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Entrevista. Líder do CDSXXI quer que Telmo Correia abdique de concorrer por Braga

Pedro Borges Lemos em Braga / DR
Fernando André Silva

Pedro Borges Lemos, advogado e militante do CDS-PP, é o rosto de uma corrente de opinião daquele partido que diverge da direção liderada por Assunção Cristas. Ao Semanário V, o comentador e colunista de vários órgãos de comunicação social explica as divergências e lamenta que, para o distrito de Braga, tenha sido indicado um lisboeta como candidato a deputado à Assembleia da República.

 

Pedro Borges Lemos em Braga / DR

“Eu considero que Braga é um exemplo para o resto do país no sentido em que as pessoas são muito genuínas e com capacidade de entrega. São conservadoras, e portanto, identificam-se com o CDS XXI”

Quem é Pedro Borges Lemos e o movimento CDS XXI?

Sou advogado e militante do CDS-PP. Sou também colunista do Semanário Económico, já fui colunista do Público, comentador residente na Económico TV durante dois anos e sou presença regular na SIC Notícias e na TV Record. Quanto ao CDS XXI, trata-se de uma corrente de opinião moderna que respeita os valores fundacionais do CDS enquanto partido democrata cristão. Defende a credibilidade e transparência na política e pugna pela proximidade entre os dirigentes e os eleitores. Queremos dar voz e relevância às bases do partido, em especial à juventude e aos trabalhadores democratas-cristãos. No fundo aposta na promoção de uma cidadania ativa e informada, com participação politica de independentes, privilegiando a elevação ética, o mérito cívico e profissional. Defendemos ainda uma ideologia atualizada com os valores democratas e cristãos, inspirada no pensamento social e universal do Papa Francisco.

Porquê criar esta “corrente” que diverge da direção do partido?

Há um problema de transparência na política. É essencial cada vez mais ação política direcionada no sentido de uma reforma do sistema politico. Mas uma verdadeira reforma, onde seja possível acabar com populismos, oligarquias e corrupção. Sem esta reforma continuaremos a estimular abstencionismo nas urnas e nos processos democráticos. É essencial que haja cada vez mais uma transparência naquilo que é a acão política e também o combate feroz àquilo que neste momento cria a oligarquia e nepotismo.

Fala de “cunhas” e “compadrios”?

Verificamos que as pessoas são deslocadas para determinados cargos não em função do mérito, não em função da competência, mas em função de interesses e conveniências. É cada vez mais necessário na politica portuguesa operar uma verdadeira reforma que realmente combata de uma forma eficaz a questão da corrupção e promiscuidade entre publico e privado, e as suas incompatibilidades, e que privilegie a méritocracia em detrimento daquilo que são os ditos compadrios e lóbis dentro dos partidos e da politica em geral.

Pedro Borges Lemos em Braga / DR

Sente-se apoiado pelos militantes do CDS-PP de Braga?

Tivemos um almoço simpático que o CDS XXI teve em Braga e que aí teve oportunidade de dar a conhecer aos bracarenses as suas ideias e linhas de ação na politica, não so para o partido, mas também para o país. Fomos muito bem acolhidos por várias dezenas de militantes, entre vários dirigentes de concelhias do distrito de Braga onde, como digo, tivemos oportunidade de expor as nossas ideias e de apontar caminhos que considerámos ser a direção que o partido deve ter no futuro.

Como vê a cidade de Braga no panorama nacional?

No fundo Braga é a cidade mais antiga do país e neste momento o segundo maior destino emergente da Europa em termos de férias, e devemos obviamente cada vez mais olhar para Braga como um destino diferenciado, não só em Portugal como também na Europa.

Mas Assunção Cristas não olhou para Braga ao escolher os deputados para a AR…

Nesse sentido a direção do CDS deveria olhar para Braga com outra lente. Deveria olhar para Braga como um distrito riquíssimo sobre ponto de vista de património, religioso, desportivo, a nivel etnográfico, gastronómico… É um distrito riquissimo que tem tido ao longo do tempo, relativamente ao CDS, digníssimos representantes.

Quem?

Ocorrem-me agora três nomes: Nogueira de Brito, que foi durante vários anos líder partidário do CDS, Manuel Monteiro, que foi presidente do partido, e teve sempre uma forte ligação a Vieira do Minho, e Altino Bessa, que tem feito um trabalho notável enquanto vereador da Câmara de Braga. São exemplos de representantes digníssimos de Braga no CDS.

Assunção Cristas em Braga © CDS-PP

Mas por Braga foi indicado para o parlamento o lisboeta Telmo Correia…

É com consternação que verifico que no ultimo concelho nacional a lista para os deputados para a AR indicam como cabeça de lista de Braga um militante que não tem ligações a Braga. Nem pela naturalidade, nem residência, nem proximidade física. Consideramos que tem de haver uma responsabilidade territorial dos candidatos para os círculos eleitorais onde são eleitos. Este cabeça de lista não é natural ou residente, ou com ligações ao distrito, e já não é a primeira vez que é indicado deputado por Braga. Durante estes anos em que foi deputado por Braga também tinha tido oportunidade de, através de alguma forma, estabelecer um contacto mais assíduo com o distrito e não o fez. Portanto, na opinião do CDS XXI,  nós consideramos reprovável que isto aconteça.

“Se efetivamente ainda resta alguma responsabilização política, isenção e compromisso com as bases, desafiava o doutor Telmo Correia a desistir da candidatura por Braga em função de alguém que tenha qualidade no distrito”
Quem poderia então ser indicado por Braga?

Como digo, temos pessoas com muita qualidade em Braga. Eventualmente o Altino Bessa, que tanto quanto sei não estaria disponivel, mas haverá outras pessoas para encabeçar a lista. Não se compreende que mais uma vez, aqui, os amigos de sempre sejam os privilegiados em função dos verdadeiros representantes das terras e regiões que têm conhecimento mais aprofundado sobre elas. O CDS XXI condena veemente esta politica que é uma politica que no fundo segue aquela célebre frase “faz o que eu digo mas não faças o que faço”. Se a direção do CDS acusa o PS – e com toda a razão -, de ter uma orientação de nepotismo na nomeação de pessoas para cargos, neste caso está a proceder da mesma forma e portanto tem que apresentar um projeto diferenciador que no fundo dê ao eleitorado a possibilidade de escolher um partido que se paute pela isenção e compromisso pelas bases.

Altino Bessa (c) FAS / Semanário V

Acha que Telmo Correia deveria abdicar de ser candidato por Braga?

Se efetivamente ainda resta alguma responsabilização política, isenção e compromisso com as bases, desafiava o doutor Telmo Correia a desistir da candidatura por Braga em função de alguém que tenha qualidade no distrito.

Será difícil…

Nós para termos moral para acusar os outros de falhas graves, e eu considero que é uma falha muito grave que tem sido prosseguida pelo PS e está à vista de todos, temos de dar o exemplo e não estamos a fazê-lo. Nós dizemos de uma forma muito clara. As pessoas que têm sido consecutivamente apresentadas nas listas do partido, têm sido sempre as mesmas pessoas. apontamos exceção com a qual concordamos que é o presidente da JP ter sido apresentado num lugar elegível para as listas nas eleições legislativas. Consideramos que é de elogiar, mesmo que efetivamente não seja do Porto, pois deveria ter sido indicado pelo distrito de origem.

Voltemos a Braga. Como é que a corrente CDS XXI vê os bracarenses? São conservadores e religiosos?

Eu considero que Braga é um exemplo para o resto do país no sentido em que as pessoas são muito genuínas e com capacidade de entrega. São conservadoras, e portanto, identificam-se com o CDS XXI. Mas não num sentido fundamentalista e sim num sentido aberto, moderno, cada vez mais adaptado às novas realidades. Não podemos esquecer que é um distrito altamente espiritualizado e religioso, onde temos o Arcebispo Primaz das Espanhas, e portanto nesse sentido é uma cidade com uma carga religiosa muito grande. É evidente que um distrito assim não se conforma com o que são guinadas à esquerda que têm sido dadas pela atual direção do partido. E para ganhar votos é necessário voltar aos princípios fundacionais do partido. Por exemplo, revejo-me muito no que têm sido as posições de Altino Bessa relativamente às varias questões relacionadas com o partido. Tem sido uma voz atuante, uma voz que eu considero uma voz credível e que devia ser mais ouvida. Considero que Braga pode ter uma palavra a dizer naquilo que poderá ser o futuro do CDS. Volto a dizer: há uma personalidade que não é propriamente de Braga, embora tenha ligação muito forte a Vieira do Minho, que é o Manuel Monteiro e que representou brilhantemente o distrito e o próprio partido enquanto foi presidente do mesmo. Queria deixar essa nota em meu nome e do CDS XXI.

Telmo Correia / DR

“Nós [CDS-PP] para termos moral para acusar os outros de falhas graves, e eu considero que é uma falha muito grave que tem sido prosseguida pelo PS e está à vista de todos, temos de dar o exemplo e não estamos a fazê-lo”
O CDS XXI tem o objetivo de fazer oposição à direção do CDS-PP?

O objetivo é apresentar uma alternativa através da via construtiva. Não queremos de maneira nenhuma prejudicar o partido. Apresentamos soluções e propostas que têm sido apresentadas no forum proprio, ou seja, no congresso. Este último apresentamos moção a pedir para que os deputados sejam cabeças-de-lista pelos distritos de onde são naturais ou residentes, ou que, pelo menos, tenham alguma proximidade. Também tenho, através dos meus artigos de opinião, apresentado propostas e soluções. Queremos, tanto quanto possível, ser uma ajuda para a construção de soluções no partido. Não queremos prejudicar o partido mas temos sido uma voz critica relativamente à atual direção do partido porque não está a respeitar a matriz funcional do mesmo..

Como vê o desempenho do atual Governo socialista?

Vejo este Governo com muitas reservas. Fui fortemente crítico desta solução desde o principio, pois considero que este Governo carece de legitimidade e portanto nessa medida nasce já ferido. Consideramos, CDS XXI, extraordinariamente grave que tenhamos um Governo que não foi eleito a governar. É nefasto para os portugueses que esta solução se mantenha mais quatro anos. Nessa medida esperamos que nas próximas eleições o CDS consiga um bom resultado eleitoral para combater esta solução.

Mas o Governo até tem sido elogiado na Europa pelo desempenho apresentado…

Há uma conjuntura internacional que tem ajudado muito este Governo. Há um trabalho feito anteriormente, quer concordemos ou não, que preparou o país para uma situação económica mais desafogada e portanto obviamente que aqui o Governo está a lucrar com esses dividendos. Agora, não há duvida que temos aqui um défice que baixou, um desemprego que reduziu e um crescimento económico a verificar, mercê do trabalho feito anteriormente e da atual conjuntura internacional. Não podemos esquecer o que leva a que esta situação se verifique. As questões das cativações que o Governo tem feito, congelamento de despesa, e nessa medida é importante que saibamos o valor das cativações. Por outro lado, temos um investimento muito reduzido e nessa medida já que é reduzido o crescimento a médio e longo prazo poder a estar comprometido. Temos de avaliar a situação com realismo e não com pessimismos. Devemos ter sempre uma perspectiva otimista, mas não podemos esperar o melhor dos mundos quando a política económica inserida tem muitas omissões e muitas sombras que ainda não foram esclarecidas pelo ministro das Finanças.
Em termos de política internacional. Como vê a ascenção ao poder no Brasil por parte de Jair Bolsonaro?

O Bolsonaro era o candidato da direita. O Hadad era o candidato da esquerda. Bolsonaro tanto quanto sabemos em Portugal, no fundo é um homem com a ficha limpa. Não foi acusado, que se saiba, de nenhum crime de corrupção ou outro qualquer. É um homem que efetivamente é impoluto e está na politica há muitos anos. É óbvio que teve posições radicais com as quais o CDSXXI não se identifica. Agora evoluiu e apresentou como grande prioridade o combate à corrupção e nós consideramos que é necessário prosseguir uma reforma que veja de frente temas como a corrupção, porque a corrupção, obviamente que no Brasil é maior que em portugal, mas cá é sinalizada. E ultimamente, mercê da ação do Ministério Público, cada vez mais responsável e atuante no camopo de invesitgação na justiça, tem se verificado puniçoes relativamente à corrupção, sobretudo com o trabalho da antiga procuradora Joana Marques Vidal. Fez um trabalho notável ao nível da investigação e DCIAP e acabou por reunir provas que vieram a condenar políticos corruptos. E isso é extraordinariamente importante para um país que pretende dar o exemplo a este nível. Ainda sobre o Brasil, sendo esse [combate à corrupção] um dos combates prioritários, acho que é de aplaudir Bolsonaro. Quando verificamos que a líder da direção do CDS-PP diz que entre Hadad e Bolsonaro não votaria nem num nem outro, acho estranho. Se temos um candidato pró vida e que se assume contra a corrupção e tendo prioridades da sua acao politica combate-la acho que não ha duvidas que seria a escolha óbvia para um partido como o CDS-PP.
Fala no combate à corrupção. É uma questão que preocupa assim tanto em Portugal?

Cada vez mais deve haver um exemplo na transparência dos negócios públicos daquilo que é a relação entre o público e privado e o que são as funções dos politicos fora da sua atividade politica, nomeadamente na vida profissional. Não pode haver confluência de interesses, lóbis que influenciam um politico na sua ação. Tudo o que seja contribuir para a transparência e isenção, nomeadamente na nomeação de pessoas para determinados cargos, deve ser uma prioridade para qualquer Governo. Todo o partido existe para o povo e não para si mesmo.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista