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Família de Prado quer recolher assinaturas para manter apartamento em Braga

Barraco de Manuel Monteiro (c) FAS / Semanário V

Uma família de etnia cigana, natural de Vila Verde, montou um acampamento em espaço público no bairro das Enguardas, em Braga. A família ocupava ilegalmente um apartamento, tendo sido, por isso, despejada, segundo avançou Ricardo Rio, presidente da Câmara de Braga, durante a última reunião de executivo, esta segunda-feira.

Segundo alguns moradores, dão “má imagem” ao bairro e à cidade, “causando insegurança”. No local encontram-se três tendas e uma carrinha, sendo que a situação já se arrasta há cerca de um mês. Os queixosos afirmam que a polícia municipal já esteve no local, no entanto os ocupantes recusam-se a sair.

Em resposta aos moradores, o presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, afirma que já tinha conhecimento da situação, explicando que se trata de uma família natural de Vila Verde que foi despejada de um apartamento que ocupava ilegalmente.

Com a situação a tomar proporções maiores, outra família que também ocupava um apartamento há cerca de cinco anos e foi despejada, juntou-se em tendas, “porque pensam que, no âmbito do processo de requalificação do bairro, podem surgir oportunidades de habitação”, referiu o autarca, garantindo que pondera chamar a PSP se a situação chegar a um limite extremo.

Ricardo Rio disse que aquele acampamento “não vai permanecer no local”, uma vez que se trata de um espaço público e “o local para tendas é o campismo”. No entanto, adiantou, ainda, que o município “não tem resposta disponível” para o alojamento daquelas famílias, sendo que há pessoas em fila de espera para uma habitação social, existindo critérios para a atribuição de casas.

Segundo os moradores, já há registo de assaltos na zona das Enguardas depois da instalação do acampamento, algo que as famílias ciganas negam.

A situação deverá, assim, ser resolvida pela segurança social, podendo ser pedida a intervenção da PSP, caso o acampamento se mantenha.

“Nós não somos animais”

O Semanário V esteve no acampamento e falou com as duas famílias que lá se instalaram. Manuel Monteiro, natural da Vila de Prado, refuta as queixas dos moradores em relação a assaltos e a moscas, garantindo que tem limpo o jardim “ainda mais do que estava antes”.

Interior do barraco de Manuel Monteiro (c) FAS / Semanário V

Explica que habitava um apartamento há cinco anos que estava “desabitado” e que era utilizado “como depósito de lixo”. “A minha família morava num carro e disseram-nos que havia aqui um apartamento há vários anos desocupado, então viemos para cá. Limpámos o lixo do apartamento, colocamos portas e janelas e vivemos ali durante os últimos cinco anos, mas agora puseram-nos para fora”, diz Manuel Monteiro.

O homem refere já ter falado com a Braga Habit e com Ricardo Rio, mas foi-lhe dito que há uma enorme lista de espera para ceder as habitações. “Disseram que há gente há muitos anos à espera mas esses têm onde viver, na casa de familiares. Têm um tecto. Neste momento não temos tecto, e acho que somos uma prioridade”, diz Manuel Monteiro.

Explica ainda que a polícia já foi ao local, mas nega terem existido ameaças aos agentes. “Não concordo com o que está nos jornais. Dizem que está tudo a ser assaltado por nós, isso é mentira, aqui os moradores já nos conhecem e sabem que somos gente de trabalho. Dizem que ameaçamos a polícia mas isso também é mentira, porque se tivesse ameaçado um polícia vinham logo 40 para me levarem, não acha”, questiona.

Barraco de Manuel Monteiro (c) FAS / Semanário V

Manuel Monteiro refere ainda que está a sobreviver graças à ajuda dos restantes moradores do Bairro das Enguardas. “Os moradores é que me dão água e um fio de luz para poder comer à noite. Tenho a minha neta num colégio, longe de mim, porque não a posso ter aqui. Estamos num estado deplorável em que podiam ajudar-nos”, diz.

“Onde morava está a ter obras a mando da Braga Habit e então agora temos de esperar pelas obras, estamos aqui fora, já veio cá a polícia, nunca houve ameaças com ninguém. Dizem que incomodamos aquelas casas, mas isso é mentira. Eu ando a recolher lixo cá fora e neste momento isto está limpo”, assegura.

Moradores preparam lista de assinaturas para que a família Monteiro regresse à habitação

Monteiro diz ainda que há vários moradores do bairro que preparam uma recolha de assinaturas para entregar na Câmara de Braga de forma a que possam ficar na habitação.

“Estamos a ser ajudados pelos outros e eles querem que fiquemos cá. A minha ideia foi sempre negociar com a proprietária da habitação, que é de Valongo, mas ela nunca nos quis ouvir. Agora vendeu a casa à Braga Habit e fomos expulsos. “Nós não queremos estar aqui de graça, queremos pagar água, luz e a renda. Todos os moradores gostam de nós porque somos pessoas pacatas e trabalhadoras”, explica o feirante.

Monteiro deixa ainda um apelo à vizinhança, já fora do bairro e que apresentou as denúncias, que “não digam tudo o que lhes apetece”. “Dizer que as casas deles estão cheios de moscas e cheiros por nossa causa é uma grande mentira”, acusa.

“Se algum dos moradores deste bairro acha que não devo estar aqui, podem ir à Braga Habit pedir para eu me ir embora, Mas antes disso peço que venham falar comigo”, salienta.

“Não somos de Viana, sempre vivi em Maximinos”

Rosa Camacho viveu há um mês situação idêntica, depois de ter sido despejada de um apartamento que ocupava de forma ilegal. Segundo a ex-moradora, residia lá há cinco anos. “Dizem nos jornais que somos de Viana mas toda a gente sabe que sou de Maximinos, sempre vivi em Maximinos e estou há 25 anos à espera de uma casa da Câmara mas nunca nos ajudaram. Nós por sermos ciganos temos de ser tratados como animais? Ajudam outras pessoas sem possibilidades e nós não podemos ser ajudados?”, questiona Rosa Camacho.

Sobre a ocupação ilegal da habitação, refere que havia “uma casa de uma cunhada que morava lá e saiu. A casa estava vazia e os meus primos disseram para ocupar. Mandaram-me sair da casa há cerca de um mês, e estava lá há cinco anos, agora tenho este barraco. Onde vou dormir? Chuva e vento? Tenho de ficar aqui nesta barraca que montamos”, atira.

Rosa pede à Câmara “uma casa para dormir”. “Não somos animais. Para me tirar para fora davam-me uma casa para dormir”, vinca.

A mulher garante ser “daqui de Braga”. “Nasci em Maximnos, criei-me em Maximinos, toda a gente sabe que sou de Braga. Deram-me um barraco em S. Gregório e sai dali porque não tinha casa de banho. Então vim para aqui, ao fim de cinco anos tiraram-me como se fossemos animais”, desabafa.

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Mariana Gomes

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Jornalista

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Fernando André Silva

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