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Da Síria até Braga: Samer é dos primeiros doutorados sírios apoiados por Portugal

Samer Hamati na UMinho © Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

O Parlamento português aprovou no passado dia 29 de março um voto de louvor aos dois primeiros estudantes de nacionalidade síria a completar um doutoramento em Portugal através da Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios. Samer Hamati, 36 anos, doutor em Economia, é um dos dois visados e completou o doutoramento na Universidade do Minho, em Braga.

A tese de doutoramento, defendida a 31 de janeiro de 2019, versa sobre crescimento económico e está dividida em três capítulos. O primeiro versa de uma forma geral sobre o crescimento económico em países sub desenvolvidos no final de um conflito civil. O segundo fala sobre o efeito a curto prazo da volatilidade dos pequenos países do médio oriente e da África que possuem conflitos civis. Depois de “deambular” por vários países em desenvolvimento, a tese de doutoramento de Samer termina em exclusividade para com a Síria, e a sua mapografia e reconstrução.

“Os doutoramentos de Hazem Hadla e Samer Hamati têm o valor simbólico de serem os primeiros doutoramentos de estudantes apoiados pela Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios, fundada em 2013, e presidida pelo antigo Presidente da República Jorge Sampaio”, lê-se no voto de louvor, proposto pelo deputado não inscrito Paulo Trigo Pereira e aprovado por unanimidade das bancadas.

A persistência dos dois sírios no doutoramento e de outros 60 estudantes sírios que, em momentos anteriores, obtiveram o grau de mestre “são um motivo de orgulho”, defende o voto, destacando a plataforma de apoio como pioneira e com “capacidade de liderança” na comunidade internacional.

Samer Hamati © Luís Ribeiro / Semanário V

Falámos com Samer Hamati em Braga

Falámos com Samer num dos estabelecimentos da Rua Nova de Santa Cruz, em Braga, ao lado da Universidade do Minho. Adianta que o momento em que recebeu o voto de louvor na Assembleia da República foi de imenso orgulho, até porque esteve à conversa durante algum tempo com o antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, presidente da plataforma que apoia este programa.

O sírio explica ao Semanário V que se sente bem em Braga, onde já vive desde 2013, altura em que iniciou o programa de apoio a estudantes sírios. Fizemos uma retrospetiva do que o trouxe até Braga. Nasceu na Alemanha, filho de pais sírios que regressaram dois anos após o nascimento à terra natal, à cidade de Latáquia, na costa do Mediterrâneo. Conta que teve sempre uma vida desafogada, muito boa. Completou licenciatura e mestrado em Economia e começou a trabalhar numa ONG, passando depois para uma comissão governativa no ministério das Finanças local. Trabalhou ainda num projeto das Nações Unidas para erradicação de pobreza.

Samer Hamati com o voto de louvor aprovado no Parlamento © Luís Ribeiro / Semanário V

“Na Síria tinha uma vida boa e de repente tudo colapsou”

“Eu na Síria tinha uma vida muito boa. Trabalhava no que gostava, o salário não era mau, a posição social também era boa, tudo era bom, mas de um momento para o outro tudo acabou”, lamenta Samer. O colapso na vida de Samer não se deu de rompante. Apesar da guerra civil ameaçar eclodir em 2011 e a cidade de Latáquia estar numa parte segura pelo Governo local, a condição do país acabou por colapsar a carreira do sírio que via um conflito cada vez eminente.

Samer aponta o início da Primavera Árabe na Tunísia, em 2012, como outro dos pontos em que o conflito na Síria começou a ganhar forma. Explica que as pessoas se dividiram e quem era pró-governo tinha várias regalias enquanto quem estivesse contra Bashar Al Assad tinha tudo destruído. No entanto, não crítica o movimento de protesto nascido em terras árabes. Crê que muitos jovens pensaram que poderiam “mudar a situação do país, criar melhores condições, mais democracia”, mas tudo colapsou em pouco tempo.

Samer Hamati © Luís Ribeiro / Semanário V

Com os pais em local seguro, Samer vivia e trabalhava há 7 anos na capital síria, Damasco, onde sentiu com maior intensidade o conflito civil. Recorda que só queria fugir ao conflito e poder completar um doutoramento em Economia. “Eu e a minha família perdemos muita coisa. Tivemos familiares raptados, outros morreram no conflito. Só queria sair dali”. Em maio de 2013, recebeu um email da Universidade do Minho a informar que tinha sido aceite no Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios. Em setembro saiu do país e só parou em Braga, onde iniciou no mesmo dia, 6 de setembro de 2013, o programa de doutoramento.

Com o doutoramento espera ajudar a reconstruir a Síria

Embora esteja a gostar de viver em Braga, sentindo-se bem acolhido, Samer pensa em regressar quando terminar o conflito civil. A terceira parte da tese de doutoramento versa sobre a reconstrução da Síria no final do conflito armado. Samer explica que, atualmente, não é possível fazer um survey, ou seja, uma análise detalhada para efeitos de mapear o país. Samer pegou em dados antigos para criar novos indicadores. “Pegamos em dados do passado para perceber os planos para o futuro”, diz.

“O conflito vai acabar mais ou tarde ou mais cedo, não sabemos quando, mas vai acabar”, acredita Samer, reforçando uma necessidade do país em recrutar pessoas qualificadas em termos técnicos para uma reconstrução eficaz quando terminar o conflito. “Quero que a Síria passe a ser uma janela de liberdade”, acrescenta, adiantando que “está nos planos um regresso para junto da família”… “Quando a guerra acabar”.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista