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Produtores resgataram com vida vitela da neve após reportagem do Semanário V

"Formiga" na neve e "Formiga" no curral © FAS / Semanário V
Fernando André Silva

“A natureza tem destas coisas”. É assim que Olivia Rodrigues, produtora de gado bovino de estirpe barrosão, classifica a sobrevivência da pequena vitela “Formiga”, que nasceu no passado dia 6 de abril debaixo de um intenso nevão na Serra Amarela.

A agricultora reside no lugar de Lindoso, na freguesia com o mesmo nome, situada no contraforte da serra Amarela, uma das entradas do Parque Nacional Peneda-Gerês, e tomou conhecimento, através da reportagem do Semanário V em conjunto com o guia Domingos Costa, que um dos seus animais tinha parido um vitelo debaixo do nevão que atingiu o topo da serra.

© FAS / Semanário V

Com poucas horas de vida, “Formiga” enfrenta o primeiro nevão da serra Amarela © FAS / Semanário V

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Ao tomar conhecimento do resgate do animal com vida, o Semanário V foi a Lindoso, falar com Olivia e com o filho que efetuou o resgate da “Formiga”.

Variante de acesso a Lindoso © FAS / Semanário V

Manuel Rodrigues Fernandes, filho de Olivia, foi resgatar a cria no dia seguinte, encontrando-a bem de saúde, como explicou ao V. Subiu à serra Amarela, em busca do lugar de Rebordonofeio, sítio onde a vitela nasceu.

Olivia, Guilherme e Manuel © FAS / Semanário V

“Formiga” e “Linda” em Rebordonofeio, no topo da serra Amarela © FAS / Semanário V

“Não estava lá, mas com ajuda de binóculos acabei por encontrá-las”, explica Manuel. Linda e outra vaca que ficou retida no nevão acabaram por regressar pelos próprios meios, assim como a recém nascida Formiga, que fez pela primeira vez o caminho que liga o topo da serra ao lugar de Lindoso, onde poderá dormir abrigada de intempéries.

Vaca “Formiga” está são e salva num curral em Lindoso © FAS / Semanário V

Reportagem do Semanário V alertou produtores no nascimento de “Formiga”

“Um afilhado da minha mãe mostrou-me uma reportagem sobre uma cria que tinha nascido no nevão”, conta Manuel, referindo-se à reportagem do Semanário V. “Eu até já tinha visto um vídeo a passar no Facebook [gravado por Domingos Costa], e fiquei a pensar se não seria nossa, e ao ver a reportagem percebi que sim”, acrescenta o habitante de Lindoso.

Olivia, ao ver as fotografias, não teve dúvidas. “É a minha Linda!”, exclamou, referindo-se à “vaca parida”, que é como apelidam as vacas que acabam de ter crias. Com 13 vacas e um boi, divididas entre raças barrosão e cachena, não foi difícil para Olivia reconhecer uma das vacas que possui há nove anos. Com ajuda do neto Guilherme, identificaram a vaca.

“A vaca chegou cá normalmente e está bem alimentada, não me parece que tenha qualquer problema”, adianta Olivia, confirmando que o animal já está devidamente registado e com chip de identificação. “Estiveram cá ontem para proceder à legalização, está tudo bem com ela”, acrescenta.

Olivia e Guilherme olham pela “Formiga” © FAS / Semanário V

Com 72 anos, Olivia Rodrigues toda a vida teve gado, seja bovino ou caprino, e aponta que é uma vida dura. Explica que “Linda” estava no monte por terem ocorrido uns dias de maior calor, e quando assim é, o gado pasta livremente no monte o tempo que quiser.

© FAS / Semanário V

© FAS / Semanário V

“Sabíamos que ela estava para parir, mas pelos cálculos ainda faltava mais de uma semana, por isso é que ela foi na quinta-feira para cima, mas o nevão surpreendeu-nos a todos”, conta Olivia, pensando que “Linda” só entraria em trabalho de parto já depois dos três dias em que nevou.

“Formiga” © FAS / Semanário V

Mas “Formiga” trocou as voltas e nasceu logo na sexta-feira, a mais de 1.000 metros de altitude, debaixo de um forte nevão que até provocou resgates de viaturas por parte dos Bombeiros de Ponte da Barca.

Entrada no PNPG pela serra Amarela © FAS / Semanário V

Do lugar de Lindoso ao topo da serra Amarela ainda distam mais de cinco quilómetros.

“Há umas cancelas ali em cima onde as vacas costumam parar quando querem regressar a casa. Quando as enviámos para o monte, vamos vários vezes espreitar às cancelas se elas já voltaram”, explica.

Olivia, Guilherme e Manuel receberam a reportagem do Semanário V com muito agrado em Lindoso © FAS / Semanário V

A criação de gado barrosão e cacheno é ainda um meio de subsistência para a população afeta ao Parque Nacional Peneda-Gerês. A custo de preservar este animal autóctone da nossa região, estes produtores recebem um incentivo monetário da Europa para a criação deste gado. No entanto, já só restam menos de 30 cabeças na zona do Lindoso, distribuidas por “5 ou 6 produtores” e metade são de Olivia, que pensa em desistir quando acabar o próximo contrato de fundos comunitários.

Lugar do Castelo de Lindoso © FAS / Semanário V

Lugar do Castelo de Lindoso © FAS / Semanário V

Espigueiros de Lindoso e Castelo de Lindoso © FAS / Semanário V

“Isto dá muito trabalho, é preciso assegurar alimento para o gado o ano inteiro, mesmo quando vão pastar para o monte, é preciso dar-lhes palha e ração”, conta a produtora. Confessa mesmo que o pastoreio de gado pode ter os dias contados quando se retirar. No entanto, o neto Guilherme Fernandes, assegura que irá comprar as vacas para manter a tradição. Mas Olivia diz que o futuro do gado é incerto, assim como o de “Formiga”, que poderá ser vendida ainda na juventude, caso “surja uma boa proposta”.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista