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Vila Verde. “O fogo rouba-nos tudo”

Domingos Soldado © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Menos pasto para os animais, menos lenha para cozinhar e aquecer a casa. e muitas dores nas pernas. Este é o relato de Domingos Soldado, agricultor lesado pelos incêndios florestais que consumiram vários hectares nos giestais e floresta do Norte do concelho de Vila Verde.

Em reportagem durante os incêndios deste domingo, o Semanário V encontrou Domingos num caminho florestal, de enxada na mão, a tentar proteger as giestas que possui num terreno situado nos montes entre Valdreu e Gondomar, junto à zona da “Cruz”. Para muitos, estas giesta podem não ter utilidade, mas para Domingos, servem para melhorar as condições ao gado que possuí, como criar-lhes camas para se deitarem.

No entanto, Domingos, agora com 80 anos, não conseguiu salvar a propriedade, nem com a rápida intervenção dos bombeiros voluntários, da Força Especial de Bombeiros e até de um helicóptero com militares do GIPS da GNR, que combateram as chamas naquele local durante toda da manhã deste domingo.

FEB em Coucieiro © FAS / Semanário V

Meio terrestre do GIPS da GNR esteve em Coucieiro © FAS / Semanário V

“O fogo rouba-nos tudo”, desabafou o agricultora que já havia sido entrevistado há três semanas, a propósito da desertificação da freguesia de Gondomar, onde habita. “Tenho aqui pasto para os animais, mato para se deitarem e o tronco da giesta que dá uma boa lenha. Vai tudo ao ar”, desabafa. Domingos conta que já em 2015 o terreno que possui foi consumido pelas chamas. Suspeitas? “Não sei como começaram os incêndios mas é dar cabo de quem trabalha”, diz.

Na propriedade de Domingos, à semelhança de outras tantas nesta zona do Norte de Vila Verde, os montes são cobertos por giestas, pedras e tojo [mato com flores amarelas]. Para muitos, pode não ter utilidade, mas são estas plantas que ajudam os agricultores e os apicultores, dando o tojo alimento para as abelhas.

Domingos Soldado © FAS / Semanário V

Quanto a Domingos, cuja estrutura óssea “já não é como antigamente”, aproveitou a “boleia” da reportagem do Semanário V e foi para casa, não querendo assistir mais ao “inferno de Dante” que viveu no seu terreno.

Giestas secas funcionam como combustível nos incêndios

O Semanário V esteve no teatro de operações com o comandante operacional destes incêndios que mobilizaram mais de meia centena de bombeiros e outras equipas da Proteção Civil. Luís Morais, também responsável pelo comando dos Bombeiros Voluntários de Vila Verde, explicou ao Semanário V que este tipo de incêndio em giesta propaga com facilidade.

Incêndio em Estrumil © FAS / Semanário V

“O fogo vem rasteiro e arde tudo à volta da giesta. Apanhando partes secas dos ramos, o fogo ganha maior intensidade e pode atingir alturas consideráveis.

E o Semanário V testemunhou uma dessas ignições, registada em vídeo. O que parecia ser um foco de incêndio inofensivo, acabou por tomar proporções dantescas ao atingir a giesta seca. Vários minutos de “inferno” e tudo terminou como começou. Com fogo rasteiro e giesta queimada.

 

Incêndio em Estrumil © FAS / Semanário V

No combate estiveram ainda vários populares destas freguesias, com auxílio de máquinas agrícolas, evitando o pior. José Fernandes, a residir na rua Imaculada Conceição, no lugar de Estrumil, Oriz Santa Marinha, não ganhou para o susto, quando um dos incêndios florestais desta manhã quase lhe entrou pela casa dentro.

Ao Semanário V, o comerciante explica que a esposa acordou com um barulho, pouco depois das 5 horas da manhã, apercebendo tratar-se de um incêndio próximo à habitação.

Incêndio em Estrumil (c) FAS / Semanário V

“Quando espreitamos à janela, vimos as chamas já perto da habitação, e pegamos na mangueira para regar a proximidade da casa”, explica José Fernandes.

“As chamas só não encostaram porque temos a nossa parte limpa”, confessa, mas aponta dedos a madeireiros que “recentemente deitaram madeira abaixo e deixaram o entulho todo no terreno”. “Ardeu tudo”, lamenta.

As chamas chegaram também a ameaçar uma fábrica de fiação de algodão, em Coucieiro, como contou um dos responsáveis da empresa ao Semanário V.

Incêndio Coucieiro © Fernando André Silva / Semanário V

Este domingo Vila Verde registou os primeiros grandes incêndios do ano de 2019, nas freguesias de Oriz Santa Marinha, Passô, Valdreu e Coucieiro. Estiveram envolvidas corporações de bombeiros de Vila Verde, Braga, Amares, Póvoa de Lanhoso, Famalicão, Barcelinhos, Taipas e Vizela. Desconhecem-se ainda os números referentes à área ardida.

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Jornalista