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Vila Verde. Amar também é dar aos outros e Maria José doou rim ao marido por amor

Maria José Medeiros (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Há quem diga que amor não conhece fronteiras, referindo-se a amores impossíveis. Não é menos verdade que o amor pode também ultrapassar fronteiras físicas, como é o caso do corpo humano. Esta é a história de Maria José Medeiros, com 37 anos, natural de Passô, no concelho de Vila Verde. Poucos meses depois de casar com Jorge Rocha, de 45 anos, viu ser diagnosticado ao marido insuficiência renal, sendo necessário um transplante. Após muita ponderação, Maria José quebrou a barreira física do corpo e doou um rim ao marido, por amor, e para lhe garantir uma melhor qualidade de vida.

Jorge Rocha e Maria José Medeiros / DR

O Semanário V conversou com a heroína da família, que, cinco anos depois do transplante de Jorge, vive sem sobressaltos, na freguesia de Fiscal, concelho de Amares. Maria José conta que foi apanhada de surpresa relativamente à questão de saúde do marido, alguns meses depois do casamento, realizado em 2007. Jorge, sentindo alguns problemas, tinha sido consultado pela médica de família, que não lhe terá detetado nada de invulgar nos rins. Uma consulta em especialista no Hospital da Santa Casa de Vila Verde ditou o contrário, e começou aí uma saga para a família que ainda hoje está bem vincada nas memórias.

“Foi muito complicado. Depois de lhe ter sido diagnosticado um problema nos rins, foi reencaminhado para a Nefrologia no antigo hospital de São Marcos, em Braga”, conta Maria José. Em 2009, um ano e meio depois do diagnóstico, os exames mostraram o pior. A insuficiência renal de Jorge ditava que os rins apenas trabalhavam a 40%. Foi então reencaminhado para o Hospital de São João, no Porto, com estes especialistas a constatarem que a suficiência renal de Jorge vinha decaindo rapidamente. Seguiram-se três anos de medicação e controle alimentar. Os níveis de potássio eram elevados e o coração acelerava, ao ponto de impedir a vida normal de Jorge, em termos profissionais. Em 2013, a função renal de Jorge estava nos 15%. Incapacitado de trabalhar normalmente, seguiu-se um período de baixa, ao qual se juntou uma situação de desemprego da esposa.

Jorge Rocha, com os dois filhos (c) Luís Ribeiro / Semanário V

No mesmo ano, Jorge foi submetido ao tratamento através de diálise do sangue, três sessões por dia. Mas já sabia que necessitava de um transplante, pois a insuficiência estava já muito avançada. E foi aí que Maria José tornou-se parte ativa na recuperação do marido. Conta que foi preparada psicologicamente para os riscos que poderiam ocorrer e que, só com 100% de certeza que seria a dadora, é que os médicos permitiam o transplante da esposa para o marido. Seguiram-se uma série de exames e estudos, durante um ano, para garantir que o rim de Maria José era compatível com o organismo de Jorge. E era. Uma nova esperança nasceu para o casal, com o transplante a dar-se em 2014.

“Se não fosse o meu rim, ele ainda estaria em lista de espera”

Maria José Medeiros (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Tenho a certeza que se o meu marido ficasse na lista de espera, ainda hoje não tinha rim”, salienta Maria José, indicando que o proposto seria esperar pela doação de um rim através de um cadáver, algo que nem sempre é fácil de ocorrer e a lista é longa. “Foi por isso que me ofereci como dadora”, assegura.

Maria José sabia dos riscos que corria, pois nem sempre estes transplantes correm da melhor maneira, sobretudo para o dador. “Informei-me através da internet com testemunhos de dadores e alguns não correram muito bem. Mas vi uma senhora que deu o testemunho que tudo tinha corrido bem e acho que aí ganhei coragem e decidi que era mesmo isso que iria fazer”, conta. Maria José acabou por se oferecer, com relutância inicial do marido. “Ele não queria mas depois percebeu que eu estava determinada a fazer a doação. Queria assegurar-lhe melhor qualidade de vida. Sei que se ele continuasse a fazer a diálise podia sobreviver até encontrar um dador, mas assim assegurei-lhe melhor qualidade de vida”. E, em 2019, Jorge leva uma vida normal, trabalhando na área que sempre gostou – a construção.

Com dois filhos, Maria José revela que lhe perguntaram se não teria receio que fosse necessário doar um rim a um dos dois filhos, no futuro. “O tema é complicado, mas neste momento era o meu marido que precisava e só eu estava disponível. Sei que há hipótese de esta doença ser hereditária, mas pelo que disseram os médicos, não há muito esse risco na família porque não existem casos precedentes ao do meu marido”, explica. “E tenho a certeza que, depois deste ato, se um dos meus filhos necessitar, alguém irá ajudar, como eu fiz”, acrescenta.

“Continuo a dormir com o rim, só que em vez de estar no meu corpo, está um pouco mais ao lado”

Maria José Medeiros (c) Luís Ribeiro / Semanário V

No dia da operação, o casal estava nervoso e com receio que algo corresse mal. Maria José conta que foi com algum nervosismo para o bloco operatório, e que o nervosismo continuou na sequência da operação. “Só pude ver o meu marido passado algumas semanas”, explica, confessando que “iam comunicando por SMS”. Recorda ainda uma situação caricata quando uma enfermeira levou os pertences de Maria José, dentro de um saco preto, ao quarto do marido. “Ele pensou logo o pior”, recorda, com um riso algo nervoso.

Naquele momento, e depois de ter sido o marido sujeito a várias intervenções e cuidados médicos, também Maria José entrou no epicentro de uma recuperação, que se mostrou dolorosa e a requerer bastante paciência. “A parte da recuperação foi complicada. Havia o risco de sermos contaminados por bactérias então tivemos que criar aqui em casa uma divisão única, completamente desinfetada, para mudarmos os pensos das feridas”, recorda.

Maria José Medeiros (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Olhando para trás, Maria José garante que foi a melhor solução e que voltaria a fazer tudo de novo. Recomenda, até, a quem esteja numa situação idêntica, de possível dador, que não hesite, e que perceba que pode estar a dar mais qualidade, ou, até, salvar uma vida. “Se realmente amam os vossos amigos ou familiares, independentemente de serem cônjuges, acho que devem doar“, sublinha. Maria José, em tom de brincadeira, costuma dizer que “continuo a dormir com o rim, só que em vez de estar no meu corpo, está um pouco mais ao lado”.

Lista de dadores não tem aumentado

O Serviço Nacional de Saúde considera que a doação de um órgão, para além de um gesto altruísta, é considerado o maior ato de bondade entre os seres humanos, tendo em conta a extensa lista de pessoas que necessitam de um transplante, por sobrevivência ou para melhorar a qualidade de vida.

Os serviços de administração do Estado, encarregues pela parte da saúde, alertam que a lista de espera para transplantes tem vindo a aumentar, ao contrário da lista de dadores.

Como doar após a morte?

Podem ser dadores de órgãos todos os cidadãos que não se inscrevam no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA). Para tal, a morte deverá ocorrer numa Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital. É nestas unidades que se podem preservar os órgãos e as provas necessárias para a correta avaliação de cada potencial dador, esclarece o SNS.

Que órgãos e tecidos podem ser doados?

Os órgãos que podem ser doados são os rins, o fígado, o coração, o pâncreas e os pulmões. De um dador de órgãos podem também ser colhidos tecidos osteotendinosos (como osso, tendão e outras estruturas osteotendinosas), córneas, válvulas cardíacas, segmentos vasculares e pele.

Doação em vida

A doação em vida é possível se se cumprirem as condições e requisitos estabelecidos na legislação, como foi o caso de Maria José Medeiros. O dador tem de ser maior de idade e gozar de boa saúde física e mental. Cada caso tem as suas particularidades, pelo que o médico responsável pelo recetor deverá ser sempre consultado.

Consulte o portal do SNS para mais informação

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista

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