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Ex-combatentes em Vila Verde. “Chamam-nos assassinos mas não fazem ideia do que passámos”

Perto de meia centena de antigos combatentes na Guerra do Ultramar, pertencentes à Companhia de Caçadores 2794, reuniram-se este sábado em Vila Verde para um almoço convívio para reavivar as memórias do período passado em Cabo Delgado, Moçambique, onde estiveram destacados entre os anos de 1970 e 1973.

Convívio dos antigos combatentes da companhia de caçadores 2794 (c) Luís Ribeiro / Semanário V

A organização está a cabo de Manuel Gonçalves Gomes, natural de Sande mas a residir em Soutelo. “Militares, somos à volta de 40, mas também veio a família e ao todo somos perto de uma centena de pessoas”, conta.

Manuel Gomes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

A ideia de fazer o convívio em Vila Verde surgiu depois de Manuel se ter oferecido para organizar o almoço entre companheiros da 2794, que já se organiza há cerca de duas décadas.

“Éramos os primeiros a pegar nas carnes dilaceradas”

Manuel Ceia, 71 anos, vem de Viseu. Confessa que está a gostar de Vila Verde. “É a primeira vez que cá estou e, apesar de ser uma visita relâmpago, estou a achar um local bonito, com as ruas limpas, um bom aspeto, bem organizada”, revela.

Manuel Ceia (c) FAS / Semanário V

Manuel Ceia tirou a especialidade de enfermeiro na tropa e foi essa a função que desempenhou em Moçambique. “Foi um pouco complicado, éramos os primeiros a pegar nas carnes dilaceradas. Muitas vezes as pernas já tinham voado e tínhamos de prestar os primeiros socorros. Fazíamos evacuação em pleno mato, a pegar nos ferido nossos para levar para o helicóptero”, recorda. Sobre o convívio, mostra-se satisfeito pela promoção de camaradagem e para “recordar outros tempos”.

“Imagine que éramos todos amigos, e um dia vê um amigo morto, no outro dia outro, isso começa a dar raiva. Se não mato, eles matam-me”

Laurindo Silva, vem de Vila Nova de Gaia e já não passa sem estes convívios. “Isto é uma alegria. Fomos uma família durante 26 meses e meio em África”, começa por dizer, apontando a camaradagem que se vivia na guerra. “Aqui, na tropa, cada qual safava-se sozinho, mas lá éramos mesmo unidos”, reforça.

Laurindo Silva (c) FAS / Semanário V

“Havia um condutor, que era o Abrantes, soube que havia um colega ferido no mato e saiu disparado de camião, sozinho, para o ir buscar. Mas não podia sair sozinho, por isso fomos todos atrás noutro carro para ir com ele. Infelizmente o colega já estava morto”, recorda Laurindo.

Sobre os tempos da guerra, Laurindo diz que só quem por lá passou é que sabe o que se viveu. “Quando regressei, ouvi muita gente dizer que nos davam comprimidos e ficávamos meios malucos, mas isso não era preciso. Se você estivesse lá, imagine que éramos todos amigos, e um dia vê um amigo morto, no outro dia outro, isso começa a dar raiva. Se não mato, eles matam-me. Por isso tenho mesmo de disparar. Isto mesmo no meio do mato, em Nangololo”, recorda.

Dos vários aerogramas (correspondência via aérea), guardou dois. “Um foi na altura da Páscoa, e o outro foi a ‘peluda’, que era a carta a dizer que podíamos regressar”, lembra.

Convívio dos antigos combatentes da companhia de caçadores 2794 (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Laurindo guarda alguma mágoa em relação às gerações mais novas. “O 25 de Abril, a mim, não me disse nada e continua a não dizer nada”, afirma. Justifica esse pensamento “pelo que lá se passou” e pela mágoa de ouvir o povo português mais novo, apelidar antigos combatentes de “assassinos”.

“Isso é de quem não sabe e quem não viveu a guerra. Na altura até me disseram que ia para Moçambique de férias, mas não imaginam o que passámos lá. Eu cá trabalhava na construção civil, e quando regressei continuei na mesma área. Na guerra era condutor mas quis voltar para a minha profissão”, atira.

Todavia, nem tudo são más recordações. “Vi lá coisas que não ia ver à minha custa. Nos últimos meses, estive na zona mais rica de caça de Moçambique. a Safrique. Tive a sorte de guardar o rio Zambeze, e aquilo era lindo. Chegar ao cimo da serra, ver tanta água, bandos de centenas de animais. Gostei muito da natureza e também do clima quente. Isso foi positivo”, realça.

Operação em Nangololo / Arquivo blogue Dominguesbcp

Já o sentimento mais triste que o assolava era mesmo o “dia da família”, o domingo: “quando calhava de estar no campo militar ao domingo, e pensar que poderia estar em casa, no cinema, ou fosse onde fosse. Estaria sempre melhor. Era uma tristeza que nos assolava ao domingo. Eu já era casado, tinha uma filha… não era fácil”, finaliza.

“Cheguei a ver quatro à minha frente a sofrer uma emboscada com minas”

Herculano Cardoso veio de Lisboa. Refere que “enquanto houver saúde, devemos vir, porque é bonito reencontrar os colegas”. “Estive 20 anos sem contacto nenhum com os colegas e desde que descobri estes convívios, tenho vindo sempre. Aqui encontrámos pessoas que não vemos há tanto tempo, é muito bom”, explica.

Convívio dos antigos combatentes da companhia de caçadores 2794 (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Sobre o período de guerra, confessa que houve “dias bons e dias maus”. “Eu era da categoria de armas pesadas. Cheguei a ver quatro à minha frente a sofrer uma emboscada com minas. Dois deles morreram. Eu tive sorte, vinha atrás e não tive nada”, atira.

Dos cerca de 110 elementos portugueses, aquela companhia foi das que menos baixas sofreu. Em ataque morreram dois, um morreu atingido por “fogo amigo”, e outro “porque estava embriagado e saiu do quartel”. “Foi encontrado passados oito dias, morto, no meio do mato. Mas terá morrido de hipotermia, e não de ataque inimigo”, conta Herculano.

46 anos depois do regresso de Moçambique, alguns dos elementos da 2794 reencontram-se pela primeira vez em Vila Verde, depois de uma visita à igreja paroquial e à cervejaria Letraria. O almoço decorre durante a tarde em Sabariz.

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