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Bernardo da Mota “Barbas” Fernandes. Conheça o guardião de Pico de Regalados

"Barbas", antigo guardião do Vilaverdense FC © Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Esta é a história de Bernardo da Mota Fernandes, mais conhecido por Barbas, atualmente com 82 anos, e que defendeu a baliza de vários clubes da região até pendurar as luvas aos 50 anos. Diz ao Semanário V que lhe chamavam “frangueiro”, mas foi um dos responsáveis pelo vice-campeonato do Vilaverdense FC, em 1960, no Campeonato Regional de Braga, frente a históricos como o SC Braga e o Vit. de Guimarães. Um título que perdura na memória dos adeptos que enchiam o antigo campo do clube, entretanto demolido, na zona do Bom Retiro.

Bernardo da Mota Fernandes, conhecido por”Barbas”, antigo guardião do Vilaverdense FC © Luís Ribeiro / Semanário V

Natural e residente em Pico de Regalados, encontramos Bernardo no centro da freguesia, para uma entrevista. Apesar da idade, ainda mostra reflexos dignos de, pelo menos, um campeonato de INATEL. Mas o próprio admite que “já não tem idade para defesas”. Conhecido na freguesia como “Sintra”, começou a jogar futebol com um clube fundado nos anos 50 no Pico de Regalados, chamado “Os Viriatos”. Conta que jogavam em campos de milho, quando os agricultores os tinham por cultivar. “Quando semeavam o milho tínhamos de ir para outro campo ou então não jogávamos”, conta.

Bernardo sempre ostentou uma barba característica © Luís Ribeiro / Semanário V

E foi nos Viriatos que aprendeu a ser guarda-redes. “Eu jogava à frente mas houve uma partida contra os Bombeiros de Braga e o nosso guarda-redes também era guarda-redes da equipa deles e tocou-me a mim ir à baliza”, explica. Ainda fez mais alguns jogos, mas acabou por seguir para Aveiro onde cumpriu o serviço militar obrigatório. Lá, acabou por jogar na equipa da Força Aérea, já como guarda-redes, e quando regressou, encontrou lugar na baliza do Vilaverdense, onde permaneceu 13 anos a ouvir desaforos e elogios da bancada. “A posição de guarda-redes foi sempre muito ingrata. Chamavam-me do piorio quando deixava entrar algum golo, Mas outras vezes levavam-me nos braços”, conta.

“Barbas” no Vilaverdense FC em 1959 © Luís Ribeiro / Semanário V

Outra das caraterísticas de Bernardo valeram-lhe uma alcunha: “o Barbas”. Ou não tivesse deixado crescer a Barba nos anos 50 para nunca mais a raspar. “Quer dizer, houve uma vez que tive de a raspar porque queria ir para França e a foto no passaporte aparecia sem barba e lá tive de a deitar abaixo”, recorda. Bernardo admite que as barbas causavam respeito aos adversários, tanto que poucos se atreviam a dizer-lhe fosse o que fosse. “Houve um avançado que me disse qualquer coisa uma vez e até foi a única vez que eu fui expulso em tantos anos”, conta. Bernardo jogou até aos 50 anos. “Peguei-me de língua com ele, ele chamou-me qualquer coisa e eu mandei-lhe uma cuspidela quando o árbitro estava de costas, mas o bandeirinha viu e disse ao árbitro que me mandou para a rua”, conta. Diz que ainda pediu “misericórdia” ao juiz, com quem costumava comer presunto aos domingos em Sabariz, mas este não cedeu e deu ordem de expulsão. “E era meu amigo”, recorda.

Depois de 13 anos em que representou o clube do concelho de Vila Verde, com alguns jogos em França pelo meio, onde esteve alguns anos emigrado, Bernardo regressou de vez a Portugal e acabou por ser contratado pelo Merelinense. Mas antes, no clube de Vila Verde, recorda que os jogos eram disputados no velhinho campo que havia no Bom Retiro, onde hoje é o armazém da Casa Santos. “Só joguei uma vez no campo novo, frente às antigas glórias do Benfica”, esclarece.

Sobre a ida para o Merelinense, recorda que lhe ofereceram-me um fato, embora não o quisesse. Bernardo recorda que, naquela altura, havia quem recebesse qualquer dinheirito, mas a maior parte jogava por amor à camisola.

No Merelinense a passagem foi curta e acabou por regressar ao concelho, até Lanhas, onde ajudou a fundar o clube atual GDRC Lanhas e onde, em conjunto com outros dez colegas futebolistas, comprou uma bouça para alargar o campo que ainda hoje permanece.

Quatro gerações dos Mota Fernandes © Luís Ribeiro / Semanário V

“Quando vim para o Lanhas, tínhamos um campo muito pequeno para poder jogar na associação de Braga, mas havia ali uma bouça pegada. Eu e mais dez colegas demos dois contos cada um e comprámos a bouça ao homem, e alargamos o campo, isto em meados dos anos 70”, recorda. No Lanhas permaneceu até aos 50 anos, onde assumiu funções não só de jogador mas também de guarda-redes.

“Na altura foi inédito porque não havia jogadores a comprar campos. Agora já vão meter lá um sintético. Estive no Lanhas 5 anos na baliza e a treinador. Depois meteram um treinador novo de graça e eu gostava de disciplina e era complicado porque eram todos voluntários e passei para a direção. O único dinheiro que havia para pagar aos jogadores era a jantarada no final dos jogos”, recorda.

Não há garra nos guarda-redes de agora

“Barbas” assiste a jogos de futebol mas não gosta da prestação dos guarda-redes da atualidade. “A maior parte dos jogos que vou ver, não vejo qualquer alma na baliza”, confidencia, explicando que um guarda-redes deve estar sempre atento. “Alguns agora parece que estão ali a dormir de pé. Na minha altura treinava-se os remates bem ao perto, a mandar foguetes que nos furavam as luvas. Era assim que se treinava”, recorda. “E muitas vezes jogávamos sem luvas, e as que haviam, eram uma miséria que mais valia a pena não usar”, salienta.

Do futebol, recorda o vice-campeonato da AR Braga em 1960, ao serviço do Vilaverdense, e os convívios no final dos jogos do Lanhas. “As jantaradas eram boas”, diz, entre risos. Na verdade, Bernardo jogou sempre por amor às camisolas que vestiu, e nunca por títulos ou dinheiro.

Aos 82 anos, recorda que ser guarda-redes naquela altura era “andar como um cristo”, com os joelhos e cotovelos todos mal tratados. “Mas eu gostava daquela vida e não tinha trocado por nada”, finaliza a velha glória.

“Barbas”, antigo guardião do Vilaverdense FC © Luís Ribeiro / Semanário V

César Cerqueira, autarca, atesta a popularidade de Barbas em Pico de Regalados © Luís Ribeiro / Semanário V

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Jornalista