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Barcos emergem do rio Homem para unir as margens de Fiscal

Fernando André Silva

Barcos especialmente preparados para uma tradição pascal, na freguesia de Fiscal, em Amares, ficam submersos durante mais de 350 dias nas águas do rio Homem, emergindo uma semana antes da Páscoa para serem limpos e decorados pela população local.

A tradição manda que os “mordomos” da Páscoa de Fiscal atravessem de barco o rio Homem para levar o compasso pascal até às casas dos lugares de São Pedro e São Bento. A freguesia está dividida pelo rio Homem e essa seria a única forma de unir toda a população de Fiscal, que, segundo os censos de 2011, é composta 718 habitantes.

Páscoa em Fiscal 2018 (c) Luís Ribeiro / Semanário V

A mesma tradição é levada a sério no que diz respeito ao armazenamento dos barcos: debaixo de água

Ao Semanário V, o presidente da Junta de Fiscal, Augusto Macedo, explica que, uma semana antes, é necessário retirar os barcos do fundo do rio para que possam transportar os “mordomos”.

Remoção dos barcos de Fiscal do rio Homem © Luís Ribeiro / Semanário V

Sobre o porquê de armazenarem os barcos no rio, explica que, para além de ser tradição com mais de um século, a submersão impede que a madeira de pinheiro manso, da qual são feitas as embarcações, seque.

Remoção dos barcos de Fiscal do rio Homem © Luís Ribeiro / Semanário V

“Se ficarem cá fora correm o risco de abrir brechas e depois entra água. Desta forma estamos sempre seguros que os barcos estão em condições”, acrescenta o autarca local.

Feitas com madeira de pinheiro-manso, alguns pregos, corda e alcatrão para “colar as juntas”, as embarcações estão a terminar a idade de utilização recomendada: 15 anos. Augusto Macedo explica que este será o último ano que serão utilizadas e irá pedir nova construção da embarcação.

Augusto Macedo, presidente da Junta de Fiscal © Luís Ribeiro / Semanário V

“Isto é feito tudo à mão e os barcos são propriedade da Junta. Compete-nos retirar da água e guardá-los no final mas também assegurar que estão em condições e por isso vamos fazer umas novas para o próximo ano”, explica.

Os barcos são feitos à mão. Tábuas inteiras serradas e recortadas à feição do desenho do barco. “Aqui uma carpintaria na freguesia é que fará os novos que devemos estrear no próximo ano”, revela Augusto Macedo.

Remoção dos barcos de Fiscal do rio Homem © Luís Ribeiro / Semanário V

Tradição do compasso de Fiscal

Augusto Macedo conta que a tradição de atravessar o rio Homem já tem mais de um século. “A freguesia era dividida por um rio e antigamente não havia ponte e tudo era passado aqui no barco.

Conta que existia um moleiro que, mediante pagamento de um valor monetário, passava pessoas, animais e bens neste tipo de embarcação. Depois veio a ponte mas a população manteve a tradição de atravessar durante o compasso pascal.

Padre Joaquim Gomes da Costa

Este ano o compasso de Fiscal está de luto, na sequência da morte do padre Joaquim Gomes da Costa, que paroquiou aquela freguesia durante cerca de meio século. Augusto Macedo recorda o pároco como um grande impulsionador desta tradição, nunca deixando que acabasse.

Padre Joaquim Costa 2018 (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Este ano não vamos fazer tanta festa porque há a lamentar o desaparecimento do padre Joaquim, mas vamos aguentar a tradição, era isso que ele queria”, revela. Este ano, o compasso será presidido por um pároco ainda a designar e por um seminarista.

Porquê à segunda-feira?

Ao contrário da grande maioria das paróquias minhotas, o compasso pascal em Fiscal realiza-se na segunda-feira depois do domingo de Páscoa. Augusto Macedo explica que o pároco tinha outras freguesias ao domingo e queria estar presente no compasso de Fiscal, passando a realizar-se à segunda-feira.

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Fernando André Silva

Jornalista