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Burras da Semana Santa já limpam 10 hectares de mato em Vila Verde

Ferraz e as burras em Escariz S. Mamede, Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Nove hectares de terreno florestal e um hectare de terreno agrícola é onde as seis “burras” do produtor Francisco Ferraz passam os dias, enquanto aguardam o momento em que participam na procissão da Burrinha, durante as celebrações da Semana Santa, em Braga.

Com os terrenos localizados em Escariz São Mamede, concelho de Vila Verde, as quatro burras e dois burros, todos com certificado original de mirandeses, tomam conta das “silvas” e de toda a vegetação agreste que possa nascer. E para eles é quase uma sobremesa.

Francisco Ferraz explica ao Semanário V que qualquer silva que nasça em ambas as propriedades são arrancadas à nascença. “Elas picam tudo, não nasce ponta de mato, nem sequer ali no monte, onde tenho nove hectares para elas andarem à vontade”, conta.

O produtor tem apenas seis burros, quatro fêmeas e dois machos, um dos quais ainda com um ano, mas chegam para manter as propriedades limpas e para entretenimento do também vendedor de antiguidades e artigos de colecionismo.

Ferraz e as burras em Escariz S. Mamede, Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V

Burras sapadoras

Cabras sapadoras? Também há burros sapadores, como clarifica Ferraz: “Podem limpar e limpam bem uma propriedade. Aqui neste terreno [agrícola] não nascem silvas, elas vão picando conforme elas nascem. Tenho nove hectares no monte e lá também não há silvas. Até o mato elas comem, São muito boas para limpar mato”, reforça, vincando a recomendação a outros proprietários de terrenos que têm dificuldade com as limpezas.

“Recomendo a todos que tenham um terreno, nem que seja apenas um burro, garanto que deixam tudo limpinho”, vinca o escarizense.

Ferraz explica que vai mudando as burras de pastagem, embora as prefira no terreno agrícola, por ser de mais fácil acesso. “Eu vou mudando, umas alturas ficam no monte, quando tenho de lavrar isto ou quando vejo que devo fazer uma nova sementeira”, explica, confidenciando que no monte já não há tanto pasto por existirem eucaliptos. E as burras não comem eucalipto. “Às vezes podem bicar uns rebentos mas regra geral não comem”, salienta.

Francisco Ferraz pasta burras no monte (c) FAS / Semanário V

Para além do que a terra dá, Ferraz não precisa de comprar pão de ló. “Estes comem ração diariamente, depois dou-lhes fardos de palha e andam na pastagem. Se lhe der batatas e frutas eles também comem. Eles comem de tudo, só nunca me comeram o chapéu”, goza o produtor.

Quando as burras fogem

Por vezes, Ferraz é chamado por vizinhos da propriedade porque uma das burras fugiu. “Eu tenho isto vedado mas às vezes algumas fogem e tenho de as apanhar”, salienta, indicando que “é fácil apanhá-las porque são meigas, basta chamar que elas voltam”.

Ferraz garante que, mesmo em perseguição, nunca levou “nenhum coice de nenhuma”. “Já tive cavalos e entendo que os burros conhecem melhor o patrão e são mais meigos. É quase como um cão conhece o dono e o burro conhece o patrão. Se vier uma pessoa estranha dar-lhes a ração elas estranham. Se eu passar na estrada dentro do carro, elas já conhecem o carro e vêm ter comigo”, explica.

Ferraz e as burras em Escariz S. Mamede, Vila Verde © Luís Ribeiro / Semanário V

Obrigado a vender as crias

A mando da Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), Ferraz é forçado a vender as crias, especialmente os machos, para não existir risco de consanguinidade. “Este ano vendi três machos muito baratos, porque não os posso ter. Vendi a pessoas que têm terreno e querem um burro para limpar”, diz. Cada burro macho pode ser vendido a 400 euros, como nos conta Ferraz. Já uma fêmea pode chegar aos 750 euros. “Agora vende-se mais barato do que isso. Complicou-se muito desde que é exigida a documentação. Para comprar um burro, é necessário ter uma exploração agrícola adequada e isso tem complicado as vendas”, revela.

Meiguinha e a cria © Luís Ribeiro / Semanário V

Criador há 19 anos

José Ferraz comprou a primeira burra [Lili] na altura da Páscoa, há precisamente 25 anos, e há 19 que faz criação. Quando trabalhou em França, onde serviu à mesa o general Charles De Gaulle, nunca imaginou virar criador de burros. “Fui-me habituando. Comprei o primeiro burro por brincadeira. Tive uns cavalos, depois passei a ter burros e assim fiquei. Começou tudo por brincadeira”, conta, revelando que não pretende ter mais de seis burros. “Não quero aumentar o número , assim está bom, que ainda dão alguma despesa. Colho palha que eu tenho terrenos mas tenho de comprar farelo, milho, para ir alternando a alimentação”, explica.

Ferraz e “Pombinha” © Luís Ribeiro / Semanário V

Procissão da burrinha

Francisco Ferraz é quem fornece a principal figurante para a procissão da Burrinha [Vós sereis meu povo], que decorre habitualmente em São Victor, durante a Semana Santa de Braga. “Há mais de 10 anos que ponho lá os burros e faço com todo o gosto, porque gosto da procissão e a minha mulher também, e é por isso que até vamos ver sempre”, diz. Este ano, “Pombinha” irá repetir o estrelato do ano passado. “Eu não vou ao lado dela, esse é outro senhor. Eu fico ao pé da igreja porque é uma volta muito grande a pé. Sempre que vão as minhas burras, lá vou eu também”, garante.

Pombinha já foi a estrela da Procissão da Burrinha em 2018 © DR

Diz ainda que “enquanto puder, há burra para a procissão”. “Se eu tiver alguma coisa que não possa criar mais burras, vou oferecer uma burra ao senhor que a leva na procissão, assim que ele tiver um terreno para a manter em Braga”, assegura.

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Fernando André Silva

Jornalista