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Vila Verde. Gondomar é local de “casas vazias” e onde só se vive do que a terra dá

Gondomar (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Na eleições autárquicas de 2009, antes da reforma administrativa, Gondomar era uma das 118 freguesias que ainda elegia o presidente de junta através de plenário de braço no ar por ter menos de 150 eleitores. Na altura, 57 votantes compareceram na sede da junta para eleger Carlos Peixoto, que venceu pelo PSD com 28 votos, contra os 19 do CDS-PP. Foi o último autarca da freguesia de Gondomar, que se uniu em 2013 à vizinha Aboim da Nóbrega, nascendo assim a nova freguesia de Aboim da Nóbrega e Gondomar.

Hoje, é quase que um lugar esquecido nas terras altas do concelho de Vila Verde. Conhecida pela produção de gado bovino de estirpe barrosão, autóctone do Minho, conta atualmente com “56 ou 57 habitantes”, e entre “51 a 52 cabeças de gado bovino”, respondendo assim a uma questão que paira no ar naquela localidade.

Terá Gondomar mais gado do que habitantes? Tem certamente, entre mais de meia centena de gado bovino e igual número em gado caprino, aquela aldeia – chamemos-lhe assim -. conta com mais de 50 habitantes, mas não chega aos 60, segundo informações recolhidas junto de vários populares dos dispersos lugares da extinta freguesia. Os últimos censos, de 2011, apontam de forma oficial 71 habitantes. Em 2001 eram 87 e em 1991 eram 116 habitantes.

Sem indústria nem comércio, aquela localidade vive apenas do setor primário, explorando os diferentes recursos da natureza. E isso fica bem patente quando vemos algum do gado daqueles agricultores a passear pelas estradas municipais que rasgam as encostas de Nóbrega, Valdreu e de Gomide. O Semanário V esteve à conversa com alguns habitantes que não abandonaram o local de nascença. Dois deles, produtores de gado, apontam Gondomar como um local de “casas vazias” e de “serras boas para os animais selvagens”.

“Aqui é onde está o dinheiro”

Alexandre Dias (c) FAS / Semanário V

Alexandre Dias, de 74 anos, tem 24 cabeças de gado barrosão, quase metade da totalidade da freguesia. Domingos Soldado, cunhado de Alexandre, tem 14. Os dois juntos são a economia local daquela aldeia, vendendo, em dias bons, vacas por valores acima dos 300 euros. “Aqui é onde está o dinheiro”, atira Alexandre, enquanto reencaminha o gado de monte que habitualmente vagueia pelas estradas das freguesias vizinhas.

“Ora bem, só eu tenho 24 vacas. Oito vacas de monte e as outras é tudo do campo. E tenho um boi”, conta Alexandre, mostrando o “Cabano” com orgulho. “Já houve mais gado na freguesia mas eu nunca tive tanto”. O agricultor diz ostentar a alcunha de Rei do Gado, no concelho de Vila Verde, “não por ter muito mas porque era quem tinha o gado melhor”. “Tinha e tenho”, vocifera Alexandre, enquanto aponta para o gado que pasta habitualmente na pradaria e encosta verde cheia de alimento para os bovinos. “O meu gado anda bem tratado, mas há gado muito desprezado, e é de lá que sai o dinheiro nesta freguesia”, relembra.

Alexandra fala ainda das serras de Gondomar, “ricas paras os animais selvagens”. “Vê-se por aí lobos, mas já há algum tempo que não há nenhum ataque ao gado. Vê-se muito é cavalos selvagens que vêm para aí libertar a meio da noite e que crescem e reproduzem-se ai. Volta e meia aparece uma carrinha para levar um potro, mas os cavalos passam a ficar soltos nestes montes”, diz.

Boi “cassano” (c) FAS / Semanário V

Os netos – três -, “todos estão empregados” noutras áreas. O filho também. “Faço isto tudo sozinho com a minha nora, menos ao sábado, quando eles não trabalham e se reúnem”, explica. Aos sábados, o resto da família de Alexandre ajuda a “botar o mato” e a fazer “as coisas piores”. “E durante a semana eu vou olhando pelas vacas”, diz.

Uma particularidade da aldeia de Gondomar é a livre passagem de gado bovino, por vezes com cada um a pesar mais de 200 quilos, pelas estradas municipais. Embora os agricultores o vão buscar, quando se encontra mais afastado, o gado vai passeando livremente, “rapando” as bermas das estradas, que nem “vacas sapadoras”.

“Vacas sapadores” de Alexandre Dias (c) FAS / Semanário V

“Essas ajudam a cortar as silvas mas não comem o mato. Comem é tudo o resto que as árvores de folha dão”, diz o produtor de gado. E às oito “vacas sapadoras” de Alexandre não falta pasto. Comem arbustos, ramos de árvores caídas, quase todo o tipo de “combustível” que pode ajudar a propagar incêndios. Menos o mato, esse já é trabalho para os proprietários dos terrenos. As restantes pastam erva, nos campos.

Domingos Soldado recorda missas com muita gente e aponta “casas vazias” em grande parte dos lugares

Domingos Soldado (c) FAS / Semanário V

“Todos os lugares têm casas vazias”, diz Domingos Soldado, cunhado de Alexandre e residente no lugar da Nogueira. Também ele agricultor e produtor de gado. “Aqui na nossa casa já só estamos dois. Ao cimo do lugar tem mais um e naquela casa moram três pessoas”, diz, contando pelos dedos os habitantes do lugar da Nogueira. “Ao todo são seis lugares, e já há um ali em cima que tem aquelas casas mas não mora lá ninguém”, lamenta.

Gondomar (c) FAS / Semanário V

Conta que as pessoas vão embora porque não arranjam trabalho e a vida no campo é dura. “Tenho nove filhos e estão todos fora. Só ficou uma cá por perto, mas está em Aboim da Nóbrega”, explica ao Semanário V. “Não havia aqui trabalho para eles. Podiam dedicar-se à agricultura, que dava para sobreviver, mas nisto dá-se cabo do corpo a trabalhar. É muito duro”, acrescenta o agricultor de 80 anos, lamentando ainda os incêndios nas serras que dão mais alimento para os animais.

Nogueira, em Gondomar, foi dos locais mais afetados pelas chamas, levando à evacuação de 13 pessoas em 2018 (c) FAS / Semanário V

Depois dos incêndios, Domingos revela que as 14 cabeças de gado “estão todas no campo”. “Tinha umas que lhes chamavam as galegas que andavam.no monte, mas agora não tenho nenhuma”, diz, revelando que recentemente pagou “cem contos” [500 euros] por o arranjo de um carro que embateu contra uma vaca sua. “O carro vinha com muita velocidade, mas a vaca ia na estrada e passou à frente e bateram. Atirou com a vaca de cangalhas mas a vaca ficou bem. O carro é que ficou muito danificado. Custou-me muito a pagar”, diz.

Aldeia de Gondomar (c) FAS / Semanário V

Sobre a desertificação de Gondomar, Domingos recorda “outros tempos”, especialmente ao domingo, quando a igreja ficava cheia para a missa. “Agora vão umas seis mulheres e três homens, mais ninguém. Só quando cá vêm os escuteiros é que a igreja enche, e eu gosto”.

Em Gondomar existe uma Base Escutista que alberga dezenas de escuteiros em acantonamento e centenas em acampamento, sendo frequente alguns agrupamentos deslocarem-se até àquela base para realizar atividades nas freguesias serranas.

Inauguração da Base Escutista de Gondomar (c) FAS / Semanário V

“É bom virem para cá, tocam viola e cantam, e isso é bom. É bonito. Eu gosto”, diz Domingos, com um sorriso enquanto é chamado pela esposa para ir ao telemóvel, aparelho que até há bem pouco tempo era inútil em Gondomar, até que foi instalada a primeira antena de rede móvel naquela região, em março de 2017, como noticiado, na altura, pelo Semanário V.

Alexandre Dias (c) FAS / Semanário V

A extinta freguesia pertencia ao concelho de Ponte da Barca e à comarca de Viana, mas passou para o concelho de Pico de Regalados em 1853 e, dois anos depois, passou para o de Vila Verde. Conta atualmente com os lugares de Ameixoeiras, Igreja, Nogueira, Porto, Casais e Tojal. Em três outros lugares, entretanto extintos, já não existe população, [Cal, Cabo e Picoto], substituída por gado sapador de várias freguesias daquelas serras do “norte esquecido” de Vila Verde.

Nota de redação: Atualmente, três antigos lugares de Gondomar já não existem, segundo nos informou um antigo autarca da freguesia. Segundo incorporações provenientes da Conservatória do Registo Civil de Vila Verde entre 1918 e 1922 (não foi possível precisar a data) e em 8 de fevereiro de 1984, 16 de abril de 2008 e 30 de março de 2011., disponíveis on-line no arquivo da Universidade do Minho, outrora existiram os lugares de Cal, Cabo e Picoto, podendo ser esses os lugares entretanto exintos.

Segundo os arquivos históricos citados pela Universidade do Minho, a paróquia de Santo André de Gondomar era, em 1758, abadia da apresentação de D. Luiz de Menezes. Pertencia ao concelho de Ponte da Barca e à comarca de Viana. Segundo o Padre Carvalho foi do padroado real e depois da apresentação de Ponte da Barca. Pasou para o concelho de Pico de Regalados em 31 de dezembro de 1853 e quando este foi extinto, em 24 de outubro de 1855, passou para o de Vila Verde. Foi composta pelos seguintes lugares: Ameixieiras, Cabo, Cal, Casais de Baixo, Casais de Cima, Igreja, Nogueira, Picoto, Porto e Tojal. É paróquia da diocese de Braga.

A partir de 1 de Abril de 1911, os livros paroquiais foram entregues, por determinação legal, às repartições do Registo Civil, criado em 18 de Fevereiro do mesmo ano, onde permaneceram até à sua incorporação nos Arquivos Distritais, após decorrerem 100 anos sobre a data de elaboração do último registo. Em 1994 foi publicado o Inventário Colectivo dos Registos Paroquiais, no âmbito do Inventário do Património Cultural Móvel.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista