos trilhos da Nóbrega. “São fantásticos!”.

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Fernando André Silva

Jornalista