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Nasceu no Minho marca que transforma lixo das praias em calçado

Zouri © Mariana Gomes / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

Chama-se Zouri a marca de calçado que utiliza lixo do oceano para fazer ténis e sandálias. A ideia, que surgiu em 2017, é concretizada em Guimarães e o calçado é 100% produzido em Portugal.

No calçado Zouri não entra qualquer tipo de produto animal, devido às preocupações éticas e ambientais de Adriana Mano, criadora da marca.

A ideia surgiu do sonho de limpar o oceano e da paixão pelo mar e ambiente. Adriana já trabalhava na área do calçado quando decidiu implementar o projeto que recorre a matérias-primas naturais, desde a cortiça à borracha, incluindo materiais feitos de folhas de ananás.

Com recurso ao crowdfunding, Adriana lançou o calçado sustentável que surge, então, do plástico recolhido nas praias.

 

Zouri © Mariana Gomes / Semanário V

 

O projeto nasceu com a ajuda de um sócio, que entretanto se afastou, numa das idas à praia de Esposende. Com a preocupação ambiental em mente, começaram a pensar em formas de ajudar a remover o plástico das praias e, culminando a sua profissão com a sua paixão, surgiu a ideia de produzir calçado.

“Quando começamos a estudar o caso percebemos que o lixo das limpezas da praia ia parar ao aterro, não há reciclagem nem nada. Ficámos com mais vontade ainda de intervir”, admitiu Adriana.

A jornada não foi fácil. Adriana conta que um dos primeiros passos foi conversar com a Universidade do Minho, de forma a conseguir credibilizar o projeto e, posteriormente, convencer Câmaras a entrar na parceria. “Ficámos desiludidos, porque eles disseram que não fazem nada sem investimento”.

Em outubro de 2017, concorreram com o projeto num concurso de ideias para a reutilização de resíduos. Após ganharem o prémio, começaram a surgir algumas dificuldades práticas ao longo do projeto, como encontrar uma forma de incorporar o plástico no calçado. Adriana conta que o plástico é triturado e são, então, feitas as solas numa fábrica parceira, em Felgueiras.

Depois encontraram um parceiro para produzir os sapatos com as condições de sustentabilidade pretendidas, que se situa em Guimarães. Foi preciso, também, arranjar um parceiro para limpar e triturar o plástico, que fica em Famalicão. A Câmara de Esposende é, também, parceira da marca Zouri, a nível das recolhas do plástico e, está agora a começar a trabalhar com a Câmara de Viana, onde será feita, brevemente, uma limpeza experimental. “É, claramente, um projeto local”.

“Não tivemos qualquer apoio, foi tudo investimento nosso, até agora, e ninguém vive da Zouri”, confessa Adriana.

As primeiras sandálias produzidas recorreram a uma oficina de artesão. “Foi uma coisa ainda mais inocente e sonhadora. Foram vários meses, depois de já ter a sola, foi um processo muito demoroso, porque queríamos usar apenas materiais sustentáveis e tínhamos uma oficina com poucos recursos”, explica Adriana, acrescentando que “como a oficina tinha muitas poucas pessoas, o projeto ficou bloqueado, devido à procura. Em agosto tivémos a loja online fechada, porque ainda estávamos a produzir o que tínhamos vendido em julho”.

Trabalhar com artesãos foi uma experiência enriquecedora, mas Adriana admite que “eles não tinham felicidade nenhuma nesse registo, nem nós estávamos a conseguir dar resposta aos pedidos”.

Depois do verão, em 2018, a Zouri arranjou um parceiro em Guimarães, uma fábrica com 30 pessoas, “que dá muitas mais garantias e cria um impacto social maior”.

O calçado incorpora cerca de 30% de plástico para 70% de borracha natual, o que equivale a seis garrafas de plástico de água, por cada par de ténis ou sandálias. “Escolhemos a borracha natural porque é o material mais sustentável para fazer solas e tem um impacto ambiental menor”. O resto do calçado é feito à base da folha do ananás, que é muito resistente. “Esta invenção surgiu na procura de um material substituto à pele”, explica a responsável.

“Há aqui um compromisso com materiais sustentáveis, com uma tentativa de incorporar apenas materiais naturais”.

 

Zouri © Mariana Gomes / Semanário V

 

Os fundadores recorreram ao crowdfunding para fazer vingar a marca que assenta na preservação do planeta e na sustentabilidade. O calçado é vegan, porque não utiliza materiais de origem animal e é sustentável, porque usa materiais como o algodão e o plástico recolhido das praias como matéria-prima.

O lixo utilizado é recolhido essencialmente nas praias em Esposende. Adriana admite que vai continuar a apostar neste projeto, cujo desafio maior é responder às solicitações que vai recebendo.

O objetivo é atingir um público que está sensibilizado para as questões ambientais e, principalmente, um público vegan, uma vez que “não há uma oferta muito grande de calçado vegan com design apelativo”.

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Jornalista