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“O meu coração chorou”. Vila Verde unida por Moçambique

Henrique, Lucília e Maria do Carmo © Luís Ribeiro / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

O ciclone Idai, que provocou mais de 500 mortes e milhares de desalojados, chegou na noite de 14 de março a Moçambique. A Portugal as notícias chegaram de forma avassaladora e o Semanário V falou com três habitantes de Moçambique em Vila Verde.

Maria do Carmo Cabral é natural de Moçambique. Cresceu em Quelimane, mas esteve em Maputo, em Tete, onde trabalhou, bem como em Cahora Bassa. Quando esteve em Tete, visitou muitas vezes a Beira, “uma cidade maravilhosa, era a segunda maior cidade do país”. Maria do Carmo veio para Portugal como refugiada, após o 25 de abril. “Vim com os meus filhos e com os meus pais. Primeiro fui para o Porto e do Porto vim para aqui”. Fez precisamente 44 anos, ontem, dia 2 de abril desde o seu regresso a Portugal.

 

Maria do Carmo Cabral © Luís Ribeiro / Semanário V

 

Tal como Maria do Carmo, Lucília Rodrigues, natural de Lisboa, também fez a viagem de regresso de Moçambique, onde viveu cerca de 5 anos, após o 25 de abril. Mudou-se para Vila Verde há 26 anos e confessa que não volta para a capital, porque “Vila Verde é calma, tranquila e faz lembrar Moçambique”. Em Moçambique viveu na Beira, o território que mais sofreu com o ciclone.

 

Lucília Luz © Luís Ribeiro / Semanário V

 

Também Henrique Ferreira emigrou para Moçambique em 1960. Natural de Vila Nova de Foz Côa, tem casa em Vila Verde, onde admite passar a maioria do seu tempo.

 

Henrique Ferreira © Luís Ribeiro / Semanário V

 

No dia 14 de março, Moçambique viveu uma das piores tempestades de sempre, deixando milhares de desalojados e em situação desesperada, numa luta para sobreviver. No dia 2 de abril, o número de mortos subiu para 598 e o número de feridos mantém-se nos 1.641.

Emocionada, Maria do Carmo relembra Moçambique e a tragédia provocada pelo ciclone Idai no início de março, nas terras onde cresceu e viveu durante longos anos. “Eu tenho fotografias… nem gosto de ver as imagens, mexe muito comigo, ver aquela miséria”.

Ver a tragédia de longe “foi horrível”. Não há palavras para descrever o sentimento “ao ver as imagens que passam no telejornal, a vida das pessoas com fome, com frio…”, confessa. Maria do Carmo tem amigos em Maputo que lhe enviam notícias da situação da terra onde viveu.

“Os meus amigos estão em Maputo, na Beira não tenho ninguém, mas tenho uma pessoa amiga que tem lá um irmão e aqui há dias contou-me que ele ficou isolado, um senhor de 70 anos, a mulher, o filho e os netos tiveram que sair, conseguiram sair e apanhar o avião para vir para Maputo. Estavam completamente isolados, não tinham comida, água, luz…”.

Atualmente há inúmeras campanhas de ajuda humanitária para Moçambique e Maria do Carmo ajudou com roupa, “através de uma senhora que organizou uma campanha”. No entanto, já chegaram notícias de camiões que foram desviados “para roubar os mantimentos que vão para Moçambique”. Esta situação preocupa Maria do Carmo que afirma que “más pessoas são capazes de viver com a desgraça dos outros”.

 

Henrique, Lucília e Maria do Carmo © Luís Ribeiro / Semanário V

 

Também Lucília Luz Rodrigues ajudou Moçambique com chamadas telefónicas, “a única forma que tinha para ajudar”.

Após o 25 de abril deixou Moçambique, mas confessa que “foi um grande desgosto voltar, pedi tudo, deixei lá ficar tudo e deixei lá ficar o meu coração”.

A cada dia, o número de mortos foi aumentando. A localidade mais afetada pelo ciclone foi a Beira, uma cidade com 500.000 habitantes, onde Lucília morou.

“Fui para a Beira, uma cidade linda, plana, o oceano mesmo ali à beirinha, tranquila… era um viver completamente diferente. Depois fui para o Brasil. Se me dissessem assim: ‘Vais para um hotel de 5 estrelas no Rio de Janeiro um mês ou uma semana para o hotel mais rasca da Beira’, eu voltava para a Beira e não voltava para o Brasil”, admite Lucília, assegurando que “mesmo da forma como está agora a Beira, eu voltava”.

A recordar os tempos que passou naquele país, Lucília conta que “a cidade era pequena, dava-se a volta em meia hora, devagarinho. Enchia o carro de crianças, íamos ao aeroporto, ao jardim zoológico e estávamos em casa outra vez. A gente vinha até ao centro da cidade, tínhamos tudo, tinha uma papelaria onde comprava os livros do Tim Tim para o meu filho, uma pastelaria maravilhosa… Vila Verde lembra-me muito a Beira, pela tranquilidade que vivemos aqui, por isso é que digo que não volto para Lisboa por nada”.

O local onde a desgraça se alastrou foi em tempos um local sossegado. “O oceano era uma paz, a areia parecia ceda e saltavam caranguejos pequeninos. Era uma vida completamente diferente”.

Lucília confessa que se não fosse o 25 de abril, não deixava a Beira, “pelo clima, pela maneira como se vivia, pela maneira calma e tranquila, pelas pessoas, sempre fui muito bem tratada pelos africanos”.

Tal como Maria do Carmo, Lucília também sofreu ao ver a tragédia da cidade onde morou.

O meu coração chorou. É muito triste”.

Lucília insiste em agradecer a duas administradoras de grupos no Facebook, “a Salete e a Stella, que têm enviado informações importantes”.  “Mandaram-me fotografias da catedral da Beira onde o meu filho fez a primeira comunhão e a comunhão solene que me deixaram completamente arrasada. Mostraram-me imagens da rua onde morava e eu fiquei devastada, ficou tudo arrasado. Até ao momento foram elas as duas que nos deram mais informações”.

Henrique Ferreira conta que no momento em que as notícias chegaram relembrou a vida em Moçambique, “são recordações que não se esquecem, pormenores na vida que surgiram e estamos cá a ver de longe”.

“Em Moçambique os negros eram tratados como os brancos. Nós estávamos num sítio maravilhoso, nunca eu vi problemas entre as pessoas”, recorda. “Fiquei impressionado com aquela parte da Beira que ficou completamente alagada. Eu fui lá apanhar o avião e fiquei surpreendido da forma como aqui está. É horrível, não há palavras para descrever o que sentimos ao ver o que passa na televisão”.

Voltar a Moçambique é um sonho difícil de realizar. Apesar da vontade de voltar a reviver as ruas e os locais onde moraram e cresceram, há também um forte sentimento de desgosto. “Gostava muito de voltar, mas não tenho esperança. E eu sei que ia apanhar o maior desgosto da minha vida ao ver como aquilo está agora”, admite Lucília.

Maria do Carmo afirma que, se ganhasse o euromilhões, a primeira coisa que fazia era ir a Moçambique. “Adorava voltar, mas já não tenho esperanças nisso. Primeiro as viagens são caríssimas, mas adorava ver os sítios por onde andei”.

Fotos: Luís Ribeiro

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Jornalista