Braga

À Conversa com Vânia Silva, diretora artística da Tin.Bra, Academia de Teatro de Braga

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“Eu sinto que aqui estou a mudar alguma coisa”

Combinamos no Astória. A Vânia é das pessoas que chegam a horas e das que se encontram rápido no olhar, porque se dá por ela a aparecer. Não pediu nada, estava a sorrir. Sem demorar esta conversa surgiu e foi fácil de sentir.

Andreia Santos: Quem é a Vânia?
Vânia Silva: Creio que as pessoas que me conhecem identificam o meu lado humano, o facto de pensar no outro… Alguns consideram-no um defeito. Quando era miúda ajudei a minha mãe a tomar conta da minha avô e essa foi uma experiência que me marcou, recebi muito da minha mãe…

A: Que idade tinhas?
V: Tinha 12 anos… Sou normalmente calma e reservada… mas tento não deixar nada para amanhã. Quando andava no Sexto ano,(a sorrir), havia um menino que gostava de mim e eu gostava dele. Uma altura pediu-me um beijo e eu não lhe dei, embora quisesse. Nesse mesmo dia esse rapaz foi atropelado e faleceu…

A: “Não deixar nada por dizer ou fazer” é um lema para ti…
V: Sim. E ajudar o outro.

A: O que me dirias desta fase da tua vida?
V: Estou numa fase da vida boa, muito serena. O trabalho é o que me ocupa mais, mas sem peso. Já vivi mais para o trabalho… a família é o mais importante para mim. Houve alturas em que nunca os via e mesmo que hoje aconteça, ter um contrato aumentou a compreensão, deu a ideia da sustentabilidade deste trabalho…

A: As pessoas, a família, tendem a julgar o Teatro como um trabalho que não garante o futuro…
V: Há ainda uma visão das artes que por um lado eu percebo, não há muito apoio, a maioria dos colegas que trabalham comigo estão a recibos verdes… Acho que os pais terão que perceber que os filhos têm que viver a vida deles…

A: Hoje és a diretora artística da Tin.Bra, como chegaste até aqui?
V: Foi desde a Ana Cris… que curiosamente ganhou este ano o Prémio de Melhor Atriz da Sociedade Portuguesa de Autores. Ela falou comigo, chamou-me e inciei como aluna. Fui ao Brasil, licenciei-me em Teatro, fiz formações e espétaculos, fui ficando. Trabalhei em vários lugares, mas levando a Tin-Bra… sempre fiz parte da direção da Associação, um trabalho que é voluntário, o que me manteve ligada. Há 5 anos houve um concurso para a função de director artístico, eu concorri e fiquei.

A: Há quando tempo estás na Tin.Bra?
V: Estou há 13 anos na Academia. Sinto-me bem neste lugar porque adopta o meu tipo de pensamento, interventivo e humano. Estando livre para outros desafios, o nome da Tin.Bra vai comigo onde for.

A: O que me dirias que é a sua missão?
V: A Tin.Bra é uma Associação Infanto-Juvenil e tem um caminho bem traçado. Temos a missão de ajudar pelo Teatro de Intervenção e pedagógico. Curiosamente temos recebido pedidos para a peça Mulheres, que é sobre violência doméstica… A comunicação social ajudou a que algo que existe desde sempre se tornasse mais vísivel…

A: Fala-me de outros temas…
V: São temas que os jovens querem tratar, há cada vez maior abertura para isso: homofobia, igualdade de género… há pouco realizamos um espétaculo sobre Alzheimer.

A: Tráfico de Seres Humanos…
V: Sim, o TSH – Quanto Vale a Vida Humana. Ganhou o voto do público, para mim o mais importante, no XV Concurso Nacional de Teatro.

A: Uma peça que choca quem assiste, mas presumo a intenção…
V: Sim, era essa a intenção (Risos). Esta equipa é um orgulho. São jovens com a mesma linha de pensamento que nós.

A: Também chegam às crianças…
V: (Risos) Costumamos dizer dos 3 aos 103, o nosso aluno mais velho tem 80 anos. Com as escolas temos feito muito trabalho, na área da reciclagem por exemplo. Estamos muito contentes com o apoio do Município, da Câmara de Braga.

A: Estás a falar de apoios, de que precisam?
V: (Risos). Precisamos de uma sala. De um espaço. Não temos salas apropriadas, não têm altura suficiente. Por vezes temos que ensaiar à chuva. Se alguém nos quiser ajudar…

A: Percebo que terás múltiplas funções…
V: Sou coordenadora de atividades, digo o que é possível ou não de se fazer. Sou encenadora, atriz, professora… sra. das limpezas…

A: Quem são os teus apoios?
V: O meu pai e a minha mãe são a referência verdadeira que tenho de amor, lealdade, de respeito, de persistência e resiliência.

A: Em que é que o Teatro te ajuda?
V: O palco ajuda-nos muito ao permitir externalizar emoções. Deixa-nos trabalhar todos os nossos “eus”, os bons e os menos bons.

A: Quais são os teus ganhos?
V: As ligações com as pessoas. Gosto de estar rodeada de pessoas humildes e dedicadas. As ligações são superiores ao processo e isso é que é mesmo motivacional. Somos uma família. Há amigos meus que me dizem que poderia fazer tanta coisa, voar… e eu respondo-lhes que aqui voo. Eu sinto que aqui estou a mudar alguma coisa.

A: Não se separando o teu trabalho do mundo, que mensagem terias para o teu público agora?
V: Há uma frase do voluntariado que pode resumir o que penso: muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo. Para viverem a vida, o amanhã não é garantido…

A: O que te preocupa?
V: Acho que a geração de hoje vive de muitas complicações. Sem tempo para sentir. Os assuntos terminam em 10 minutos…

A: O que destacas do teu percurso?
V: Há experiências no Teatro no meu caminho que nos marcam para o resto dos tempos: um dia fiz de avó e um menino de 4 anos pediu para o embalar, tinha perdido a avó… Em silêncio, depois de algum tempo ele disse: “pronto, já está”… Outra altura, numa peça sobre Bullying, “O Pásssaro de Papel” que nunca poderia ser um pássaro… Num corredor do Teatro Sra Isabel, um menino de 5 anos, apareceu e a gritar dizia: “Voa Azul, Voa”…
Com o olhar a brilhar, ainda me falava de gratidão e da possibilidade de evoluir e ajudar a evoluir. Obrigada Vânia. Que sejas feliz connosco sempre.

Performance “Loucura entre almas”, 2012

Performance “Vendu”, 2018, Braga Barroca

Ensaio geral do espetáculo “C’asa de voos”, aniversário 130 anos das Oficinas de S.José, 2019

Espetáculo “A Manta” – para pré-escolar, 2018

Espetáculo “Pássaro de Papel”, 2011, Teatro Sta Isabel, Brasil

Espetáculo “TSH-Quanto vale a vida humana?” – 2018, Vencedor XV Concurso Nacional de Teatro

Performance “Humanos”, 2018

Espetáculo “Zé das Moscas”, 2018

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