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Há uma recriação em Vila Verde do jardim onde Cristo foi traído. Conheça a história dos Passos de Vilarinho

Escadaria e capelas do Senhor dos Passos de Vilarinho © Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Os primeiros registos da existência da capela que hoje recebe o evento dramatizado dos Santos Passos, na freguesia de Vilarinho, concelho de Vila Verde, remontam ao ano de 1651, altura em que um conjunto de pessoas decidiu erguer uma capela a Santa Luzia. Agora, existe também um escadório com várias capelas e o Jardim das Oliveiras, que vai recebendo novos elementos a cada ano que passa.

Escadaria e capelas do Senhor dos Passos de Vilarinho © Luís Ribeiro / Semanário V

A escritura que autentica a data inicial foi encontrada pelo professor Salvador Sousa, atual coordenador da Confraria do Senhor dos Passos e de Santa Luzia que organiza as seculares procissões que recriam a morte de Cristo. Ao Semanário V, Salvador Sousa explica que, após ser erguida a capela, foi criada uma comissão para Santa Luzia, existindo uma romaria àquela capela. Mais tarde foi criada a confraria dos Santos Passos, de forma a eternizar a tradição da Via Sacra e dos Passos de Cristo naquela freguesia, isto já no séc. XVII [século 17]. Ainda durante esse século e ao longo do seguinte, foram criadas várias capelas e dois calvários. Em meados do séc. XVIII [século 18], iniciou-se a agora célebre Procissão dos Santos Passos de Cristo, e nunca mais se deixou de fazer.

A dramatização da via sacra consiste, como explica Salvador Sousa, com a recitação do terço no sábado à noite. No dia seguinte, recria-se a Paixão de Cristo, com centenas de figurantes das freguesias de todo o concelho de Vila Verde e arredores. No domingo à tarde, Cristo é levado para o adro exterior da capela de Santa Luzia onde é crucificado. Tudo ao vivo e perante centenas de pessoas.

Professor Salvador Sousa © Luís Ribeiro / Semanário V

“É uma tradição muito antiga”, vinca o professor e historiador, afirmando que “estes Passos são dos mais antigos na região”. Só em Braga há um tão antigo”.  “Por isso, temos muita fama neste evento. A origem destes eventos depende da dinamização das pessoas dessa terra. E foi o caso. Esse grupo lembrou-se de fazer esta capela ainda em 1651, depois fizeram uma espécie de associação e mais tarde registaram as confrarias, Santa Luzia, Santos Passos e ainda a confraria das Almas, mas agora temos a Confraria dos Santos Passos do Senhor e de Santa Luzia, todas unidas”, revela.

Salvador Sousa pertence a esta confraria desde 1982. Foi secretário e a partir de 2003 ficou a coordenar.

Factor diferenciados de outros “Passos”

Escadaria e capelas do Senhor dos Passos de Vilarinho © Luís Ribeiro / Semanário V

Questionado pelo Semanário V sobre algum factor diferenciador deste evento de Passos em relação aos que se realizam em Celeirós ou em Prado, entre outros lugares da região, Salvador Sousa explica que há um quadro aqui recriado de forma extensa, o de Verónica limpar o rosto de Cristo.

“Aqui a Verónica é característica nossa. Para além de limpar o rosto de Cristo, aqui faz um sermão, e isso diferencia-nos de outras encenações dos Passos. Viu jesus ensaguentado e limpou-lhe o rosto e é isso que recriámos aqui, e já vem desde as origens desta procissão. A Verónica enriquece a história dos Passos. É uma figura importante. Também Cirineu é importante, um senhor que ajudou Jesus a carregar a cruz. Também podemos vir a recriar futuramente essa cena aqui”, explica Salvador.

Obras no escadório

As mais valias no evento do Senhor dos Passos de Vilarinho são os edifícios em si. Têm as capelas, do séc XVII e XVIII. Em 1982 foi intervencionadoum monte junto à capela e de lá nasceram os escadórios. Em 2004 começaram a contextualizar a via sacra através de figuras nos escadórios, entre painéis e estátuas. “E neste momento temos a paixão de Cristo, desde o monte das Oliveiras, o tribunal de Pilatos, a Entrega de Cristo, o Julgamento e a via sacra toda até à morte”, realça Salvador Sousa.

Passos de Vilarinho © Luís Ribeiro / Semanário V

Explica que este investimento serve para complementar a procissão no tempo, de forma a que quem visite o local em outras alturas fora do dia dos Passos, possa perceber e percorrer o calvário de Cristo. Existe ainda o Jardim das Oliveiras recriado em um dos terrenos atravessados pelo escadório, para além de lagos e bancos para descansar e meditar.

Programa

Os Santos Passos do Senhor em Vilarinho começam no sábado à noite, dia 13 de abril, pelas 21h, com a recitação do terço. Meia hora depois sai a procissão de velas. No senhor da Cana Verde há uma dramatização da despedida de Cristo e da mãe, em teatro. Depois segue para a igreja onde há o sermão Ecce Homo.

Domingo às 11h há a bênção dos ramos seguida de Eucaristia. Às 16h30, inicia a ansiada procissão dos Santos Passos, com sermão do Pretório, sermão do Encontro e sermão do Calvário.

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Jornalista