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Indianos são felizes a colher mirtilos em Pico de Regalados

Fernando André Silva

Os ecos de música tradicional indiana [punjabi] soam por entre as fileiras de plantas de mirtilo na propriedade de quase dois hectares ao entrar no centro histórico da vila de Pico de Regalados, junto à face da Estrada Nacional 101, concelho de Vila Verde.

Lá, um grupo de cerca de 12 elementos de nacionalidade indiana colhem mirtilos já integrados com outros trabalhadores de nacionalidade portuguesa. Estão durante o período de verão alojados em Vila Verde, para a colheita de mirtilos em propriedades agrícolas de Pico de Regalados, Lanhas, Amares e Terras de Bouro.

Grupo de 12 indianos colhe pequenos frutos em Pico de Regalados (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Foto: Luís Ribeiro / Semanário V

Foto: Luís Ribeiro / Semanário V

Foto: Luís Ribeiro / Semanário V

Vindos das regiões do Panjabe e Déli, estes indianos trabalham para Paulo Narciso, empresário e produtor agrícola de Almeirim especializado em recrutar mão-de-obra especializada para a apanha de pequenos frutos. O grupo foi subcontratado por um empresário de Vila Verde que explora três hectares de pequenos frutos em Pico de Regalados e em Lanhas.

Na Índia, trabalhavam sobretudo na agricultura. Plantavam e colhiam cebolas, batatas, arroz e outros vegetais tipicamente indianos. Desde que chegaram a Santarém, em 2015, “investiram” na recolha de morangos, especializando-se assim na colheita de pequenos frutos.

Os portugueses não querem trabalhar na agricultura

O Semanário V falou com Paulo Narciso, empresário de Almeirim, no distrito de Santarém, que ficou entusiasmado pelo destaque dado a estes trabalhadores. Explicou que, no total, são cerca de 60 trabalhadores de nacionalidades indiana, arménia e tailandesa que colaboram consigo, de forma legal e com todas as condições.

“Comecei a apostar mais nos trabalhadores estrangeiros porque se trata de mão-de-obra especializada”, explica. “Aqui, muitas vezes, tínhamos de recorrer aos centros de emprego mas os trabalhadores portugueses vinham muitas vezes contrariados e estragavam muito os frutos“, lamenta. E Baga e os restantes indianos, arménios e tailandeses aproveitam o desinteresse geral pelos portugueses neste tipo de colheita.

Baga quer ficar em Portugal

Manjinder Singh, 34 anos, mais conhecido como “Baga”, por ser “mais fácil de decorar”, é o porta-voz do grupo de trabalhadores que encontrou uma vida melhor em Portugal já desde há quatro anos. Vieram para Portugal por dois motivos. “O clima é semelhante ao da Índia”, refere Baga. Mas, aquilo que por cá muita vez se diz sobre a Índia, é o mesmo que, na Índia, se diz de Portugal.

Baga é o porta-voz do grupo de indianos (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“É um país em desenvolvimento rápido e decidimos investir cá o nosso futuro”, explica Braga, referindo que “daqui a alguns anos haverá muitas mais propriedades de pequenos frutos espalhados pelo país“.

Da região de Uttarakhand, Baga, à semelhança da maioria destes trabalhadores, tem uma filha em idade escolar. “A minha filha tem 8 anos e a minha mulher não trabalha, está a cuidar das propriedades agrícolas, da minha filha e dos meus pais, que já estão velhos”, conta.

Baga em entrevista ao Semanário V (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Enviámos dinheiro para as nossas famílias e, os que só têm lá a esposa, estão a pensar trazê-la para cá, mas nós temos pais e filhos que estão lá a estudar e ainda não será a altura indicada”, explica. No entanto, Baga pensa ficar em Portugal “até ao fim da vida”. “Enquanto a minha mulher cuidar dos meus pais, fica por lá, mas daqui a alguns anos deve vir para cá, assim como a minha filha”, assegura.

Baga só tem elogios a deixar aos portugueses. Explica que por cá, não sente racismo, ao contrário de outros países europeus. “Os portugueses sabem receber e são muito amigáveis, estão sempre a querer ajudar quando precisámos de alguma coisa”, diz. Conta que cá se sentem integrados, seja no Alentejo, onde residem maior parte do ano, ou em Vila Verde, que estão agora a conhecer.

Outra das características apontadas pelos indianos é de que, em Portugal, não é preciso ser-se muito rico para se ser feliz. “Cá não se ganha tanto dinheiro como em França ou Alemanha, mas somos muito mais felizes, tanto pelas paisagens, sobretudo aqui no Norte que nos faz lembrar as nossas montanhas, como pelas pessoas, que nos ajudam a ser felizes”.

Júlia Barros e a delicadeza da colheita de mirtilo

Falamos com Júlia Barros, responsável da plantação de mirtilos onde Baga e os 11 colegas trabalham. Explica que são “muito divertidos” e sabem o que estão a fazer. Júlia, também ela filha de agricultores de Vila Verde e que, de há uns anos para cá, começou a especializar-se na transplantação e recolha de mirtilos, explica que a colheita é feita de modo delicado, “bago a bago”.

Para colher, “é preciso delicadeza mas também que o fruto seja bom, ou seja, que não esfole”, conta Júlia, apontando que Baga e os colegas “estão a colher muito bem”. Os bagos de mirtilo podem estar maduros à primeira vista, mas o amadurecimento do fruto é gradual. “Há algumas bagas que estão maduras por cima mas por baixo ainda estão verdes, e os indianos têm isso muito em atenção”, reforça a portuguesa.

Júlia, e outras quatro colaboradoras, trabalham para um produtor de Vila Verde. Para além dos cinco portugueses, os doze indianos ajudam a colher os mirtilos de dois hectares em Pico de Regalados e de um hectare em Lanhas. “É o primeiro ano que estamos a colaborar com eles e tem sido muito positivo, embora só comuniquem em inglês”, diz. “Mas, com gestos e brincadeiras, já nos vamos entendendo bem”, reforça.

Em média, trabalham oito horas por dia, colhendo cerca de 5 quilos de mirtilo por hora, dependendo “do tamanho do fruto”.  “O número é difícil de avançar porque temos nove variedades de mirtilos e há algums que são maiores, outros mais pequenas”, conta.

Sobre a remuneração, é feita pelo dia de trabalho, e não pelo número de frutos apanhados. “Aqui ganham todos o mesmo valor, ao dia, e se fizermos horas extra também as ganhámos. Não há escravidão (risos)“, conta. Dois dos trabalhadores portugueses são estudantes universitários.

Júlia conta ainda que a colheita dura entre junho e setembro. “Começámos esta semana e devemos ter mirtilos para colher até setembro”, avança. O produtor apostou em diferentes variedades de colheita para ir colhendo ao longo dos meses. “Geralmente, se for tudo a mesma variedade, o fruto amadurece todo na mesma altura e são precisas 30 pessoas por hectare para ser colhido antes de estragar. Assim, como temos diferentes variedades, bastam 15 pessoas de cada vez”, aduz.

Desta forma, há frutos novos para colher a cada 15 dias, durante o período de verão. A produção de cada planta de mirtilo, no entanto, é de uma vez por ano, com as árvores a durarem de 30 a 40 anos.

Fotos: Luís Ribeiro / Semanário V

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Jornalista