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Entrevista a Isabel Carvalhais: “Eurodeputado não é uma profissão. É uma missão”

Foto: Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Isabel Estrada Carvalhais, natural de Angola mas desde os primeiros anos de infância a viver entre Vila Verde e Braga, é candidata às eleições europeias pelo Partido Socialista, podendo ser a primeira mulher de Braga a assumir as funções de eurodeputada da bancada socialista. Vinda da sociedade civil, é a primeira vez que entra numa campanha e não esquece Vila Verde, onde era conhecida pela “Belinha”, na freguesia da Lage.

Quem é Isabel Estrada Carvalhais?

Sou casada há 23 anos, e tenho um filho com 11 anos. Nasci no norte de Angola, a minha mãe é de Vila Verde e o meu pai era de Chaves. Braga e Vila Verde foram as terras que nos acolheram quando viemos de Angola. A nossa avó materna em Vila Verde foi quem nos acolheu. Ela era de Santiago de Carreiras mas viveu quase sempre na freguesia de Lage. Fiz o doutoramento em Inglaterra mas o meu local de residência sempre foi no distrito de Braga, sobretudo nos concelhos de Vila Verde e Braga. Aliás, não há nenhum sítio no concelho de Vila Verde e no de Braga em que não tenha uma história de infância. Quando vou à Lage, lembro-me logo das brincadeiras com a minha prima, onde antigamente eram campos, e agora são urbanizações. Na altura chamavam-me Belinha (risos). Há sempre histórias de quem me conhece. É lá onde está a família, os amigos, e depois há ainda este contacto a Gualtar pela minha profissão, pois sou docente há 22 anos na Universidade do Minho e são muitos os alunos que me conhecem e que hoje já são pais e estão no mercado de trabalho.

O PS tem sido criticado no Minho por ter colocado a professora no n.º 10 da lista. O lugar é desconfortável [PS quer eleger 10 deputados]?

Apesar de haver quem ache que é um modo desrespeitoso para com o distrito, eu vejo de maneira diferente. Entendo [essas críticas] como uma tentativa de desmobilizar as pessoas dando-lhes a entender que este lugar não é respeitoso. Este lugar tem hipóteses de eleição. Há muito tempo que o distrito de Braga não conseguia ter ninguém no lugar elegível. E quando se diz que não está em lugar elegível, é uma forma de descredibilizar. Não estamos aqui para substituir ninguém. Os deputados europeus não são eleitos por distritos. Passa-se essa linguagem simplificada à opinião pública, e o que os deputados têm de fazer é defender todos os cidadãos europeus que residem em Portugal. É assim que as coisas deveriam ser postas. Mas não são, e passa-se que a pessoa está lá a representar só Braga ou Viana. Quando temos a possibilidade em irmos a determinado distrito, procura-se a salvaguarda dos interesses e das empresas do nosso distrito. É de salutar que assim seja. Estar em décimo é uma possibilidade de reforçar o contingente de deputados que são originários deste distrito e que vão ter uma atenção particular às suas terras. Estar em décimo lugar é perfeitamente elegível, assim queiram as populações. Amesquinhar-se o décimo lugar por parte de outras forças partidárias, não é digno, porque cada um deve fazer o melhor do seu papel dentro da sua campanha, não é estando a olhar para o outro, a criticar o outro, cada um deve concentrar-se no seu partido e em si, nas ideias que o partido tem para apresentar, sem descredibilizar o outro, apontando que não é elegível. Não é a forma mais digna de estar.

E como está a correr a campanha? É a primeira em que participa?

Sim, nunca me tinha envolvido a este nível numa campanha. Temos tido uma grande receptividade nas pessoas. O que sentimos no contacto do dia a dia é que as pessoas estão entusiasmadas, e isso acaba por ser um impulso motivador. Temos procurado um contacto de grande proximidade, esclarecendo dúvidas. Cada um na política está como quer estar, mas o que nós temos procurado é esclarecer as pessoas sobre o nosso programa eleitoral, os planos que temos, e não precisámos de andar a retirar dos programas dos outros. Há alguns que queriam a garantia jovem, a garantia criança…

Mas isso são medidas suas que copiaram?

São medidas que estão a ser trabalhadas há muito tempo e estão no nosso manifesto eleitoral e que estão no manifesto eleitoral dos socialistas europeus. No caso da garantia jovem, o que se vê em relação a propostas de outros partidos é que pretendem reforçar, e isso é um reconhecimento do trabalho que temos vindo a fazer. Procurámos uma campanha pela positiva, esclarecendo as nossas ideias e isso acaba por dar frutos muito bons. As pessoas estão cansadas de uma política que desgasta, da maledicência, crítica, não reconhecer o que os outros fazem de positivo. O que interessa aqui é o bem coletivo. Os 21 deputados que Portugal tem no Parlamento Europeu, outra coisa não fazem para além de lutar pelo bem comum dos portugueses.

Como vê atualmente a performance desses eurodeputados?

Há de tudo. Eurodeputado não é uma profissão, é uma missão. E como em todo o lado, há pessoas mais empenhadas, outras menos. Quem está de fora também não sabe porque é que alguém parece ser mais ou menos empenhado. Há circunstâncias que explicarão porque é que uns fazem mais outros menos. Acho que todos são empenhados, mas nem sempre são bem sucedidos na transmissão do trabalho que fazem. Outros fazem esse trabalho e acabam por ser mais conhecidos. Sou muito contra esta ideia dos rankings, os sérios e os que não são sérios. Isto é um trabalho de equipa. Um eurodeputado tem a sua equipa e depois existem outros deputados. É preciso fazer alianças dentro das suas “famílias” partidárias no Parlamento Europeu. Entendo que os rankings surgem agora por estarmos em campanha, as pessoas valorizam. Acho que nem sequer os eurodeputados se dão ao respeito quando valorizam esses rankings. Num país que tem tão pouca literacia das instituições europeias, perder-se tempo que tudo se resume a rankings, quem fica com a medalha de ouro, quem se portou mal, não me parece a forma correta. Isso não valoriza o trabalho menos visível dos eurodeputados. Por isso, desconsidero um pouco esses rankings até porque não desmistificam aquilo que é o funcionamento das instituições.

Acha que é importante esclarecer a população sobre o funcionamento do Parlamento Europeu

Não considera um assunto complexo, mas não é um tema apelativo. Isto é um trabalho que deveria ser gradual, a pedagogia já devia existir há muito tempo, desde os últimos 33 anos. Julgo que existe algum esforço, os eurodeputados tentam desmistificar este tema, mas o que eu acho é que há muitas oportunidades em que se poderia passar alguma mensagem mais esclarecedora do funcionamento das instituições. Mas isso é perdido, sobretudo nos debates. As questões da política nacional têm mais relevância, a performance dos eurodeputados fica mais relevante. Discutem-se outros temas e perde-se oportunidade de explicar aos cidadãos o funcionamento das instituições. Fala-se também muito nos fundos comunitários e deixa-se de lado as questões sociais.

Há uma necessidade de políticas sociais?

Qualquer trabalho que possamos fazer no Parlamento Europeu no sentido de reforçar o pilar social, é extremamente importante. O que temos visto é uma degradação acentuada da relação de confiança dos cidadãos com a União Europeia. Fala-se que as taxas de confiança são elevadas, mas temos de ir além dos barómetros. A forma de recuperar a confiança no Projeto Europeu passa pelo voltar àquilo que é a matriz identitária da Europa – a solidariedade – e recuperar um pilar fundamental dos direitos sociais, que nunca foi verdadeiramente cumprido.

Ideias e propostas para recuperar esse cariz humanitário?

Por exemplo, é importante a defesa de um plano europeu para políticas de habitação. É um problema a nível europeu, sobretudo para os casais mais jovens. Este plano europeu não só a pensar nos mais jovens, mas estes são uma das partes da sociedade que mais sofrem com isto. É importante também a defesa do programa Garantia Criança, que visa melhorar as condições das crianças, a nível escolar e de saúde. Gostava de destacar que os socialistas europeus foram pioneiros ao apresentar esta garantia em 2014. A proposta já foi aprovada e o que podemos dizer é que quem quiser juntar-se a esta nossa ideia é muito bem-vindo. Não nos parece correto quando tentam colar as ideias de uns à dos outros. Vou dar exemplo. Há agora várias forças políticas manifestam-se preocupadas com questões de natalidade. Eu recordo que em 2010, a eurodeputada Elite Estrela propôs o aumento a nível europeu da licença de maternidade paga na totalidade. O conselho não aprovou, mas chegou-se agora a um compromisso, uma diretiva para conciliar a vida familiar com a vida profissional. Temos um compromisso com a criação do emprego jovem, também a abranger as plataformas digitais, e queremos que esta diretiva fosse mais ambiciosa, mas é o nosso compromisso de dignificação do emprego através de contratos laborais dignos a pensar sobretudo nestas novas profissões, como o caso da Uber, que tem circunstâncias especiais porque o mercado de trabalho não estava desenhado para estas especificidades e esses trabalhadores têm de ter contratos dignos, com salvaguardas. Outro dos nossos compromissos é o reforço da Garantia Jovem, da Garantia Criança, dos contratos laborais, o reforço de conciliação da vida profissional com a vida pessoal, a política de habitação. São parte das nossas preocupações para recuperar o pilar das questões sociais na Europa.

E quanto aos populismos e extremismos. Está a tornar-se um problema?

Os populismos sempre existiram, tanto à esquerda como à direita, mas alimentam-se de momentos de maior tensão e estão à espreita do momento ideal para surgir. E os últimos anos têm proporcionado momentos para o florir destes populismos. Temos de ter consciência que uma vez instalados, dificilmente eles recuam, tendo conseguido criar lastro, conquistar opinião pública. É um erro pensarmos que uma vez restabelecida a confiança dos cidadãos na economia e no emprego, que as pessoas voltam ao centro. Isso não é verdade. Muitas pessoas passaram ao lado desta crise económica e social e são defensores dos valores que se albergam por detrás dos populismos. No caso da direita, tem a ver com xenofobia, discriminação, não aceitação das diferenças, fechar fronteiras, políticas protecionistas do Estado… E há pessoas convictas de que isto é benéfico. Não é dizer que há pessoas boas e más, mas há quem esteja convicto que é por aqui o caminho. Nós não cremos que seja o caminho, porque atenta contra liberdade, democracia e contra o respeito que devemos àquilo que tem sido a luta na Europa ao longo de séculos. Temos de estar muito atentos na qualidade dos caminhos que trilhamos. O pior erro é desvalorizar, achar que é algo passageiro e que está na moda e depois deixa de estar na moda. Infelizmente não é assim. Por exemplo, o partido FIDES foi acolhido pelo PPE. Não haja dúvidas que este partido de extrema direita da Hungria sempre disse ao que vai. E a aceitação no PPE não significa que esse grupo comungue dessas ideias, mas parece-me que foi uma tentativa de controlar os estragos. Pensaram “se nós os tivermos connosco talvez consigamos controlar, chamar à razão”. A ideia poderá ter sido essa. Mas o partido percebeu que não era possível fazer pedagogia com partidos como ests, porque até chegam ao próprio país e lançam campanhas nos meios de comunicação a dizer mal de Bruxelas. Isto não foi uma surpresa. Não podemos desconsiderar nada que atente contra os princípios essenciais da democracia. Esta faz-se na transparência, na participação e na responsabilidade dos políticos. A sua ação tem de ser transparente. O essencial é que estas eleições europeias são importantes para mostrar que conseguimos travar o avanço destas forças que estão apostadas em se instalar nas instituições europeias para destruir o projeto europeu. Eles fazem uso dos princípios da própria democracia para dizer que os tentam censurar. E à conta de explorarem este lado da tolerância da Europa, têm feito uma caminhada e têm-se afirmado. Mas temos de mostrar que somos capazes de lhes pôr um travão. Não podemos censurar nem martirizar, pois isso é o que eles gostariam como pretexto. Desagrada-nos a forma como usam os argumentos que resultam junto da opinião pública. Nós temos um papel importante para travar estes movimentos e puxar o pensamento crítico às nossas populações, e isto é uma luta que tem de começar.

Isso [pensamento crítico] será possível ainda nesta geração?

É possível se os jovens forem às urnas e votarem. Sei que é um fardo que colocámos nas costas dos jovens, mas a verdade é esta. Os jovens são decisivos. Se mobilizarem e votarem, mesmo os indecisos, são europeístas. O que temos é de os consciencializar de quão europeístas são. Muitos destes jovens já nasceram com o Euro, com o Erasmus, não sabem o que é mostrar passaportes nas fronteiras da Europa. E os jovens tomam isto como um dado adquirido e não o é. Em certo sentido, o que precisamos é despertar nos jovens a consciência da Europa que já está neles. Se perguntarmos se querem abdicar disto, eles dizem logo que não. O normal é quererem estas experiências europeístas. O que eles assumem como normal pode estar em causa e se tiverem esta consciência, são os primeiros a estar na linha da frente a favor do projeto europeu. O estar indeciso não é mau. É vital a defesa do seu modo de vida. Estamos a falar de jovens com preocupações ambientais. Os nossos cidadãos europeus não estão dispostas a fazer concessões.

Estarão os políticos descredibilizados perante esses jovens?

Aqui, todos somos políticos. Um político não é uma profissão à parte. É todo aquele que se empenha na Polis, com o bem comum. Sempre que discutimos as decisões para o bem público, estamos a fazer política. O exercício em si é das funções mais nobres, porque é uma entrega aos outros, à causa pública e à comunidade. Não há nada de indigno. Os políticos que não têm consciência ambiental, por exemplo, que ainda não fizeram a transição para este novo paradigma, têm de o fazer ou desaparecem. Estamos a passar para outro paradigma, na Europa, que é um paradigma de reconhecimento da dignidade do mundo rural. Antigamente associava-se a ruralidade à ausência de progresso, e agora não. A ruralidade é a nossa raiz e é uma parte central da identidade das populações, como o distrito de Braga, mas é um potencial de desenvolvimento cultural e económico no século XXI. A própria agricultura não pode ser como a dos anos 80, que destrói os terrenos, com recurso a químicos. Tem de haver uma harmonização, para que haja uma sustentabilidade tanto da bioidentidade como da própria agricultura.

E qual é o papel da União Europeia nessa matéria?

Nós somos críticos da União Europeia, mas estamos num contexto político que nos permite fazer estas exigências. A UE tem habituado a padrões de exigência bioética muito elevadas que não encontramos noutros países. Em questões de saúde pública e alimentar, por exemplo, onde estamos protegidos pelos cidadãos. Um dos desafios da UE é manter estes padrões de exigência elevados. Em questões de proteção de saúde pública, questões de direitos laborais e ao mesmo tempo ter uma economia competitiva onde estes padrões são continuamente elaborados. Questões de bioética, manipulação, é uma conciliação muito exigente, mas estamos aqui porque temos feito essa aposta. A UE estará num patamar a conciliar esta exigência que outras partes do mundo não estão preparadas.

Sobre a campanha. Como tem visto o distrito?

Tenho corrido todos os concelhos do distrito de Braga, nunca tinha participado em nenhuma campanha como esta, e é muito interessante. É interessante ver a dimensão mais urbana, rural e marítima, mais de interior ou mais de litoral. Temos uma riqueza extraordinária a nível cultural e património histórico e cultural. Noto isso aonde vou, tem havido um investimento grande, a nível dos apoios comunitários. Património que tem sido feito ao nível dos séculos. O importante é continuar nessa linha de preservação.

A UE ajuda a manter a identidade dos países que a compõe…

A UE nunca foi contra as identidades locais. E por isso mesmo é que apoia com fundos comunitários programas de reabilitação de centros e edifícios históricos, de produtos autóctones. A UE quer que se desfrute de relações de concórdia num contexto de diversidade cultural. O programa Erasmus não pretende uniformizar ninguém, mas sim proporcionar aos jovens da Europa, o contacto com outras culturas. Defender aqui o local, curiosamente, é defender o projeto europeu. Por onde vou contam-me casos de recuperação de moinhos, de equipamentos comunitários, e o dinheiro vem da União Europeia. Vejo aqui uma ligação muito clara. Ser-se pelas nossas gentes é compreender a importância do projeto europeu.

Não é só dinheiro…

É muito mais que isso, sobretudo um projeto de valores, mas é importante que se tenha a consciência que a Europa tem estado ao lado da dignificação da nossa identidade local. E é isso que tenho visto durante esta campanha.

A UE tem ajudado a preservar a identidade minhota?

A nossa região diz-me muito. É das regiões mais lindas que conheço na Europa. Houve uma fase, nos anos 70 e 80, em que parecia haver vergonha em manter tradições, porque havia uma vontade de corrermos atrás de tempo perdido e sermos ultra-modernos, e isso era esquecer um pouco as raízes, porque nos recordava uma instrumentalização ideológica das nossas raízes no passado. Nas últimas duas décadas fizemos as pazes e voltamos a perceber a importância em termos orgulho nas nossa raízes. Quando vejo tradições, como a subida da Vezeira, no Gerês, que são raras de encontrar na Europa, só tenho pena que não haja mais pessoas envolvidas no estudo da beleza das nossas tradições, para compreender porque são feitas, que valores eram vividas quando faziam estas práticas. Agora são vividas de forma diferente, mas o que significam hoje é o respeito pelo passado.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista