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Há novos voluntários em recruta nos Bombeiros de Braga. Cinco são brasileiros

Recruta nos Bombeiros Voluntários de Braga 2019 © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Iniciou no mês de março uma nova formação para ingresso na carreira de bombeiro voluntário na Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Braga (RAHBVB), com 18 candidatos a fazerem a recruta. E a formação de 2019 acarreta uma novidade. Cinco elementos são de nacionalidade brasileira.

© FAS / Semanário V

O Semanário V esteve numa das sessões de formação teórica à fala com o sub-chefe Pedro Ribeiro, responsável de comando, e o formador e sub-chefe Pedro Azevedo. Pedro Ribeiro explica que esta formação, pós laboral, tem 300 horas de duração, dividida por quatro módulos: serviço de bombeiros, onde são abordadas áreas técnicas como eletricidade, construção civil, matérias perigosas, extintores e legislação. Segue-se depois a formação em equipamentos, manobras e veículos, formação em incêndios urbanos e formação em incêndios florestais.

Acabando os módulos, à responsabilidade do corpo de bombeiros de Braga, seguem para o curso de 50 horas de tripulante de ambulâncias e mais 50 horas com formação em desencarceramento. Em junho, iniciam estágio de um ano até que se tornem bombeiros voluntários.

Recruta nos Bombeiros Voluntários de Braga 2019 © FAS / Semanário V

Pedro Ribeiro explica que o grupo é composto maioritariamente por residentes na cidade de Braga, alguns estudantes e outros já a trabalhar. “Temos também cinco elementos que são cidadãos brasileiros que chegaram recentemente a Portugal. Alguns já tiveram lá experiência no serviço de bombeiros e gostam de voluntariado, por isso é normal que se inscrevam”, explica o responsável.

O responsável salienta que, à semelhança dos colegas de nacionalidade portuguesa, “desde que atinjam os objetivos não há qualquer problema”. “Até agora têm correspondido como todos os outros. Estão a cumprir. Na parte operacional, fico satisfeito com esta recruta, mas também fiquei com as outras todas até agora”, aduz.

O Semanário V falou com alguns elementos desta nova recruta, dois dos quais de nacionalidade brasileira

Jessé Rosa

No Brasil já trabalhava como bombeiro industrial e defende que “é de valor apoiar a vida”. Jessé Rosa, a residir em Maximinos, trabalhou os últimos seis anos como bombeiro industrial numa central elétrica no Brasil. Há três meses em Portugal, trabalha agora na área da construção civil. Decidiu integrar a recruta não só pela experiência que trouxe na bagagem vinda outro lado do Atlântico mas por uma questão de “ajudar os outros”.

O recruta recomenda a que os conterrâneos brasileiros se inscrevam não só nos bombeiros mas como em outras associações locais, até por uma forma de integração. “Quem gosta genuinamente de ajudar os outros, pode e deve inscrever-se nos bombeiros e em outras instituições”, deixa vincado.

Jessé não esconde que gostaria de trabalhar profissionalmente como bombeiro, à semelhança da experiência anterior, e refere que Portugal poderia apostar em bombeiros privados como no Brasil. “Seria importante para a segurança e também uma forma de gerar emprego”, explica.

Em Portugal, realça uma diferença positiva que chama a atenção. Um sistema de segurança que emite um alerta sonoro de alto volume quando um bombeiro está imobilizado durante 30 segundos. É um sistema de segurança que os BVB utilizam. “No Brasil não temos e achei muito positivo. Se estivermos parados por algum motivo, inconscientes, o alarme toca e alguém vem resgatar. É uma novidade para mim e é muito útil”, destaca.

José Luís Rodrigues

À semelhança do conterrâneo, também José Luís Rodrigues trabalhava na área da defesa e proteção, neste caso como assessor jurídico de secretarias e administração de bombeiros militares, na rede pública. “A minha parte lá era toda de gestão de recursos, e vim morar aqui e aprendi um pouco e integrar, já que estive numa formação militar durante muitos anos”, explica o advogado que exerce também essa profissão em Braga.

Neto de portugueses de Barcelos, confessa que sempre viu com admiração a forma abnegada com que Portugal possuía corpos de bombeiros voluntários que trabalham de forma gratuita para servir os outros. Confessa mesmo que é marcante ver como os portugueses fazem voluntariado nos bombeiros por amor. “Não é só vocação, isto é mesmo amor, querer fazer mais pelas outras pessoas e pelo país. É uma questão de assistência humanitária colocando a vida em risco em prol dos outros”, refere.

Andreia Valverde

Andreia Valverde, de São Víctor,  diz ter entrado para esta recruta na sequência dos grandes incêndios que assolaram o país em 2017. “Lutam diariamente pelo país e muitas vezes são esquecidos e postos de lado. Foi isso que me chamou a atenção e dizer eu quero estar lá e ser mais uma a fazer a diferença”, explica Andreia, que está atualmente a terminar a tese de mestrado em Contabilidade e Finanças, enquanto trabalha num quiosque de revistas.

Salienta que a recruta está a ser muito positiva apontando “medos desconhecidos” que vão encontrando e superando com ajuda dos colegas, dos formadores e de outros bombeiros. “A motivação é importante na recruta. Os formadores também puxam por nós, dão-nos uma palavra para que ninguém desista. Cada passo chegámos mais longe e o grupo é unido e partilha informações e experiências. Temos colegas do Brasil que pertenceram a corpos de proteção civil e bombeiros e são uma grande ajuda também. Assim aprendemos também um bocado com eles. Depois há os bombeiros que já estão aqui no quartel que também nos contam as experiências que tiveram”, salienta Andreia.

Daniel Pereira

Daniel Pereira, de Braga, decidiu ingressar na recruta depois de ter assistido ao combate às chamas numa loja de tintas, em Ferreiros, em dezembro de 2018 [clicar para ver notícia do Semanário V]. Chefe de equipa na área da mecânica, viu o pavilhão ao lado ser consumido pelas chamas. “Nesse dia estive lá e aquilo mexeu comigo. Senti-me a querer ajudar também e fiquei impressionado com a atuação dos bombeiros. Aquilo mexeu comigo”, confessa, revelando que o facto da esposa ser bombeiro também ajudou.

Incêndio em empresa de tintas em Ferreiros (c) FAS / Semanário V

Explica ainda que, depois de ingressar na recruta, começou a perceber algumas injustiças a que os bombeiros estão sujeitos por parte da população durante um incêndio. “Eu não tinha noção da capacidade dos autotanques, sempre ouvi o povo dizer que os camiões estavam sempre parados com tudo a arder. E eu não tinha noção que um autotanque de 3.000 litros pode ficar vazio ao fim de alguns minutos, e há necessidade de recarregar água”, confessa.

José Leão

José Leão, de Fraião, decidiu iniciar recruta para ajudar pessoas e contribuir para a sociedade. Vindo do exército, ficou com a vontade de servir a população. “Saí do exército e decidi inscrever-me como voluntário nos bombeiros”, vinca. Comparativamente à vida militar, encontrou algumas semelhanças, como formaturas, trabalho de equipa, e “remar todos para o mesmo lado”. Em relação à recruta, destaca a experiência com as escadas para retirar vítimas de edifícios e ainda o experimento dos equipamentos.

Sub-chefe Pedro Azevedo BVB © FAS / Semanário V

Falámos com o sub-chefe Pedro Azevedo, responsável pelo segundo módulo da formação desta recruta. Formador há 10 anos, habitualmente dá o módulo de equipamentos, manobras e veículos. Aponta que este grupo é composto por gente interessada. “Vi que há empenho, mas ainda estão a começar. para já está a correr bem”, diz.

O formador é da opinião que nos dias de hoje, “haver alguém que se preste ao voluntariado gratuito, é de louvar”. “Há muitas formas das pessoas se entreterem, e há poucos que vivem o verdadeiro espírito de voluntariado. Queremos gente nova com vontade de vir e o tempo dirá se vão ficar ou não”, finaliza.

Sub-chefe Pedro Ribeiro durante exame da recruta nos Bombeiros Voluntários de Braga 2019 © FAS / Semanário V

Já o sub-chefe Pedro Ribeiro, responsável pelo comando, explica ainda que, a partir do momento em que esta recruta é aprovada no último curso, passam a ser inseridos nos piquetes. “Mesmo estando habilitados como tripulantes de ambulâncias, só podem ir como terceiro elemento, para aprender. Para incêndio ou desencarceramento, numa guarnição de cinco, vão como quinto elemento, sempre com um tutor”, assegura.

Sobre o voluntariado em Braga, Pedro Ribeiro diz não se poder queixar. “Aqui em Braga não nos podemos queixar a nível de voluntariado mas temos queixa das condições que temos para oferecer. Por exemplo, temos estes 18 mas não temos onde os colocar. Já disse para trazerem mochila e vamos tentar colocar dois por cada armário. Mas neste momento, se fossem mais, iam sentir a falta de condições”, vaticina.

Atualmente, o corpo ativo da RAHBVB é composto por 74 elementos, mas Pedro Ribeiro, sub-chefe e responsável pelo comando da RAHBVB, espera que, daqui a um ano, passem a ser 92 elementos.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista