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Há cada vez mais gaivotas no centro da cidade de Braga

Gaivotas no topo da igreja de S. Paulo © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Braga sempre foi conhecida por ter “gaivotas”, embarcações que satisfaziam o imaginário das crianças e adultos no lago do Bom Jesus e, mais recentemente, no Parque da Ponte e na praia de Adaúfe. No entanto, ao longo dos últimos anos, a cidade aprende a conviver com outro tipo de gaivotas, as de “pata-amarela”. E sim, estamos a falar das aves marinhas habitualmente encontradas junto à costa oceânica.

Algumas chegam à cidade de Braga às primeiras horas da manhã, vindas do lado do oceano. Populares já lhes chamam despertador ao estilo de galo de aldeia. Outras já nidificaram e “alugaram” telhados de casas e igrejas para constituir família, passando lá as noites. As gaivotas-de-pata-amarela visitam Braga há vários anos, mas cada vez mais dominam parte dos céus no centro histórico de Braga, à semelhança do que já acontece há alguns anos nas cidades e vilas da Área Metropolitana do Porto.

Gaivotas no topo da igreja de S. Paulo, no centro de Braga © FAS / Semanário V

O Semanário V tentou perceber de onde vêm, quando chegaram, onde nidificam, mas as opiniões dividem-se, e factos em concreto, quase nenhum. Apenas que aumentaram de número nos últimos três anos e que já nidificam, despertando curiosidade a quem passa no centro da cidade, sobretudo nas traseiras do Seminário de São Tiago, na Rua D. Afonso Henriques, na freguesia de São João do Souto.

Falámos com o presidente da junta de São José de São Lázaro e São João do Souto, José Pires, sobre este tema, que não lhe é “nada alheio”.

“Sabemos que há gaivotas, sabemos que há situações em que as pessoas nos dizem que elas fazem muito barulho e sujam as varandas”

José Pires revela que, apesar dos ataques às varandas, não há problemas em questões de segurança. “Não há ataques a pessoas, mas sim aos pombos, elas só atacam os pombos”, diz José Pires, não escondendo alguma satisfação por ver isso acontecer, uma vez que, em tempos, também a população de pombos era um problema para aquela autarquia.

Gaivota mata pomba na cidade de Penafiel / Arquivo de Fernando Beça Moreira

Porque é que elas vêm? “Não sabemos”, diz o presidente da junta. “Mas sabemos que a orla marítima é relativamente perto, a cerca de 30 quilómetros, e é possível que, por falta de alimentação, venham aí ao longo dos ribeiros e dos rios a ver se encontram alimento”. José Pires diz ainda que “algumas encontram alimento, porque ainda somos daquelas pessoas que gostam de colocar a comidinha aos gatos na rua e às vezes não é para os gatos, é para as gaivotas”. “Já tive algumas queixas que elas andam por aqui e que atacam comida nas varandas e na rua”, adianta ainda o autarca.

Sobre o período em que as gaivotas andam pelo centro de Braga, José Pires não tem certezas. “Eu acho que elas só andam por cá há cerca de três anos. Não andavam aqui há mais anos, eu acho que é um fenómeno relativamente recente”, assegura. Mas a data não é partilhada por outros bracarenses, havendo mesmo quem diga que vê gaivotas em Braga “há mais de 10 anos”, não só naquele local mas também em outros pontos da cidade, como junto ao Tribunal, na Av. da Liberdade, na Rua do Raio, ou no Largo de São Paulo.

Gaivotas no topo da igreja de S. Paulo © FAS / Semanário V

Armando Carvalho e José Ferreira são colegas de profissão, numa garagem na Rua D. Afonso Henriques, há mais de 20 anos. José diz que viu as primeiras gaivotas há 10 anos, “nas traseiras do seminário”. Já Armando, apesar de trabalhar no mesmo local, diz que só as vê há três anos, indo ao encontro da data apontada pelo presidente da junta. Armando conta que, em agosto de 2018, fizeram um ninho na casa em frente à garagem, e, quando o dono do prédio o tentou destruir, sofreu um ataque. “Ele tentou espantá-las mas elas ainda o atacaram. Conseguem ser perigosas”, realça.

No entanto nunca testemunharam qualquer ataque fortuito a humanos nos últimos três anos. “Dizem que uma vez houve uma que atacou uma pessoa na Avenida da Liberdade mas não sabemos se será verdade”. O Semanário V contactou fonte da PSP que indicou não ter conhecimento de qualquer ataque de gaivota a um ser humano”. Armando diz, no entanto, que já as viu a atacarem pombos em pleno voo. “Elas estão nos telhados e atacam a pique, traçam a pomba e depois vão buscá-la ao chão”, conta, assegurando que já testemunhou essa situação por algumas vezes. Conta ainda que, ao domingo de manhã, costuma caminhar na zona pedonal junto ao rio Este, onde já viu gaivotas a “pescarem” peixe do rio.

Outra das teorias dos dois colegas passa por um altifalante, situado no topo da Sé Catedral de Braga, que emite sons de pássaros para afastar os pombos. No entanto, o Semanário V falou com Carlos Almeida, sacristão-mor da Sé Catedral de Braga, que não concorda com essa teoria. “Efetivamente temos esse dispositivo que serve para emitir diferentes tipos de sons e o da gaivota quase nunca é utilizado”, confirmou o responsável pela gestão da Sé ao Semanário V.

“Eu acho que elas vêm para cá porque não tinham que comer”, reitera Armando. “Não é normal, porque aqui não há mar. Alguém as trouxe, se calhar. Ou então foi pela comida”, acrescenta. Já José vai mais pela teoria de que alguém as trouxe para acabarem pelos pombos. “Para mim vieram com intenção de espantar as pombas. Se calhar já trouxeram de propósito para isso, porque vê-se cada vez menos pombas e elas espantam as pombas”, assegura.

Sobre o número de gaivotas, garantem já ter contado as que habitualmente frequentam o centro da cidade. Armando aponta 25 enquanto José diz que são 22. “Falámos do grupo que anda por aqui, na Rua D. Afonso Henriques e nas traseiras do seminário”, dizem, garantindo que “a cada ano que passa são cada vez mais e que se estão a reproduzir. “As pessoas ficam admiradas como é que é possível elas estarem aqui. Ao início eram meia duzia e até pensámos que fosse um caso isolado mas agora são cada vez mais e ficam cá grande parte do ano”, diz José.

Fenómeno em outras cidades já vem desde o início do miléno

Segundo noticiou a TSF em 2013, fenómeno das gaivotas viverem cada vez mais nas cidades costeiras já se regista, pelo menos, desde o início da década de 2000.

Ivan Ramirez, coordenador do programa Marinho Europeu e biólogo da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), disse na altura àquela rádio que a vaga de calor ajuda a acentuar o fenómeno. “Mais calor significa mais insectos e para as gaivotas isso é sinónimo de mais comida disponível nas cidades”.

Explicou ainda que, nos telhados das casas, no quintal ou nas ruas, são sobretudo as chamadas “gaivotas de pata amarela” que melhor se adaptam aos ambientes urbanos.

A Junta Metropolitana do Porto (JMP) chegou a celebrar um protocolo com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), da Universidade do Porto, tendo em vista o controlo da população de gaivotas em locais urbanos.

PAN recomenda estudo sobre as gaivotas-de-patas-amarelas nas cidades

O Pessoas-Animais-Natureza (PAN), em 2018, recomendou ao Governo a realização de um estudo sobre a “presença cada vez maior de gaivotas-de-patas-amarelas nas cidades, por este por ser um problema nacional e internacional”.

“A ineficiente produção e gestão dos resíduos urbanos é um foco de alimentação disponível para as gaivotas, levando a que as mesmas decidam instalar-se em grandes centros urbanos, pelo que é urgente atuar politicamente de modo eficaz na produção e gestão dos resíduos urbanos. Há ainda que perceber os impactos que tem para as gaivotas residirem nos centros urbanos, uma vez que nos seus ninhos são hoje em dia encontrados constantemente materiais como metais, plásticos e vidros”, referiu o partido. Recomendam a “inviabilização dos ovos” ou “métodos contracetivos”, e um eficaz “tratamento dos resíduos urbanos”.

Gaivotas deveriam andar a comer peixe no mar, mas não no lixo das cidades

Já Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISUP) admitiu, em agosto de 2018, à Agência Lusa, que as gaivotas são um problema de saúde pública e sugere à população que deixe de dar alimento àquelas aves. Refere que este fenómeno não é caso para alarmismos mas que a prevenção deve ser acautelada.

“Não vale a pena fazer alarmismo, isto não é como o caso dos morcegos para aquela doenças infecciosas graves de África ou não é como a raiva. Não estamos a falar de coisas destas, mas é possível que havendo um grande desequilíbrio ecológico se criem condições para algumas dessas espécies [como as gaivotas] possam transformar-se em portadores de agentes infecciosos”, observou, recordando ainda a discussão em torno da “gripe das aves”.

“O que nós sabemos hoje em dia, isso é muito claro, é que quando mexemos nos equilíbrios ecológicos criamos problemas” e ao fazer essa mudança “criam-se condições para que possa ser introduzido ou que circule um agente que nós não estávamos à espera”, explica Henrique Barros, observando “que as gaivotas deveriam andar a comer peixe no mar, mas não no lixo das cidades”.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista

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