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Presidente da junta não viu “mal nenhum” no transporte com carrinha para festa do PSD

Fernando André Silva

Uma carrinha de uma junta de freguesia, uma quinta de eventos, um comício partidário e uma participação ao Ministério Público e à Comissão Nacional de Eleições. Foi com estes ingredientes que estalou a polémica em Vila Verde, depois da União de Freguesias de Marrancos e Arcozelo ter cedido transporte, alegadamente pago, para habitantes da freguesia se deslocarem ao comício político do Partido Social Democrata (PSD), que decorreu no passado domingo, na Quinta da Malafaia. Uma reportagem da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) que destacou o facto de uma carrinha de uma junta de freguesia ter sido mobilizada para um comício político, desencadeou várias notícias publicadas nos meios de comunicação locais e regionais e várias críticas por parte de vários quadrantes da política em Vila Verde, e não só.

Presidente da junta não viu  “mal nenhum”

Contactado pelo Semanário V, o presidente da União de Freguesias de Marrancos e Arcozelo, Manuel Rodrigues, eleito com primeiro mandato pelo PSD, refere que se deslocaram dez populares na viatura mas assegura que o serviço foi contratado por um habitante daquela união de freguesias, que terá pago 150 euros pelo aluguer da carrinha de forma a transportar militantes do PSD até ao arraial minhoto, e que não vê “mal nenhum” na entrada de mais algum dinheiro para os cofres daquela autarquia local. Confessa-se mesmo surpreendido pelas proporções que o ato desencadeou,O autarca garante que o serviço foi requisitado por um habitante que estaria a “pensar alugar um autocarro”, mas decidiu fazer a proposta ao presidente da junta de forma a “ajudar” a junta a ganhar um dinheiro extra para os trabalhos da freguesia. “Fizeram-nos essa proposta e decidimos aceder, acordando o valor de 150 euros”, explicou Manuel Rodrigues, salientando que “a junta acaba por beneficiar com o dinheiro que entra”.Questionado sobre se esta prática é habitual, Manuel Rodrigues confessa que foi a primeira vez que alugaram a carrinha da junta. “Normalmente serve para transporte de crianças e idosos, não temos por hábito alugar, mas desta vez decidimos fazer isso”, acrescentou, garantindo não ver “mal nenhum” na situação.CDS-PP faz participação junto do Ministério Público e da CNE

Mas a polémica já está instalada e as críticas têm subido de tom através das redes sociais, sobretudo através de Paulo Marques, atual presidente da concelhia de Vila Verde do CDS-PP, que já endereçou uma queixa ao Ministério Público e à Comissão Nacional de Eleições.

Na participação, a que o Semanário V teve acesso, Paulo Marques aponta a reportagem da RTP que mostra a carrinha a chegar à Quinta da Malafaia, em Esposende, considerando “absolutamente abusivo por parte do PSD nacional o uso de um transporte de uma junta de freguesia”.

“Acresce a este facto, entretanto, as declarações dos líderes locais do PSD (o PSD lidera com maioria absolutamente há cerca de 20 anos o destino do concelho) assumindo não só o uso ‘oficial’ da viatura da junta, bem como, que o serviço foi pago, isto é, uma viatura de uma junta de freguesia, ao serviço de um só partido para um comício de campanha europeia do mesmo, pago”, escreve Paulo Marques.

“Será uma junta de freguesia também uma empresa privada de transportes? Não desrespeitará, além da legalidade de uma entidade pública, a livre concorrência?”, questiona o centrista, perguntando mesmo se “não será isto crime. Agravado por se tratar de período de campanha eleitoral, prejudicando deliberadamente todas as outras forças partidária nacionais”

“Neste ponto, não deixa de ser irónico que no passado, neste mesmo município, um presidente de câmara, António Cerqueira pelo CDS, foi condenado a 4 anos de prisão e 50 dias de multa pelo crime de peculato, isto, por ir à caça no Alentejo com a viatura oficial da Câmara. Pagou com prisão efetiva”, finalizou o líder concelhio, solicitando “intervenção urgente, a bem da legalidade, da liberdade e da veracidade”.

“Falta de vergonha”, aponta ainda Paulo Marques

Através das redes sociais, Paulo Marques recorda o “caso” que abalou o concelho quando um antigo presidente da Câmara foi condenado a prisão efetiva por se ter deslocado numa viatura municipal para proveito próprio.

“Ainda sobre este triste vídeo do uso de um carro de uma junta de freguesia do nosso concelho para campanha política do PSD. Há coisas curiosas e irónicas na vida, realmente. Dei por mim a lembrar-me da história de um ex-presidente de Câmara de Vila Verde, António Cerqueira, pelo CDS, que, por exemplo, fez mais de 600 quilómetros de estradas, ajudou como nenhum outro os mais pobres e ainda conseguiu ao fim de 20 anos deixar a Câmara praticamente sem dívidas. O António Cerqueira foi condenado a 4 anos de prisão e 50 dias de multa pelo crime de peculato, isto por ir à caça no Alentejo com a viatura oficial da Câmara (errado, sim, mas valha-me Deus o tamanho da pena. Pagou!). Ironia das ironias, não se aprendeu nada pelos vistos”, escreveu Paulo Marques.

O centrista acrescentou ainda que a situação deve-se à “falta de vergonha”. “(…) fazer todos os vila-verdenses pagar do seu bolso a campanha do PSD. O CDS não deixará de usar todos os mecanismos legal (sic) para denunciar este episódio”, escreveu na sua conta de Facebook.

“Mas o que é isto?!”, questiona líder concelhio da Aliança

Também Marco Alves, líder concelhio de Amares da estrutura partidária do partido “Aliança” deixou críticas à situação. “Mas o que é isto?! Carrinha que serve para os mais carenciados das freguesias,e,fazem isto. Onde está a solidariedade e humanismo para quem mais necessita?”, escreveu o representante em Amares do partido liderado por Santana Lopes.

Marco Alves considera um “comportamento inaceitáve” por parte da junta de freguesia. “A carrinha de utilização para a população das freguesias, principalmente os mais carenciados, e, andam nas campanhas”; denunciou. “A população que abra os olhos”, acrescentou o amarense.

“Descarada corrupção sem paralelo”, escreve Martinho Gonçalves (PS)

Mais à esquerda, Martinho Gonçalves, líder da bancada do Partido Socialista (PS) da Assembleia Municipal de Vila Verde, lamentou a situação, também através das redes sociais. “Infelizmente, na minha terra, em Vila Verde, não são as autarquias que mandam”, começou por escrever o advogado e antigo deputado da Assembleia da República, falando mesmo em caciquismo.

“São mesmo as estruturas e os caciques do PSD quem põe e dispõe dos bens públicos, em benefício dos seus interesses pessoais e partidários!  Esta gente já perdeu toda a vergonha e exibe publicamente os seus crimes!  E fazem-no apostando na impunidade de que gozam, fruto da cumplicidade de quem fecha os olhos para não ver o que todos veem: uma usurpação do poder e uma descarada corrupção sem paralelo”; escreveu Martinho Gonçalves.

Comício juntou perto de 2.500 militantes da região minhota. Alguns falam em “paga de favores”

Na mesma reportagem, exibida pela RTP, uma habitante da freguesia de Atiães, concelho de Vila Verde, referiu que se tratava de fazer “um favor” à estrutura partidária, acrescentando que foi convidada a participar no comício pelo presidente da junta e pela “senhora da Cultura”, referindo-se eventualmente a Júlia Fernandes, vereadora da cultura na Camara de Vila Verde e que é também esposa do candidato às europeias pelo PSD, José Manuel Fernandes. Recorde-se que JMF lidera também o PSD a nível distrital e foi uma das principais figuras na organização deste comício.

A festa juntou perto de 2.500 pessoas afetas ao PSD, muitas com bilhetes oferecidos, como revela a reportagem da RTP. Aos que não tiveram convite oferecido, o PSD pagou metade da entrada na quinta (5€) por cada militante.

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Fernando André Silva

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Jornalista