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Sacristão da Sé de Braga conta 24 anos de história. “Tive medo de um ataque terrorista”

Carlos Almeida, sacristão-mor da Sé de Braga © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Dos residentes na cidade de Braga, poucos são os que não conhecem o “senhor Carlos da Sé Catedral”. Sacristão-mor da Sé Catedral de Braga desde 1995, Carlos Almeida é quem trata de toda a logística e orienta os diversos funcionários do Cabido da Sé, Chegou ao cargo após “perseguição” do mediático cónego Melo e, durante os últimos 24 anos, ganhou muitos amigos, mas também aturou momentos bastante “medíocres”, como quando pensou estar a ser alvo de um ataque terrorista.

Para conhecer Carlos da Sé é preciso recuar no tempo. Nascido há 71 anos em Paredes Secas, concelho de Amares, mudou-se para Braga em 1961, para trabalhar como ajudante do “Pensionato da Rua de Santa Margarida”, onde tratava da cozinha e da lide doméstica para os estudantes das diversas escolas de Braga que residiam em internato naquela pensão. Ao mesmo tempo, aprendeu a tocar os sinos da Sé Catedral de Braga, oito de uma vez, dois com os pés e seis com as mãos. E nasceu aí a paixão pela mais antiga Catedral do país. Mas já lá vamos.

Carlos Almeida, sacristão-mor da Sé de Braga © FAS / Semanário V

Com um periodo de três anos na tropa, aprendeu a ser cozinheiro, e foi comandado pelo “comandante” Spínola, que viria a ser Presidente da República. “Comia o que os outros oficiais comiam”, conta ao Semanário V, a propósito de ter cozinhado para o, na altura, comandante do exército.

Em 1964, mudou-se para uma fábrica têxtil [onde futuramente nasceu a Maconde], e onde “ganhava menos e trabalhava mais” do que no pensionato. Lá ficou até 69, altura em que a fábrica fechou, depois de “um desvio de vários milhares de contos que o patrão nunca superou”. Durante esse tempo, continuou a fazer voluntariado na Sé, até partir para a Alemanha, onde trabalhou numa empresa parceira da Pachancho, fábrica de componentes de motorizada com sede em Braga.  Com a mulher a padecer de uma doença súbita, regressou a Portugal em 1977, regressando ao voluntariado na Sé de Braga.

Cónego Melo perseguiu-me

“A minha esposa estava doente e decidi regressar. Fui trabalhar novamente para a fábrica de componentes e la´fiquei até 1995, altura em que o senhor cónego Melo me convidou para assumir o lugar do senhor Ferreira, que era o sacristão da Sé de Braga”, conta. Artur era, desde inícios dos anos 80, uma espécie de “braço direito” do “senhor Ferreira”, à altura sacristão-mor da catedral. Foi visto pelo cónego Melo como um sucessor natural, e o clérigo não desistiu. “O senhor cónego Melo praticamente que me perseguiu durante meses, até que decidi aceitar. E ainda cá estou”, revela, classificando o trabalho de sacristão-mor da Sé Catedral como “muito complicado”.

“É uma tarefa muito complicada. As pessoas podem pensar que isto é muito fácil mas não é. Tenho aqui muitas horas de dor de cabeça. Os funcionários, sou eu que os coordeno, à volta de 12 funcionários, comigo são 13. Em termos de horários de entrada e saída, em termos de folgas, em termos de férias, vencimentos, sou eu que transmito à contabilidade o tempo que têm de trabalho. Se houve baixas também sou eu que tenho de resolver. Faço a gestão toda daqui com a colaboração do meu chefe, o cónego José Paulo. que é o Dião do Cabido da Sé”, aponta.

Carlos Almeida, sacristão-mor da Sé de Braga © FAS / Semanário V

Ao longo dos últimos 24 anos como “gestor” do mais emblemático monumento da cidade de Braga, Carlos recorda momentos bons e outros “medíocres”. “Desde que entrei aqui, penso que para qualquer pessoa que esteja como eu nesta função, tem de ter muita disponibilidade, a qualquer hora, sem horários, é o primeiro ponto. Segundo ponto tem que ter muito gosto por a função que desempenha. Isto hoje não é uma igreja paroquial, celebram a missa diária e depois fecha a igreja. Aqui não, estamos desde as 8 da manhã até fechar a catedral”, aponta.

Pagar para entrar?

Uma das grandes polémicas na era de Carlos Almeida foi, em 2014, quando o Cabido da Sé decidiu começar a cobrar entradas de dois euros naquele espaço religioso. “É assim, se as pessoas de Braga que educadamente cheguem aqui e digam que vão rezar, fazer uma oração, sim senhor, nós deixamos entrar e que rezem a qualquer santo da sua preferência. Aquela pessoa que é de fora, são de Vila Verde ou Amares ou seja de onde for, geralmente, não vem de lá para vir rezar. Vem para vir visitar. Chegam aqui à porta, está o funcionário, e são convidados a tirar bilhete. Supomos que são pessoas daqui da cidade e que nos dizem sou da cidade vou fazer uma oração, nós geralmente conhecemos as pessoas habituais que rezem aqui, e deixamos entrar sem pagar bilhete. Se entram e dizem que é para rezar mas depois põe-se a tirar fotografias, então aí sim, convidámos a regressar cá fora para tirar bilhete”.

“Também és padreco?”

Como responsável, Carlos Almeida é quem “dá a cara” nos momentos de tensão. “É certo que já tive um jornalista de Lisboa, que chegou cá ao domingo à tarde, e arrancou a blusa e o cartão de uma funcionária, quando ela lhe pediu para pagar a entrada”, revela. “A funcionária estava a chorar porque ele tinha arrancado a blusa e tocado nos seios, e eu fiquei logo chateado com isso, porque aí foi um abuso. O senhor acabou por pagar e entrou, foi por ali acima e desfeitiou o senhor que estava a rezar o terço, dizendo “sai daí padreco, porque pensava que era um sacerdote”. Aí resolvi perguntar-lhe o que se passava e ele vira-se: “também és padreco? Põe-te a andar”. “Mantive-me muito calmo, e tive de chamar a polícia. Sou frio nessas partes”, confessa.

Outra parte menos boa deste trabalho aconteceu já nesta década. Artur conta que um jovem com “aparência suspeita” entrou na igreja com um “saco suspeito”. “Era um rapaz com trajes muçulmano e que estava a agir de forma suspeita. Chamaram-me e observei e percebi que estava bastante nervoso e sempre agarrado ao saco. Abordei-o e pedi que saísse, mas ele começou a barafustar. Ameacei chamar a polícia e ele acedeu a abandonar o local”, conta, confessando que chegou a temer que se tratasse de um ataque terrorista. “Sim, confesso que tive medo, tanto eu como todos os outros funcionários. Se nos deixámos levar pela aparência? Talvez. Mas não foi só a roupa e o saco, a própria expressão corporal era suspeita”, assegura.

Apesar das partes menos boas, Carlos Almeida salienta que dos melhores ganhos nesta profissão é “ter muitos amigos. “Posso dizer-lhe que onde quer que vá na cidade, ou até fora da cidade, as pessoas conhecem-me e dizem assim, está ali o Carlos da Sé de Braga. Isso para mim é gratificante”, confidencia. Com 71 anos, e sem ser funcionário público, Carlos não tem data para se reformar. “Será até quando Deus quiser”, finaliza.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista