Andreia Santos Opinião

Opinião de Andreia Santos: Struggle

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Regressei a Braga, a manhã já abriu por cá, sentei-me agora para te escrever e pedir a tua atenção. Há minutos conversava com uma paciente sobre o sentido que atribuímos às nossas vidas, sobre a necessidade de reflectir o caminho e, mesmo quando não dá para abrandar o ritmo, fazer pausas na rotina, explorar os nossos interesses para além do que profissionalmente somos. Hoje quero falar-te sobre mudanças, de uma em especial.

A maioria das pessoas profundamente envolvidas no seu trabalho associa a sua identidade ao desempenho. No Sábado passado, no evento solidário da Sports Embassy pude ouvir vários testemunhos e considerações sobre isso. Muito embora já não se olhe para a profissão conforme o fazíamos no tempo dos nossos pais ou avós, para os nossos atletas este tema é difícil de abordar, pela natureza muito própria da sua carreira. “Os atletas são mais susceptíveis a ligar o que são ao desporto que praticam, começam muito cedo comprometidos com uma modalidade que lhes pede o mindset “all in”, (a maioria de nós não conseguiria restringir tanto o palco da vida, abdicar de tanta coisa e escolher estar apenas lá), o sucesso que alcançam e o reconhecimento do público faz com que seja fácil ser exclusivamente “o atleta”. Steve Magness confessou num artigo recente: “I wasn´t Steve the person, I was Steve the runner, to the outside world, but more important to myself”. Por causa de um estrelato e “identificação” precoces a verdadeira luta dos atletas, descreve o actual coach, será a de se encontrar após a largada. Ainda porque esta despedida se faz muito antes da idade da reforma.

Quando a vida desportiva acaba, (e esta pode terminar por várias razões o que determina em parte a qualidade da transição), os atletas têm maior probabilidade de passar por um estado ao qual chamamos de confusão de identidade e um risco aumentado de problemas emocionais: abuso de substâncias, depressão, ansiedade. Tratou-se para muitos de um castelo de areia, leva tempo passar da contemplação ao estado permanente de aceitação da saída. Acima de tudo quero dizer-te que não tem que ser assim. Os nossos atletas foram e são pessoas que merecem a proteção que lhes é devida, por tudo o que representam sem olhar para trás como te diria o Carlos Teixeira da SE. Tenho trabalhado as suas competências transferíveis e percebido que o mercado ainda está às escuras porque não as vê. O caminho é para a consciencialização do atleta, de quem o acompanha e de todos nós para que o olhemos como um todo e na continuidade da sua vida.

Será possível estar ao lado dos atletas para que eles possam continuar a ajudar o país também quando largam a carreira desportiva. O que mais escuto de atletas em fim de carreira é que se tivessem sido apoiados até à senioridade a perceber outras dimensões da sua identidade não tinham chegado sem se conhecer ao fim. A Inês Caetano da SE disse no Sports Summit: “é preciso preparar o adeus”. Acreditando que confias em mim, em especial se fores atleta, vou rematar e espero que não defendas, mas antes deixes entrar esta vontade de estar mentalmente preparado/a para a transição de carreira. Faz o possível por experimentar a vida, diversas actividades. Muitas pessoas acreditam que “a vocação é como uma entidade mágica que existe no mundo à espera de ser descoberta”, (Angela Duckworth), mas não funciona assim. Todos podemos desempenhar um papel ativo no desenvolvimento e exploração dos nossos interesses e encontrar por esse meio a nossa relação com o mundo, a expressão dos nossos valores. Farei o possível para te apoiar. Até já!

 

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Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional

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