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Irmãos Terra: “Nos bombeiros não há heróis, há muito trabalho de equipa”

Pedro e José Terra (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Pedro Terra e José Terra foram recentemente homenageados pela carreira de 30 anos ao serviço da Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga. Os dois irmãos, naturais e residentes em Vila Verde, na sede de concelho, estiveram à conversa com o Semanário V, e fizeram uma retrospetiva da carreira, com momentos de orgulho e outros de alguma tristeza.

Pedro e José Terra (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Em criança, já sentiam fascínio pelos bombeiros, até por motivos familiares. O pai e um tio era membro do corpo ativo dos Bombeiros Voluntários de Vila Verde. Eram também primos do recentemente falecido comandante Arlindo Sousa, que ajudou a incutir o bichinho.

Chegavam a “pegar fogo” a algumas silvas para depois apagarem com baldes de água e bombeiros, uma espécie de auto-formação. Um dia, a brincadeira correu mal. Juntaram uma pilha de pneus junto ao Hospital de Vila Verde e atearam lume. “Vieram logo os bombeiros porque o fumo era muito denso e dava a impressão que estava a sair do próprio hospital”, explica José Terra, o irmão mais velho, hoje com 51 anos. Não voltaram a repetir a proeza.

Outra motivação para integrar corpo de bombeiros, apontada por José, passa por “não haver nada para fazer”. “Em Vila Verde, naquela altura, havia rancho, futebol, escuteiros ou bombeiros. Como não gostava das outras, optei logo pelos bombeiros”, revela.

Pedro e José Terra em entrevista (c) Luís Ribeiro / Semanário V

As primeiras experiências “a sério” nos bombeiros ocorreram pela mão de um antigo comandante, que considerava Pedro, o irmão mais novo, hoje com 49 anos, uma espécie de mascote. Daí, começaram a fazer voluntariado no quartel de Vila Verde. Quando abriram vagas para os Sapadores de Braga, decidiram concorrer e conseguiram entrar. Mas o coração falou mais alto e, em acumulado, permaneceram no voluntariado de Vila Verde durante mais cinco anos.

Até se profissionalizarem, trabalhavam ambos numa empresa têxtil. Pedro era tecelão e José motorista. “Decidimos optar pela profissionalização para podermos assumir um compromisso de entrega a 100% a esta causa. A qualquer momento podemos ser chamados e se necessitarmos de reforços, temos de ir para lá, mesmo que não estejamos de serviço”, conta José.

“Estávamos nos dois lados até que o comandante distrital da altura veio ter connosco e pediu-nos para escolhermos porque estavam a ser pagos dois seguros e não podia ser. Então ficámos em Braga, mas ainda hoje custa ouvir a sirene aqui em Vila Verde e não podermos fazer nada”, revelam.

Diferenças entre Vila Verde e Braga e momentos de maior aflição

Diferenças entre Vila Verde e Braga, não são muitas, garantem. “A formação é idêntica, a única diferença será que Braga é mais urbano, com mais indústria e comércio, e Vila Verde mais rural, com incêndios florestais de maior dimensão“. Se em Vila Verde os dois irmãos já se viram “enrascados” durante incêndios florestais, em Braga o mesmo sucedeu num incêndio industrial numa recauchutagem.

José Terra (c) Luís Ribeiro / Semanário V

José recorda esse incêndio na recauchutagem Império, há cerca de 20 anos. “Foi um inferno, estivemos lá vários dias na parte do rescaldo, porque havia caves com pneus e aquilo ardeu tudo”, conta.  Pedro reforça, afirmando que “tudo o que tinha de arder, ardeu, não havia acessos para retirar material das caves, e estavam milhares de pneus e bidões com benzina, e tudo cheio de fumo. Quando arrebentava um bidão, abanava tudo. Uma parede lateral cedeu e um bombeiro caiu lá dentro, mas escapou aos ferimentos”, recorda.

Dos tempos em Vila Verde, recordam uma situação junto ao mosteiro da Abadia, quando foram chamados para auxiliar os colegas dos Bombeiros Voluntários de Amares. “Ficámos cercados durante uma hora pelo fogo“, contam os irmãos, com José a julgar que nunca mais veria a família. “Quando estava lá, pensei mesmo que ia morrer. Mas o vento virou a certa altura e empurrou o incêndio para outro lado e acabamos por conseguir sair do meio das chamas. Só quando o vento virou era ver quem corria mais para sair dali e conseguimos sair todos”, recorda.

Pedro Terra (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Pedro realça que a diferença entre incêndios florestais e urbanos é que “nos urbanos estamos preparados e sabemos os perigos que vamos encontrar, mas nos florestais não”. “O fogo é imprevisível por causa dos ventos e por falta de limpeza dos montes, logo nunca sabemos muito bem o que pode acontecer”.

O que mais dói a um bombeiro no teatro de operações

“Crianças”. José, mais emotivo, não esconde as lágrimas ao recordar algumas situações em que teve de lidar com cadáveres de crianças, tendo mesmo recebido apoio psicológico numa dessas situações. Durante a conversa, foram mesmo várias as vezes que as lágrimas caíram pelo rosto do bombeiro, pela impotência de não conseguir salvar a vida de bebés e jovens que necessitavam de auxílio.

Pedro recorda uma situação de violência doméstica em que o alerta foi dado para o esfaqueamento mortal de uma mulher, às mãos do marido. No local, e depois de recolhido o corpo da vítima, que estava fora de casa, foram alertados para a existência de uma menina, filha do casal, que não se encontrava no exterior. A emoção impediu Pedro de contar a situação, sendo o irmão José a explicar os pormenores. “A polícia não nos deixou invadir a casa e sabia-se que a criança estava lá. Depois de uma hora e meio é que nos deixaram entrar na casa e quando chegamos lá a criança estava morta. Se fossemos antes, quem sabe se a criança não estaria ainda viva”, explica. “Essa pequenina trouxe-a no meu colo para baixo (emociona-se)”, conta Pedro, revelando que foi necessário receber apoio de uma psicóloga do INEM que se encontrava no local.

Outra situação foi uma criança que caiu a um tanque. “A família tirou o menino e esperaram pelos bombeiros. Quando chegamos, tentamos respiração boca a boca, mas já estava há muito tempo sem qualquer manobra e a criança morreu. Aquilo chocou-nos não só a nós mas também aos próprios médicos”, conta José.

Já Pedro, com as lágrimas contidas, acrescenta outra situação ao rol de intervenções com crianças. “Houve uma situação em que a mãe foi trabalhar e o pai ficou a tomar conta da bebé, deu-lhe o leite à bebé e não se apercebeu que a bebé tinha de arrotar. Deitou a criança e, passado algum tempo, foi ver como estava e a bebé já estava roxa. Chamou o INEM, fomos lá, e quando chegámos, ainda fiz compressão e saiu vómito de leite, mas a criança já estava morta“, recorda Pedro, novamente emocionado. Para evitar este tipo de situação, ambos concordam que os primeiros socorros deveriam ser ensinados nas escolas.

Violência doméstica

Nem todas as situações de violência doméstica acabam com mortes, mas ambos concordam que, existindo histórico, isso pode ser uma probablidade. “Uma vez assistimos uma vítima com algumas lesões e perguntei o que se tinha passado”, conta Pedro, indicando que a vítima afirmou ter caído nas escadas. No entanto, uma vizinha prontificou-se a esclarecer que a vítima tinha sido alvo de agressões do marido e que já não era a primeira vez. “Quando tento conversar com a mulher, pedi-lhe para ser sincera e estar à vontade, mas ela não abria o jogo. Quando chegamos ao hospital, nas urgências, ao fazer a ficha, disse que ela foi agredida pelo marido e que estava com medo de dizer a verdade. O colega no hospital questionou-a e ela começou a chorar desalmadamente. ( Pedro emociona-se). Então chamámos a polícia para ir a casa dela e os agentes identificaram o marido“.

25 anos de carreira nos Sapadores

Sobre a homenagem de que foram alvo aquando das cerimónias evocativas do 220.º aniversário da Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga, no início deste mês de junho, ambos se mostram orgulhosos, mas concordam que “não há heróis nos bombeiros”.

Pedro ponta que “são vários anos de carreira a fazer um serviço que gostamos de fazer, ajudar as pessoas“. “Ficámos contentes por sermos gratificados pela cidade de Braga, porque reconhecem o nosso trabalho, não só o meu e o do meu irmão, mas também dos nossos colegas, porque ali não há heróis, há sim muito trabalho de equipa”.

Pedro recorda uma ocorrência, que o Semanário V presenciou, onde “todos precisaram uns dos outros para fazer um bom trabalho”. “Ainda bem que esteve no serviço de resgate de um ciclista de BTT [referindo-se ao jornalista] porque testemunhou que todos ajudaram, até os ciclistas. O helicóptero tinha de pousar ali no meio do monte porque não podíamos levar a vítima a pé e conseguimos cortar eucaliptos e fazer um heliporto. O homem hoje já anda, e na altura parecia que nunca mais iria andar”, finaliza.

Pedro Terra – chefe de equipa (c) FAS / Semanário V

José, por seu turno, revela ser “gratificante porque o reconhecimento incentiva-nos a ser melhores”. “Há coisas que nos marcam e que não saem da memória, mas este é o nosso trabalho e não estamos à espera de reconhecimento“.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista