Opinião Raul Marques Pereira

Opinião. A Mulher que não sente dor

Redação
Escrito por Redação

Sir William Osler, pai da Medicina moderna, afirmou: “O bom médico trata as doenças, mas o grande médico trata a pessoa que tem a doença”.

Haverá poucas áreas na Medicina em que, pela sua complexidade e pelo sofrimento que acarretam, esta frase seja tão verdadeira como no tratamento da Dor. Na abordagem da Dor, o médico terá de cuidar de cada pessoa na sua individualidade. Em suma, terá de ser “o grande médico” de Osler, colocando sempre a pessoa no centro e adaptando o tratamento a cada contexto pessoal e social.

Já passaram mais de 10 anos desde que observei o primeiro doente que me fez pensar profundamente sobre a abordagem da Dor, especialmente a Dor Crónica, no contexto dos cuidados de saúde prestados em Portugal. Tendo em conta que 1 em cada 3 portugueses sofre de dor crónica tornou-se inevitável enfrentar, desde muito cedo, esta realidade. Uma realidade de dor ligada a quadros de ansiedade e depressão com muitos anos de evolução e com uma resposta muitas vezes ineficaz dos cuidados de saúde.

Foi por isso que, em 2014, decidi avançar com um projeto diferente para o tratamento da dor – a criação de uma consulta específica de dor em cuidados de saúde primários. Esta consulta, feita no centro de saúde, permite abordar a pessoa com dor de uma forma rápida e com cuidados de proximidade. E é esta proximidade, o colocar a pessoa e não a doença no centro, que faz com que as pessoas com dor que são observadas nesta consulta sintam que têm o apoio necessário para ultrapassar anos e anos de vida com Dor.

Recentemente, a comunidade médica teve conhecimento do que poderá ser o princípio de uma ótima noticia para as pessoas com Dor. Foi publicado um artigo numa revista médica que relatou o caso da “mulher que não sente dor”.

Trata-se de uma mulher escocesa de 71 anos que nunca sentiu dor. O seu caso foi descoberto após ter sido submetida a uma cirurgia importante e não ter tido necessidade de qualquer medicamento para a dor. Isto acontece porque é portadora de uma mutação genética muito rara que leva a que não sinta dor e que tenha níveis muito baixos de medo e ansiedade. Até ao momento só foram descobertas 2 pessoas no mundo com esta alteração genética.

O facto de esta mutação interferir, ao mesmo tempo, com os níveis de dor e de ansiedade reforça a ideia, que se tem vindo a desenvolver ao longo dos anos, de um possível “tronco” comum para o desenvolvimento destas duas doenças.

O estudo desta alteração genética deverá levar ao desenvolvimento de novos medicamentos para o alívio da dor e da ansiedade. Desta forma, teremos novas armas para ajudar cada vez melhor todos aqueles que sofrem com Dor no seu dia a dia.

 

Raul Marques Pereira – Uma breve história

Raul Marques Pereira licenciou-se em Medicina pela Universidade do Porto em 2006 e é, desde 2010, Mestre em Evidência e Decisão em Saúde pela Universidade do Porto.

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar na USF Lethes (Unidade Local de Saúde do Alto Minho), onde em 2014, foi criador e atuamente responsável pela Consulta de Dor Crónica na USF Lethes, a primeira consulta de Dor em Cuidados de Saúde Primários em Portugal. Nesta USF, exerce, também, funções como orientador de alunos de Medicina e de Médicos Internos e foi, ainda, docente do Ensino Superior.

É Director da Unidade de Convalescença do Hospital da Misericórdia de Vila Verde, onde desenvolve consulta de dor crónica.

Dedica-se à investigação clínica com trabalhos publicados e comunicações apresentadas em congressos nacionais e internacionais e desenvolve actividade regular como formador em Dor múltiplos eventos nacionais.

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