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1.º Masterclass da Dor do Minho. “Há um uso e abuso de anti-inflamatórios em Portugal”

Dr. José Romão durante 1.º Masterclass da Dor do Minho © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

“Há um uso e abuso de anti-inflamatórios em Portugal”. A afirmação foi feita esta tarde em Braga pelo médico especialista em Anestesiologia e coordenador da Unidade de Dor Crónica do Centro Hospitalar do Porto.

José Romão respondia assim à questão da plateia durante a primeira edição do Masterclass da Dor do Minho, evento inovador que decorreu este sábado em Braga, perante mais de uma centena de médicos internos e especialistas em Medicina Geral e Familiar na região do Minho.

1.º Masterclass da Dor do Minho © Luís Gonçalves / Foto Felicidade

Na sequência de uma questão que abordava o tratamento da dor com anti-inflamatórios e quais os substitutos aconselhados pela Unidade de Dor Crónica do CHP, José Romão apontou a “leviandade” com que se trata o consumo de anti-inflamatórios em Portugal, dizendo mesmo que há um abuso por parte dos utentes no consumo deste tipo de medicamento habitualmente utilizado para reduzir as dores musculares, e salientou que a grande alternativa aos fármacos é a educação para a saúde.

“[Os doentes] fazem Diclofenac e Brufen de oito em oito, ou de doze em doze porque há fácil acesso a este tipo de medicamento, vendem-se no Pingo Doce e no Continente”, apontou José Romão, dizendo que o consumo deste medicamento dá, por vezes, “uma falsa sensação de segurança”.

“[Os doentes] sentem-se seguros e não percebem que há uma falta de respeito pelos anti-inflamatórios”, acrescentou.

1.º Masterclass da Dor do Minho © Luís Gonçalves / Foto Felicidade

Respondendo ainda à plateia composta por mais de uma centena de médicos, confessou que, ao médico de família, não resta grande alternativa em relação a estes medicamentos, indicando que deve-se apostar mais na “educação para a saúde” do utente.

“Não resta muita coisa como alternativa. Os opióides, um relaxante muscular, e estamos conversados. Isto em termos de fármacos. E a verdade é que os opióides quando consumidos de forma frequente acabam por ajudar pouco os doentes e muitas vezes têm uma carga de efeitos colaterais desagradável”, salientou.

1.º Masterclass da Dor do Minho © FAS / Semanário V

“Não temos comprimido mágico”

Quando não há muito a fazer em relação à dor crónica, José Romão lembra que os médicos não têm “um comprimido mágico” para aliviar as dores do utente. “Há da parte da nossa relacão com o doente uma ideia paternalista do género de nos pedirem colinho e que não os ponham a fazer nada que canse”, disse José Romão, vincando que “Nenhum doente chega doente e sai curado com comprimidos mágicos”. “O que há a fazer é um trabalho de sapa”, esclareceu, dirigindo-se aos vários médicos. “Vocês podem intervir com educação para a saúde. Não há outra maneira de fazer isto”. José Romão aconselha “modificar atos de vida, controlar o peso, mexer-se, fazer fisioterapia, mas ter uma vida normal e essa vida normal é mexer-se. Os fármacos dão uma ajuda, mas com tratamentos prolongados com anti-inflamatórios não, nem para idosos, nem crianças nem jovens”, vincou.

O médico especialista referiu ainda que um dos objetivos em que deve ser gasto algum tempo é em “trabalhar as expetativas dos doentes desde a primeira consulta”. “Não pode pensar que agora que está na consulta da dor vai ficar maravilhoso, como novo. Isso não vai acontecer. Dificilmente conseguimos que a dor crónica seja eliminada por completo. Diminuímos, ajudamos, mas não curamos. Trabalhar as expetativas é algo a que dedicamos bastante tempo”, explica.

1.º Masterclass da dor do Minho com mais de 200 médicos e enfermeiros

A primeira edição deste evento foi um sucesso absoluto nas palavras da organização, com os profissionais de saúde participantes a levarem para o seu dia-a-dia profissional várias ideias e sugestões trocadas por especialistas no que diz respeito ao tratamento e atenuante da dor nos doentes.

Dr. Raul Pereira 1.º Masterclass da Dor do Minho © Luís Gonçalves / Foto Felicidade

Com a temática da dor em destaque, este evento, segundo nos explicou o doutor Raul Pereira, consultor científico da Masterclass da Dor do Minho, e criador da primeira “consulta da dor” em Portugal, pretende colmatar algumas lacunas sobre a temática da dor por entre os profissionais.

Sobre o número elevado de participantes, que lotam durante este sábado o auditório do hotel em Braga, enquanto Raul Pereira fala de uma formação global em dor, fisiopatologia, avaliação e terapêutica farmacológica, confessa ao Semanário V estar “muito contente” por tanta gente interessada nesta temática.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista