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Voluntários limpam escadório de um dos santuários mais secretos de Vila Verde

Fernando André Silva

A Norte de Vila Verde existe um santuário com paisagens de cortar a respiração mas que ainda é incógnito para grande parte da população do concelho, sendo mais visitado por turistas estrangeiros e habitantes das regiões altas do Minho.

O santuário de Mixões da Serra, localizado naquele lugar da freguesia de Valdreu, é conhecido por receber a bênção do gado no dia de Santo António, mas tem muito mais a oferecer aos visitantes que, outrora peregrinos que vinham rezar e deixar esmola, agora são em grande maioria turistas portugueses e estrangeiros.

Estivemos com um grupo de seis voluntários que decidiram limpar, pela primeira vez em 9 anos, o escadório que dá acesso ao miradouro, onde reina imponente a figura de Santo António. João Costa, Arménio Costa, Manuel Ferreira, Domingos Marques, Vítor Antunes e João Cavaco são seis elementos da Confraria dos Irmãos de Santo António, entidade gestora do santuário, e voluntariaram-se para fazer uma limpeza de forma a atrair mais turistas para aquele ponto.

Explicam que a confraria, desde que mudou de elementos ao longo dos últimos dois anos, tem proporcionado mais abertura a novos membros, com mais dinâmica, que tentam potenciar a zona, com pouco mais de 50 habitantes.

“Estamos a limpar para que os turistas que cheguem não pensem que isto está abandonado, é que passa aqui muita gente, sobretudo ao fim de semana, mas à semana também”, explica João Costa. A cerca de nove quilómetros de um conhecido ponto turístico da restauração, o “Abocanhado” em Brufe, Terras de Bouro, João explica que há muitos turistas que passam pela estrada junto ao santuário e param para visitar.

Com arquitetura pitoresca, a igreja de Santo António reúne postais de belo efeito para os turistas, que não dispensam uma fotografia no alto do miradouro. Para isso, há que limpar os acessos do escadório.

“A limpeza consiste no corte das silvas e da erva que já entram pelas escadas dentro. Estamos também a retirar a terra das escadas e as folhas”, explica João Costa. Já as giestas, e uma vez que não podem ser queimadas, será uma empresa especializada contratada pela confraria, que sobrevive das “esmolas” dos peregrinos turistas.

O melhor património de Santo António é a paisagem

João conta que a confraria tem várias posses em Santo António, que foi edificando graças às esmolas deixadas desde há muitos séculos na altura da bênção do gado. “Até os habitantes ganhavam dinheiro com isso porque antigamente vinha mesmo muito gado e nós vendíamos erva e feno para eles comerem”, acrescenta.

Para além da igreja e do miradouro, com respetivo escadório, existem ainda três palanques/coretos de pedra, um parque de merendas, um cruzeiro antigo e a “Santinha”, local com lago, sombra, mesas e uma santa. “Mas o melhor património que temos é a paisagem. Já viu?”. Do alto do miradouro é possível ver o vale do Homem, vale do Cávado e vale do Lima.

Pedras para o património foram transportadas quilómetros por carros de bois

Para edificar grande parte do património, os voluntários deste lugar da freguesia de Valdreu foram buscar a pedra a Germil, em Ponte da Barca, a mais de 15 quilómetros de distância. “Iam à noite lá ficar com as vacas, e de manhã carregavam as pedras e regressavam”, conta João. Explica que, nessa altura, há mais de 50 anos, foram várias as pessoas de outras freguesias que colaboraram no transporte.

“Antigamente havia muito gado cá em cima, mas a capela era pequenina, não havia mais nada, a população era muito pobre. Depois, com as esmolas da bênção, foram construindo este património, com ajuda de voluntários da confraria e da freguesia”, conta João.

“Estamos a pôr o santo mais bonito para os turistas”

Também Arménio, durante muitos anos emigrado em França e agora a residir em Mixões, de onde é natural, explica que esta limpeza serve para “pôr o santo mais bonito para os turistas”. “Isto não estava bem e por isso quero deixar os parabéns à nova confraria que estão a fazer o máximo para o desenvolvimento de Mixões da Serra”, diz Arménio.

Depois do falecimento do padre Marques, responsável durante mais de 50 anos por esta igreja, o padre Leonel passou a ser o coordenador da confraria, acumulando com as funções de pároco de Valdreu, Cibões, Brufe, Chorense e Gondoriz.

Tradição da bênção dos animais

Reza a história que uma grande peste, no século XVII, dizimou grande parte do gado que fazia trabalhos na agricultura na freguesia de Valdreu, deixando a população desconsolada. Segundo indica a Associação de Freguesias do Vale do Homem, a peste terá ocorrido por volta do ano 1680. Indica a mesma fonte que a população recorreu a Santo António, que terá livrado os animais da peste. Em troca, foi edificada uma capela. Desde então, todos os anos, no domingo anterior ao 13 de junto, os lavradores da região levam o gado para ser benzido. Atualmente, os animais domésticos também são benzidos, estando até em maior número.

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Jornalista