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Médicos disseram que não, mas Rosinha volta a andar após uma queda

Os médicos disseram que não, mas Rosinha voltou a andar depois de uma queda © Mariana Gomes / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Os médicos disseram que não voltava a andar, mas a Rosinha de Moure trocou-lhes as voltas e chega aos 103 anos em forma invejavél.

O Centro Paroquial e Social de Moure é a casa da Dona Rosa há cerca de um ano e meio. No passado domingo festejou 103 anos de vida, rodeada de familiares e amigos que celebraram o aniversário daquela que provavelmente será a mulher mais velha do concelho de Vila Verde. Há cerca de seis meses, Rosinha sofreu uma queda, a qual os médicos garantiram que não voltaria a andar. Com a força de vontade e determinação, tanto da Dona Rosa, como da equipa técnica do lar, hoje já está em recuperação e voltou a andar.

Conhecida por Rosinha, é utente do Centro Paroquial e Social de Moure há 16 anos, tendo começado com apoio domiciliário até aos 101 anos, altura em que ainda vivia sozinha em casa. Após uma queda na sua residência, o Centro sentiu a necessidade de intervir e apelar junto da família de forma a colocá-la nas instalações do lar a tempo inteiro, passando a utente interna desde há cerca de um ano e meio.

 

Rosinha tem 103 anos © Fernando André Silva / Semanário V

 

Cristiana Sá, diretora do Centro Social e Paroquial de Moure, contou ao Semanário V que a Rosinha “teve uma queda em casa, na qual tivemos de fazer arrombamento de porta para poder ajudar. Com a vontade da própria trouxemo-la para interna.

Aquando da queda em casa, quando ainda vivia sozinha, “a Rosinha ficou deitada no chão durante muitas horas, já estava em hipotermia”, contou Cristiana, adiantando que foi nessa altura que surgiu a necessidade e obrigação de alertar a família de que ela não podia estar sozinha.

Desta primeira queda não surgiram lesões graves, mas em outubro do ano passado, Rosinha sofreu uma segunda queda já no Centro Paroquial e Social, numa brincadeira. “Vinha com outra idosa na brincadeira a cantar. A Rosinha estava com a bengala dela, roda o corpo para a colega e ao rodar desequilibrou-se. Eles com a idade perdem muito cálcio e ao bater no chão estalou”, contou a responsável.

Todos os clínicos disseram que ela não voltaria a andar e “para não ter a expectativa que ela voltaria a ter marcha”, mas após um mês, quando estabilizou em termos de peso, “começou a fazer levante da cama para o cadeirão e, depois, no cadeirão, levantava e sentava”. De seguida, começou a fazer marcha de curta distância e, atualmente, já faz marcha normal. “O nosso fisioterapeuta dá as instruções e nós cá, a animadora, é que faz toda a parte de reforço, levanta e senta”.

Durante o primeiro mês após a queda, a equipa técnica começou a fazer transferências da cama para a cadeira e, numa consulta de ortopedia, o médico confirmou que ela estava a recuperar bem. Foi então que começou a fazer marcha lentamente e, de seguida, começou a fazer o percurso da cama para a sala. “Agora ela já começa a fazer atividades e às vezes apanha-nos distraídas e já se põe a pé sozinha, mas nós temos sempre algum receio”.

“A Rosinha, até ter esta queda, era praticamente autónoma, saía, passeava, decidia… Agora está numa fase ainda de recuperação e está mais debilitada. Pede para ir passear, já começa a fazer saídas, mas com alguns cuidados que temos de ter, porque ela se cansa muito depressa e com pessoas centenárias é preciso fazer tudo muito devagar”, explica Cristiana Sá.

A Rosinha é descrita por toda a equipa técnica que a acompanha como uma “pessoa muito alegre, de fácil trato e está sempre tudo bem para ela, é impossível não gostar dela”.

 

Rosinha no Centro Paroquial e Social de Moure © Mariana Gomes / Semanário V

 

Luciana Oliveira, animadora do Centro Paroquial e Social, contou ao Semanário V a rotina da utente mais velha do lar. “A Rosinha põe-se a pé de manhã, com a nossa ajuda, levámo-la para a sala, ela toma o pequeno-almoço e, dependendo dos dias, às vezes toma sozinha, outras vezes temos de dar. De manhã temos uma atividade que é a Terapia de Ocupação para a Realidade, onde pergunto sempre em que dia estamos, mês, ano, qual é o dia da semana, qual é a estação do ano e há dias que nos responde muito bem, outros dias diz que não sabe onde está, depende de como acordar”.

Nas atividades do Centro, durante o dia, a animadora explica que “ela tanto participa, como não participa”. Há pouco tempo começou a sair nas atividades e participou no desfile de Carnaval e no desfile inserido no programa “Namorar Portugal”.

