Braga

Francisco Pereira: “Salazar não foi um ditador, mas sim um grande estadista”

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Francisco Pereira, 32 anos, residente em São Martinho do Campo, concelho de Santo Tirso, é o coordenador distrital de Braga do Partido Nacional Renovador (PNR) e cabeça de lista no distrito por aquele partido às eleições legislativas de 2019. Falámos com o técnico de manutenção industrial que é um admirador confesso do “estadista” António de Oliveira Salazar e um crítico ao processo de revolução, que ocorreu em 1974, por achar que a mesma foi precipitada.

Francisco Pereira e líder nacional do PNR Francisco Pinto Coelho em Braga (c) FAS / Semanário V

Como é que a ideologia nacionalista entrou na sua vida?

Desde os 15 anos que me apareceu alguma inquietude em relação à política atual. Ou seja, comecei a interrogar-me se aquilo que existia antes do 25 de Abril teria sido assim tão mau como diziam e comecei a consultar documentos dos dois lados. Fui percebendo que as coisas não eram assim tão lineares como dizem os defensores do 25 de Abril. Desde muito jovem, derivada à minha formação católica e conservadora, fui-me aproximando das doutrinas do nacionalismo. Posso dizer que as minhas principais referências politicas são Oliveira Salazar e Primo de Rivera, fundador da falange espanhola, assassinado em 1936 durante a guerra civil. Na altura, em 2005, através da internet, comecei a contactar com grupos nacionalistas e cheguei a aproximar-me do PNR, mas acabei por me afastar por questões familiares e acabei por me filiar no CDS.

Foi do CDS para o PNR?

Sim. Fui militante do CDS mas foi uma desilusão total. O CDS é um partido liberal de uma direita envergonhada… Não é o mesmo que foi fundado em 1974. Aliás, eu próprio estava enganado porque como nacionalista não poderia estar no CDS, que se tornou um partido liberal. Era um partido democrata cristão e agora é mais liberal, e eu não sou liberal, simpatizo com algumas teorias, mas não sou liberal, sou católico e conservador.

O que é isso de ser liberal ou conservador?

Os liberais apela à reduzida participação do Estado no país. Mas eu defendo que o Estado deve intervir em determinadas situações e tem sempre de estar acima de tudo e de todos. O Estado tem de superior.

Como assim?

Sou republicano, defensor do modelo da República e não acredito no regime monárquico, que é algo que faz parte da história e não se enquadra no modelo atual. Como nacionalista, defendo no nacionalismo uma aliança entre os valores morais da direita e os valores sociais da esquerda. Não pode haver patriotismo se não houver justiça social. Porque o nacionalismo é a defesa da nação e do povo, e se vamos a falar ao homem na rua sobre o patriotismo, amor à pátria e valores históricos, e não falarmos em melhores condições de trabalho e de vida, ou seja, melhores condições sociais, salários dignos, sistema de saúde digno, segurança social, se não falarmos, os trabalhadores não querem saber do patriotismo para nada.

Francisco Pereira / DR

Há necessidade de sermos mais patriotas?

O patriotismo, é preciso e está acima de qualquer divisão entre esquerda e direita. A direita muitas vezes utiliza a pátria contra os trabalhadores, e por isso estamos contra ela. Acreditamos que tanto à esquerda como à direita existem valores justos. Valores da República.

Não tem qualquer apelo monárquico, então…

Vou-lhe dizer assim: se eu tivesse vivido em 1910, eu próprio seria um dos principais impulsionadores para acabar com a Monarquia…

Porquê?

Sou a favor da revolução republicana porque entendo que qualquer homem, vindo de qualquer estrato social, tem direito a tentar lutar para chegar ao topo. António Oliveira Salazar vinha de baixa condição social, assim como outras figuras do Estado Novo e da 1.ª República. A monarquia ignorava os problemas do povo, e se o rei não vem do povo, não pode compreender as necessidades do povo. E defendo uma república em que o Estado seja não confessional mas que reconheça constitucionalmente ter a religião católica, porque é a praticada pela maioria dos portugueses, mas acima de tudo o Estado deve ser laico.

Defende um estado laico?

Sim, e concordo totalmente com a liberdade religiosa de cada um. Defendo que Portugal tem uma identidade cristã inegável, como se viu ao longo dos séculos, mas isso não pode impedir que outros pratiquem a sua fé. Até no Estado Novo isso foi permitido. A mesquita de Lisboa foi inaugurada no tempo do Estado Novo, a Igreja do Mirante, no Porto, e o Tabernáculo Batista eram de outras confissões e coexistiram com o Estado Novo. A sinagoga do Porto sempre funcionou inclusive durante a segunda guerra mundial. Sou defensor da liberdade religiosa, que vai da consciência individual de cada um. Não tenho o direito de impor a minha fé a outras pessoas. Dentro do partido defendemos que a raiz heriditária do país é a cristã, mas isso não quer dizer que não sejamos tolerantes para com a fé das outras doutrinas. Fui aluno num seminário franciscano de capuchinhos, e isso pode ter-me influenciado a aprofundar a minha fé a nível pessoa, no entanto sou um firme defensor que haja separação entre o Estado e a Igreja. Para mim a igreja católica é igual à fé muçulmana ou a fé judaica, E atenção, se um dia o estado laico estiver em perigo, sou o primeiro a sair a rua a defender a separação.

PNR em Braga (c) FAS / Semanário V

Como vê a atuação deste Governo. Considera que se trata de Esquerda Radical, como muitas vezes se ouve?

É um Governo de esquerda radical, sem dúvida. Muitas medidas que foram implementadas são puramente de caráter ideológico e isso demonstra que temos uma esquerda radical no poder. Por exemplo, a questão da implementação da ideologia de género, é uma das medidas. Aliás, basta ver que no inicio da legislatura, a Catarina Martins disse que ia trazer muitos temas polémicos, e basta ver que o PS precisa do PCP e do BE para governar, por isso considero que este é um Governo de esquerda radical, sobretudo devido ao Bloco de Esquerda. O PCP é mais um marxismo leninismo que se afasta um pouco da radicalidade.

Sente alguma afinidade com o PCP por serem conservadores? Será assim tão diferente do PNR?

O facto do PCP ser internacionalista e o PNR ser nacionalista já marca uma grande diferença entre os dois partidos. O PCP, a seguir ao 25 de Abril, incentivou à nacionalização enquanto nós defendemos a propriedade privada e apenas entendemos que o Estado deve ter regulação em certos sectores de economia. Defendemos uma sociedade organizada enquanto o PCP é ao contrário, quer tudo nas mãos do Estado. A verdade é que o PCP já tem mudado um pouco, mas foi porque a realidade os obrigou a tal.

Então não há simpatia de sua parte para com o PCP?

Não há qualquer tipo de simpatia entre PNR e PCP. Agora, eu pessoalmente, respeito a luta de certos dirigentes comunistas durante o período do Estado Novo, porque eram pessoas que lutavam e acreditavam nas ideias. O Álvaro Cunhal acreditou sempre no comunismo e morreu a acreditar que o modelo podia funcionar e isso é uma questão que respeito muito. Mas o papel que teve depois do 25 de Abril, em que se empenhou a entregar as províncias ultramarinas aos governos soviéticos, fez com que passasse a não nutrir qualquer simpatia por ele. Teria muito mais para dizer mas prefiro guardar. A minha opinião é francamente negativa.

E sobre Mário Soares, outro impulsionador do pós-25 de Abril?

Sobre o Mário Soares, ainda pior. O Mário Soares tinha ideologia e lutou sempre contra o regime, e isso é de louvar o empenho, mas mais uma vez, o papel a seguir ao 25 de Abril, onde se empenhou em entregar o Ultramar de qualquer maneira, faz com que não goste dele. Admiro a luta, assim como socialistas reconhecem virtudes do Salazar, mas não concordo com o que se passou depois da dita revolução.

A revolução era dispensável?

Que ninguém duvide que se não tivesse havido 25 de abril, hoje o Estado Novo não continuaria. Teria havido uma abertura e, devagar, o país ia para a democracia. O 25 de Abril precipitou o país para o caos e para a corrupção.

Acha então que o Salazarismo estaria condenado de qualquer maneira…

O Estado Novo durou enquanto Salazar durou, depois o Estado Novo não conseguiu fazer mais. O doutor Salazar, para mim, não foi um ditador, mas sim um estadista. A figura máxima na constituição era o Presidente da República, e ele podia exonerar o primeiro-ministro, mas nunca o fez. Aliás, em 1958, na campanha eleitoral, o Humberto Delgado garantiu que iria demitir Salazar.

E acabou morto…

Sobre isso, não acredito que tenha sido a mando de Salazar. Isso foi dito pelo antigo inspetor da PIDE, Rosa Casaco, e eu concordo. Não acredito que Salazar tenha dado ordem para matar Humberto Delgado. Tenho a minha opinião pessoal sobre o responsável mas não quero abordar esse tema.

Sobre a PIDE… Acha que fazia falta hoje em dia?

A própria constituição dizia e a PIDE limitava-se a fazer cumprir as leis. Hoje em dia não era preciso uma policia de Estado. Mais uma vez porque considero que as pessoas têm liberdade para agirem em liberdade individual. Não é que acredite muito no sistema liberal mas não se pode assassinar uma pessoa por pensar diferente de nós.^

Voltando a Salazar. Foi mesmo o maior português de sempre?

Não considero que tenha sido o maior português de sempre. Considero que houve outros portugueses, estadistas como ele, que foram os maiores de sempre, como é o caso de D Afonso Henriques, D. João II, o Conde de Castelo Melhor, Marquês de Pombal, entre outros estadistas.

E o que fez Salazar para estar no mesmo patamar dos restantes que elencou?

Foi uma das maiores inteligências do seu tempo. Foi um homem que mostrou que era possível vir de uma família humilde e chegar a um dos maiores lugares do Estado português – presidente do concelho de ministros. Era um homem de uma grande inteligência que, diga-se, não quis ir para o poder porque se lembrou. Foi convidado para ser ministro das Finanças e depois do conselho de ministros. Não deu nenhum golpe, chegou ao poder na sequência de um golpe que acabou com o “desgoverno” da primeira republica. Viviamos uma ditadura democrática onde havia censura e não havia liberdade. Aliás, mesmo o voto feminino era proibido. A primeira república foi um estado criminoso, permitiu que se assinasse o fundador Machado Santos e lançou o país na anarquia e no caos, a nível social, politico e económico.

E é aí que entra Salazar…

A fama de Salazar na área financeira era tanta que acabou por ser aliciado pelo Governo. E conseguiu equilibrar as contas, com muitos impostos e sacrifícios. Mas foi a partir daí que os recursos começaram a entrar. Salazar trouxe o sentido de serviço à pátria. O sentido de amor ao país, o sentido da defesa da família com base na sociedade. Pequenas coisas como dizer que o comércio não deve abrir ao domingo por ser um dia destinado à familia… Este liberalismo económico, que condeno, põe o capitalismo acima de tudo.Só em 1961, que foi a queda do Estado português na Índia, é que o país começou a ter instabilidade política e social. As greves académicas, a confusão nas ruas. Há uma coisa muito importante e interessante, segundo Sousa Franco, economista e ligada ao PS, não foi por razões económicas que o regime caiu em 74. A economia crescia 6% ao ano. Foram outras as razões do golpe. Salazar morreu pobre. É a realidade. Se Salazar tivesse cometido crimes de corrupção, se tivesse havido escândalos de corrupção, eles teriam aparecido no final mas não apareceram porque não existiram.

Crê que existia menos corrupção no Estado Novo do que hoje em dia?

Disso tenho a certeza. A sua honestidade foi extraordinária. Podia ter enriquecido e morreu pobre. Tendo em conta as altas taxas de abstenção nos últimos tempos e se perguntarmos a alguém na rua a opinião sobre os politicos, ela é francamente negativa. Qualquer Estado europeu civilizado envergonhar-se-ia de haver nepotismo no Governo. Porque as pessoas devem ser convidadas pelo mérito, não por ser familiares de A, B ou C. Mas por um lado, é bom que isto aconteça, que sejam divulgadas estas estratégias, porque esta classe política, desde o 25 de Abril, apenas demonstra que perderam a vergonha, tanto PS como PSD.

Estará Portugal à espera de um Bolsonaro que promete acabar com a corrupção?

Não, Portugal está à espera de outro tipo de política, uma política protecionista, nacionalista e solidária, na qual os portugueses estejam sempre primeiro, acima de tudo isso. Acredito que em mais países na Europa, as questões como a insegurança e emigração descontrolada, ajudam partidos nacionalista a chegar ao poder. Aliás, antes do KIT defender o Brexit, já há muitos anos o partido nacionalista britânico defendia isso. Agora, obviamente que eu não defendo a saída integral. O que defendemos é que os partidos nacionalistas devem ganhar força política e restruturar a Europa desde dentro. Uma coisa que defendemos é o controle de fronteiras. Voltar a ter fronteiras, não fechadas, mas controladas. Mesmo em questões económicas, seria vantajoso. Eu pessoalmente não me importo de entrar em Espanha e mostrar o meu cartão de cidadão. Mas, da maneira que as coisas estão feitas, já não há muita volta a dar. Queremos uma Europa de nações e não uma Federação de Estados. Queremos que as nações europeias possam defender a identidade comum da Europa para que valores como a liberdade, igualdade e sobretudo a identidade cristã da Europa não desapareçam…

Será que os próprios cristão não têm culpa desses valores desaparecerem ou serem substituídos pelos de outras religiões?

De certa forma sim, mas a Europa, e estou a citar um político português do PSD, Vasco Graça Moura, dizia que mesmo que a Europa quisesse, não tem capacidade para acolher nova gente. A entrada deve ser controlada. E atenção, eu não sou racista, um cristão jamais pode racista, porque todo o homem é criado à semelhança de Deus. Todos somos criados à semelhança de Deus. O que está em causa é defendermos que cada realidade é única e a mistura de culturas pode ser má, fazendo desaparecer a cultura própria do país. Veja-se a França e certos bairros de Londres onde já não se vêem igrejas. Os muçulmanos têm direito a expressar a sua fé mas o radicalismo islâmico tem perpetrado horrorosos ataques na Europa.

E fora da Europa…

Sim, este último que aconteceu no Sri Lanka foi um ataque propositado à religião católica, e vi isto com tristeza e amargura. Mas pelo que tenho visto, com ataques em França e Espanha, qualquer dia pode acontecer em Portugal…

Em Braga também?

Sim, em Braga também, porque nenhum lugar está livre. Esperemos que nunca aconteça nada, mas nenhum lugar está livre.

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