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Vila Verde. À Conversa com Johanna Cunha, “consciencializadora”

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Era fim de dia quando encontrei a Johanna em Vila Verde. Numa esplanada, longe da agitação que ainda se vivia por lá… Falamos muito mais que o que aqui fica e a partilha foi recíproca, calma.

Andreia Santos: Apesar de nos termos conhecido por cá, nasceste fora de Portugal…
Johanna Cunha: Sim, nasci em França.

A.S.: Podes contar-me como cresceste até aqui?
J. C.: Sempre estive muito ligada à natureza, tive a sorte de os meus pais me permitirem isso. Cresci muito solta no meio dos bosques, muito tranquila e livre. Depois da escola fui para a Universidade, mas não correu bem… aprendi mais fora de lá a fazer amigos, a desenrascar-me… Viajei um pouco. Estive na Palestina uma semana para o casamento da minha irmã e isso fez a diferença…

A.S.: Em que aspetos?
J.C.: Quando voltei os meus amigos estavam preocupados com carros e outras coisas… eu tinha visto as preocupações da vida de lá… Nunca foi a escola que me ensinou… (risos)

A.S.: Gostas de estar em Vila Verde?
J.C.: Estou cá há 16 anos. Vivo num paraíso. Num lugar que é a casa da minha família e da minha infância: a Casa da Cunha. Há muito sossego e a falta de preocupações com questões de segurança e vícios urbanos torna contemplativo. Quando era pequena tinha um interesse por pássaros, (já falamos sobre isso), sabia todos os que existiam, vejo-os aqui.

A.S.: Talvez o teu interesse pela natureza tenha vindo daí, da tua infância…
J.C.: Acredito que só aprendemos a proteger o que conhecemos… sou muito grata por isso e custa-me muito ver a falta de inteligência natural das pessoas.

A.S.: Esse é um bom conceito…
J.C.: Creio que fará parte das inteligências múltiplas. Temos que parar com as dicotomias… os escuteiros ajudaram-me a compreender a importância da entidade Terra, a ligar o espiritual à vida. Acredito que somos nós os guardiões do Planeta, o nosso papel deveria ser zelar, proteger e manter o que temos de bom, está tudo interligado.

A.S.: Isso é uma preocupação tua…
J.C.: Estamos a caminhar para o precipício cada vez mais rápido… Deveriamos ter a capacidade de nos colocarmos no nosso lugar no meio da natureza sem a usar como se fossemos os donos ou os mais inteligentes.

A.S.: És portanto uma ativista…
J.C.: Não me considero ativista, estou muitas vezes na contemplação… procuro descobrir de que forma através das minhas peças posso ter um impacto positivo nas pessoas.

A.S.: Dedicas-te ao artesanato e a outras artes…
J.C.: Tenho continuado a pintar, mas muitas vezes não o que a Johanna pintaria. Não acredito muito em peças apenas bonitas, em mais tralha… Acredito mais nas coisas práticas, numa vertente mais ecológica e no artesanato com preocupação ambiental.

Vaso na entrada principal do edifício da Câmara de Vila Verde, pintura de Joahnna Cunha / DR

A.S.: Que outras artes tens explorado?
J.C.: Tenho-me dedicado ao meu jardim, em sistema de permacultura. Estou próxima de um projeto da uma associação para crianças, “O mundo somos nós” de Goães. É uma associação importante para o concelho… Neste momento tenho também ocupado o meu tempo com o novo livro do meu pai…

A.S.: O teu pai é escritor. Qual é o teu papel nesse ofício?
J.C.: O meu pai tem por objetivo escrever livros para a salvaguarda da memória regional, coletiva e familiar. Isso é importante para mim. Habitualmente ajudo na digitalização e na parte de pesquisa e revisão de textos. Este livro é sobre os Celtas e recentemente fui responsavel por levar o meu pai aos museus, ele não conduz.

A.S.: Ouvi-te algumas vezes falar da Escola de Esqueiros…
J.C.: Têm sido espetaculares comigo. Fui júri de um concurso de desenho que organizaram e continuarei a colaborar com eles. Há um projeto novo para sair para as crianças, bem pensado, estruturado… posso dizer que é muito baseado na Pedagogia Montessori e que pretende a iniciação a uma cultura de proteção da natureza…

Paragem de autocarro em Esqueiros pintada por Joahnna Cunha / DR

Trabalho manual executado por Joahnna Cunha / DR

A.S.: Outras escolas podem chamar-te para isso?
J.C.: (Risos). Podem.

A.S.: E quais são as principais dificuldades de uma artista como tu? Pintas, desenhas, costuras…
J.C.: Nem sempre me dediquei a isto. Estive em várias empresas que me ajudaram a perceber que não queria fazer aquilo para o resto da vida. Aquilo a que me dedico foi ganhando relevância para mim, mas é difícil fazer escolhas, ganhar foco…

A.S.: Quando se é multidisciplinar… Sei que também és ilustradora, vi rascunhos de um livro…
J.C.: É um livro próprio, (muito emocionada) para crianças sobre a proteção animal, sobre o abandono. É fundamental criar uma ponte emocional entre as pessoas e os animais, esse é o propósito do livro. Os animais ajudam-nos a crescer e a tornar tudo melhor.

A.S.: Acredito que várias entidades poderão ter interesse nesse “manual”…
J.C.: Sim, os canis, as autarquias talvez possam retirar utilidade do seu laçamento e usá-lo para trabalhar o que já tentam trabalhar…

A.S.: Num percurso tão diversificado, quem te influenciou mais?
J.C.: Tive sorte… O meu avô materno, da “velha guarda”, nascido em 1929… Fazia de tudo… Dava-me autênticas aulas de biologia e tinha uma capacidade para inventar, reproduzir tanta coisa… A minha avó, a minha mãe que que se dedicava às artes pláticas, a minha irmã… o meu pai…

A.S.: Uma família de artistas…
J.C.: Sim (Risos).

A.S.: O que te preocupa mais em Vila Verde?
J.C.: A possibilidade de pesquisa de Lítio… para além de morar perto da encosta do monte, acho incrível estas projeções. E ainda não ouvi ninguém falar sobre isto… Inscrevi-me no movimento anti-lítio de Braga, foi criado há dias…

A.S.: Afinal és mesmo ativista (risos)…
J.C.: (a sorrir), pode dizer-se que sim…

O que aprendo com a Johanna não está nos livros. Tive a sorte de a conhecer há uns meses em trabalho… e de me deixar guiar pelos seus pensamentos vindos do interior. Fico muito grata pela liberdade da sua forma de existir sem barreiras e carregada de significado. Se a conhecesses dirias que há pessoas que são do mundo sem ser o que o mundo lhes pede por vezes para ser…

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Acerca do autor

Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional

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