Quando caiu e após os médicos dizerem que não haveria solução, “a Rosinha passou uma semana no hospital e começou a ficar muito fraquinha. Teve muita dificuldade em voltar a começar a comer, ficava sem forças e sem apetite. Nessas alturas não queria participar nas atividades e nós não insistíamos, mas com o tempo voltou a participar”, revelou Luciana.

A animadora considera que o caso da Rosinha foi quase milagroso, sendo a utente “um exemplo para os outros, toda a gente a conhece”.

Também Susana Correia, encarregada no Centro Paroquial e Social de Moure, adiantou que a equipa tem de se “sujeitar conforme as indicações que são dadas perante uma queda de uma utente. É evidente que uma queda de uma pessoa de 30 anos não é igual à queda de uma pessoa com 100, a reabilitação é diferente”. Perante este cenário, o incentivo da parte da equipa foi crucial, mas a força de vontade da Rosinha também teve um papel preponderante na sua recuperação. “Se ela dissesse ‘não, quero ficar aqui’, então é que acamava mesmo de vez, por isso também partiu da força de vontade dela”.

Nutrição de uma centenária

Toda a equipa que acompanha a Rosinha concorda que “a parte da alimentação é a mais complicada.

Cristiana pediu ao hospital para dar alta a Rosinha “o quanto antes”, porque os hospitais são locais onde é propicio apanhar vírus, pneumonias e bactérias. Quando voltou ao lar, um dos fatores cruciais da sua recuperação foi a nutrição, que ficou ao cuidado de Catarina Dias, a nutricionista do Centro, há cerca de 3 anos.

A sua função passa por intervir na parte nutricional dos idosos. Segundo Catarina, a Rosinha é um caso interessante, porque teve de ter uma atenção muito mais direcionada e especializada.

“O bom estado nutricional do idoso depende de muitos fatores”, começa por explicar a nutricionista. “Depende de fatores modificáveis e não modificáveis, como fatores ambientais e genéticos. O próprio processo de envelhecimento traz alguma dificuldade no diagnóstico da desnutrição”.

Estes são fatores que a equipa consegue ultrapassar, delineando uma terapêutica para a utente. “Em termos do ponto de vista nutricional, nestas situações delineamos um plano alimentar estruturado, porque no lar nós temos a parte da ementa definida para todos os idosos, no entanto, há casos em que tentamos fazer um plano individualizado”.

Em termos de recuperação, houve um apoio a nível de suplementação alimentar, tendo em conta o tipo de fratura que se trata. Nestas faixas etárias, além de existir uma dificuldade de ingestão, também há uma dificuldade de absorção dos nutrientes, explica Catarina.

“Além da nossa intervenção é muito importante os idosos terem esta adesão à terapêutica. A Rosinha é daquelas pessoas que é resistente, mas conseguimos dar a volta. Agora já come a sopa toda, mas nunca tem fome”, conta a nutricionista, revelando que muitas vezes lhe ligam a dizer que a Rosinha não está a comer.

Neste momento, a Rosinha está a fazer uma dieta hiperenergética, ou seja, “adaptamos um bocadinho a dieta geral para a Rosinha, nomeadamente a sopa dela tem carne incorporada, porque ela come alguma coisa no prato, come uma porção, mas não a que necessita”.

Catarina confessa que muitas vezes é preciso “obrigar, insistir, rezar, para que ela coma a fruta”, e muitas vezes não é conseguido. “O importante é termos refeições completas, fracionadas ao longo do dia, termos como base de orientação a roda dos alimentos e os alimentos serem diversificados nesse aspeto”.

A Dona Rosa “é muito doceira” e, apesar do pensamento comum de que o açúcar é prejudicial, em alguns casos, o “açúcar serve para atingir o valor energético necessário”.

“Como de tudo”, interveio a Rosinha, tendo a Catarina acrescentado que não é fundamentalista, gostando de se adaptar à realidade dos utentes e perceber os gostos deles.

“É obvio que temos uma ementa planeada, mas há festas de aniversário, há bolo, há um miminho do exterior, é validado pela equipa, mas não há nenhuma restrição, é importante que, efetivamente, haja uma ementa adaptada à faixa etária deles. Para mim faz todo o sentido haver uma liberdade em termos alimentares”.

É a combinação entre vários profissionais é que faz com que haja bons resultados na recuperação da Rosinha. A equipa técnica adapta-se aos utentes da mesma forma que os utentes se adaptam a eles. Existe uma ligação forte da equipa com a Rosinha e, “por isso é que é importante ter uma equipa multidisciplinar”, concluí Catarina Dias.

 

Semanário V entrevista Cristiana Sá e Catarina Dias © Fernando André Silva / Semanário V

 

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