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Vila Verde. José Vieira quer subir passeios mas faltam rampas de acesso

Carros mal estacionados são obstáculos em Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

José Vieira, 72 anos, residente da Rua Francisco Sá Carneiro, junto à estrada que liga o centro de Vila Verde até à praia da Ponte Nova, na Loureira. Poderia ser um entre muitos moradores das ruas que habitam à face desta estrada, mas não é. Um rebentamento de uma mina explosiva em Moçambique, nos anos 70, retirou-lhe a mobilidade nas duas pernas. Desde então, desloca-se em cadeira de rodas. E deixa o apelo para que olhem mais para quem tem a mobilidade reduzida em Vila Verde, apelando que haja outro investimento para além da ciclovia e as passadeiras sobrelevadas criadas. Pede ainda mais civismo apontando estacionamento de carros nas bermas das vias secundárias de Vila Verde.

José Vieira encontra vários obstáculos em Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V

Acompanhámos José no seu percurso em cadeira de rodas entre o centro e a sua habitação, mas os percalços são muitos, e começam logo nos “finais” dos passeios, com a maioria a não ter qualquer rampa de acesso a cadeira de rodas. O primeiro obstáculo para José começa ainda na Av. Marechal Humberto Delgado, junto ao posto de correios. Nem existe uma rampa para subir o passeio antes do centro de saúde, nem existe rampa para descer no final do passeio. A José não resta alternativa à estrada, por onde segue o próximo quilómetro.

Não há rampa de acesso junto ao centro de saúde © Luís Ribeiro / Semanário V

“Gostava que fizessem umas rampas nos topos dos passeios, porque assim sentia-me mais seguro”, confessa. O herói de guerra segue pela via rodoviária durante todo o percurso até à rotunda que dá acesso ao complexo de lazer e às escolas. No entanto, volta a registar o mesmo problema. Falta de subida nos passeios. Num, até existe rampa, que dá depois acesso à nova passadeira sobreelevada da ciclovia, no entanto, não consegue passar com cadeira por existir um sinal, o mesmo que indica que ali existe uma passadeira, que o impede de circular no passeio.

Há vários passeios sem rampa de acesso © Luís Ribeiro / Semanário V

Para passar na rotunda, tem que fazer como uma viatura, e circundar, sempre à mercê de algum automobilista com bom senso, vindo do lado das escolas, que o deixe passar. No entanto, tem de ficar atento aos carros que se deslocam da zona do complexo de lazer, que nem sempre circulam em baixas velocidades. Apesar das dificuldades, José Vieira revela que nunca sofreu nenhum susto. “Eu paro e espero que os carros me deixem passar”, explica.

José Vieira tem de circundar rotunda pela estrada © Luís Ribeiro / Semanário V

De seguida, novo obstáculo. Entrando na “sua rua”, que até tem nome de um antigo primeiro-ministro que lutava por este tipo de direitos, não tem qualquer passeio de um lado e o passeio do outro não tem rampas de acesso nos topos. As únicas rampas que existem são das garagens das habitações e são demasiado íngremes, provocando um desgaste maior que José prefere evitar. “Para além disso o passeio está torto em grande parte do percurso e sou obrigado a segurar uma roda com uma mão enquanto puxo com a outra, para não cair à estrada”, aponta.

José Vieira encontra vários obstáculos em Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V

José Vieira acaba por seguir do lado “errado” da estrada, contra a mão, por não lhe restar alternativa. E encontra ainda vários obstáculos pelo caminho, nomeadamente os carros estacionados na berma que o obrigam a circular quase no meio da estrada. “Não há muito que eu possa fazer, tenho de me ajeitar com o que há para andar”, desabafa.

Carros mal estacionados são obstáculos em Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V

À reportagem do Semanário V, que o acompanhou, deixa o pedido para que, à semelhança do que aconteceu no centro da vila, onde, após um alerta, os responsáveis pelos novos passeios tiveram de os desfazer em alguns pontos e voltar a construir com melhores acessos, que olhem para esta estrada que liga o centro à Loureira, e que, de alguma forma, consigam criar condições para quem tem a mobilidade reduzida.

Estradas continuam a apresentar dificuldades para utentes © Luís Ribeiro / Semanário V

José Vieira podia ficar em casa, seria mais seguro. Mas não quer. “Também quero ir dar a minha volta, ir até ao centro, mas assim fica cada vez mais difícil”, diz. Explica que outros que também utilizam a cadeira de rodas têm evitado cada vez mais o centro da vila por não existir acessos nos caminhos que os levam até lá. “No centro da vila, agora, está tudo muito bem. Mas o problema é criar acessos nos caminhos que lá vão ter, como o meu”, diz.

Acompanhámos José no seu percurso em cadeira de rodas entre o centro e a sua habitação, mas os percalços são muitos, e começam logo nos “finais” dos passeios, com a maioria a não ter qualquer rampa de acesso a cadeira de rodas © Luís Ribeiro / Semanário V

O reformado de guerra aponta ainda que a ciclovia poderia ser uma boa solução mas diz não se atrever a utilizar. “Aquilo é para bicicletas, se vou pelo passeio da ciclovia e vem bicicletas, tenho de me desviar e não consigo descer os passeios”, lamenta. Em Vila Verde existem dezenas de pessoas que se deslocam em cadeira de rodas e outras tantas que transportam carrinhos de bebé. Nenhum deles reúne condições para fazer o percurso entre o centro da vila e a Ponte Nova em segurança.

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Jornalista